domingo, 10 de abril de 2011

A Canção dos Pardais

A Canção dos Pardais (Avaze gonjeshk-ha) - 2008. Dirigido e produzido por Majid Majidi. Roteiro de Majid Majidi & Mehran Kashani. Música de Hossein Alizadeh. Direção de Fotografia de Turaj Mansuri. Majid Majidi Film Production / Irã.

 

Na 61° edição do Festival de Berlin, que aconteceu entre 10 de fevereiro, uma das cadeiras destinadas aos jurados permaneceu vazia durante todo o evento. O assento pertencia ao cineasta iraniano Jafar Panahi, que foi proibido de filmar e teve a prisão decretada pelo governo ditatorial de Mahmoud Ahmadinejad. A cadeira vazia se transformou em um protesto simbólico a favor da libertação do diretor, que tem no currículo filmes como O Balão Branco (1995)O Círculo (2000). Coincidência ou não o ganhador do Urso de Ouro, prêmio máximo do festival, e do Urso de Prata de Melhor Ator e Atriz, foi o longa, também iraniano A Separação (2011), de Asghar Farhadi. Tanto as manifestações, quanto as premiações nos ajudam a entender um pouco mais sobre o panorama atual da produção cinematográfica naquele país. Os filmes iranianos, com seu realismo pungente, sempre associado ao lirismos da cultura e história daquele povo, chamam a atenção pela força que carregam consigo, pelo humanismo das tramas, pela beleza da direção de arte e da fotografia e pelas ótimas atuações. A beleza estética dos filmes em alguns momentos parece nos fazer esquecer o contexto de censura, perseguição política e ameaças, dentro do qual eles têm sido produzidos.

A Canção dos Pardais (2008) é uma grande prova disso, dirigido pelo cultuado realizador Majid Majidi, o filme nos coloca diante de todos os elementos que fizeram do cinema iraniano tão admirado nos circuitos alternativos de todo o mundo. O longa conta a história de Karim (Mohammad Amir Naji), um homem pobre, já de meia idade, que trabalha em um criadouro de avestruzes, emprego com o qual ele sustenta a esposa e os três filhos. A aparente tranquilidade da família é abalada quando Karim é demitido ao ser responsabilizado pela fuga de uma das aves, que valia uma alta quantia de dinheiro. Para manter as provisões para sua casa e comprar um novo aparelho de surdez para a filha mais velha, ele começa a trabalhar na capital, Teerã, como moto-taxi, ramo no qual entrou quase acidentalmente. Paralelo a isso, acompanhamos a história de Hussein (Hamid Aghazi), filho de Karim, que junto com outros meninos de sua vizinhança, sonha em transformar um antigo depósito de água, onde só tem lama e lixo, em um aquário cheio de peixes dourados.


 

A trama é simples e o ritmo do filme, apesar de não ser muito rápido, também não é lento demais. Creio que eu possa o classificar como um filme realista, porém cheio de sutilezas e simbolismos subliminares. Pode ser um devaneio, mas interpretei a disposição de Karim em manter as coisas estáveis e a de Hussein em tornar seu sonho realidade, como uma metáfora para a atual situação do Irã. Enquanto o filho, quase utópico, em sua infantilidade, busca intervir em sua realidade, transformando-a, o pai, que está preocupado apenas com a sobrevivência, tenta construir uma vida melhor se aproveitando daquilo que já não tem mais utilidade para outros (todos os dias ao voltar de Teerã, ele traz consigo coisas velhas que foram encontradas no lixo e entulhos de construção, material que para ele teria um grande valor). Entendo isso como uma bela representação da dicotomia entre o conservadorismo e a ruptura, que faz parte da realidade atual do país islâmico, neste embate, enquanto uns se apegam aos destroços do que já foi descartado, para reconstruir a estabilidade, outros têm a chance de ao menos sonhar com o novo e com um mundo melhor. Sonho este, que mesmo ao ser frustrado, não deixa morrer a esperança que os dão força para continuar em frente.

 

A Canção dos Pardais também tem o incrível poder de nos colocar em contato com o outro étnico, fazendo nos compreender uma realidade tão diferente e ao mesmo tempo tão parecida com a nossa. O filme nos ajuda a quebrar o preconceito, que muitos de nós nutrimos, de que o oriente médio está tomado apenas pelo fanatismo religioso, pelos conflitos étnicos e políticos e pela violência dos grupos terroristas. O filme nos mostra ainda que naquela região tão instável do mundo existem pessoas, que têm os mesmos medos e sentimentos que nós temos. O ótimo roteiro nos apresenta a personagens desprovidos de qualquer maniqueísmo e de uma humanidade tamanha, que nos servem de prova de que não só a dor, mas também sentimentos como o amor, a amizade e a solidariedade são universais.

 

Qualquer pai de família pode se reconhecer nas preocupações que movem Karim e que o coloca diante de diversos dilemas e conflitos éticos. Mesmo sendo por vezes egoísta, nervoso e rabugento, a ingenuidade e simplicidade do personagem é o que o caracteriza e o que mais nos comove. Em uma das cenas com maior carga simbólica, Karim se encontra diante do reservatório de água, que fora completamente limpo pelos meninos e que agora tinha se transformado em um ninho de pardais. É neste momento que o homem percebe que deveria ter dado um valor maior para os sonhos do filho, que começam a se tornar realidade, e o som que vem do interior do reservatório, a canção dos pardais, é a verdadeira metáfora para a esperança que é representada no filme pelos sonhos e pela persistência das novas gerações.


Há quem diga que os filmes iranianos trazem consigo uma forte carga ideológica, como resultado da influência direta do do regime de Ahmadinejad, outros defendem que os filmes seriam apolíticos. Ambos os pontos de vista se sustentam sobre a premissa de que a censura e a condição do estado, como maior financiador do cinema no país, seriam a prova cabal de que a criação artística estaria, se não atrelada aos interesses do governo, imparcial quanto às questões que ainda são tabus no país. De fato a premissa é verdadeira apenas no tocante à supervisão abusiva do estado, mas, tal como aconteceu no Brasil na época da ditadura militar, a perseguição ideológica se converte numa espécie de fomento às produções mais poéticas, que abordam apenas subliminarmente as questões que não podem ser abordadas abertamente. O resultado disso, têm sido obras primas como este filme, que é um dos mais lindos que já assisti. A produção iraniana merece uma atenção bem maior, tanto da crítica quanto do público, de lá podem sair alguns dos maiores clássicos dos próximos anos, a menos que a ganância de poder de alguns líderes de estado impeçam a concretização do sonho de alguns poucos cineastas utópicos.


Recomendo A Canção dos Pardais para qualquer um que queira viver a experiência tão fascinante de adentrar em uma realidade tão dura quanto cativante. Ao assistir, preste atenção nas lindas locações, na ótima fotografia, nos enquadramentos precisos e, principalmente, na atuação magistral de Mohammad Amir Naji, que trás impressas em seu rosto todas as dores e lutas de seu povo sofrido. É um filme extraordinário, bem diferente do estilo espetaculoso de Hollywoody e detentor de um lirismo tão pungente, que pode nos fazer chorar, sem que ao menos percebamos. Para mim A Canção dos Pardais representou também a abertura de mais uma porta no mundo da sétima arte, ainda conheço pouco do cinema iraniano, mas creio que o resultado de minhas pesquisas e procura por outros filmes daquele circuíto poderá ser conferido em breve aqui no Sublime Irrealidade. Aguardem!


Assista ao trailer de A Canção dos Pardais no You Tube ! (clique no link)

.

2 comentários:

  1. O Irã vem produzindo ótimos filmes, mais uma para a minha lista!

    ResponderExcluir
  2. "A canção dos pardais" é uma das jóias do cinema iraniano,como "O silêncio","Dez" ou "Filhos do Paraíso" de outros diretores;o potencial cinematográfico do Iran é incontestável e nada a ver com Ahmadinejahrd que é recente e antes já se faziam filmes excelentes;não interessa em qual regime político,no Iran o cinema é uma vocação,tanto que são minimalistas,ou seja,fazem filmes só com um celular como "DEZ" ou a partir de um nada,como a perda dos sapatinhos da menina em "Filhos do paraíso";que venham mais filmes do Iran!Na minha coleção já tenho umas 15 obras primas!
    a.francaleite@uol.com.br

    ResponderExcluir