sexta-feira, 29 de abril de 2011

Carne Trêmula

Carne Trêmula (Carne Trémula) - 1997. Dirigido por Pedro Almodóvar. Roteiro de Pedro Almodóvar, Jorge Guerricaechevarría & Ray Loriga baseado na obra de Ruth Rendell. Direção de Fotografia de Affonso Beato. Música de Alberto Iglesias. Produzido por Agustín Almodóvar. CiBy 2000 - El Deseo S.A. - France 3 Cinéma / Espanha.

 

No último dia 08 (08/04/2011) a produtora El Deseo comunicou o retorno de Pedro Almodóvar e seu irmão, o produtor Agustín Almodóvar, à Academia Espanhola de Cinema. Coincidência ou não, o retorno coincidiu com a nomeação de um novo presidente da instituição, que é a responsável pela entrega do Prêmio Goya, uma espécie de Óscar do cinema daquele país. Segundo especulações, a saída dos irmãos em 2005, fora motivada pela entrega do Goya de 2004. Almodóvar não concordou com os critérios do juri, que não deu ao Má Educação nenhum dos prêmios a que fora indicado. Mas o que se sabe é que a relação entre o cineasta e seus colegas já estava conflituosa ha muito tempo. Em 1990 o filme Ata-me recebeu indicações à 15 categorias e não levou nenhum dos prêmios. No entanto em 1999, o longa Tudo Sobre Minha Mãe recebeu sete prêmios da academia, o que pode ter sido interpretado por Almodóvar como um fato isolado, uma vez que a crítica os colegas espanhóis nunca deram muito valor à sua obra.

Diria que Almodóvar colhe os frutos de sua genialidade. Como é normal em artistas que se desprendem do lugar comum para adentrar em obras autorais, ele se tornou alvo tanto de elogios quanto de críticas. Na Espanha ele tem se tornado uma persona nom grata, eu creio que isto se deva perincipalmente à sua personalidade forte e impetuosa e à polêmica de seus filmes. Tocar nas feridas dos conservadores parece ser uma de suas especialidades, os dardos já foram lançados contra a hipocrisia da igreja, contra o preconceito e principalmente contra os tabus sexuais. A singularidade de Almodóvar é a forma com que ele consegue extrair a beleza estética do prazer selvagem, da dor e do sofrimento, o que já lhe custou até a acusação de ser excessivamente melodramático.


 

Não posso esconder que Almodóvar é um dos cinestas que mais despertam a minha curiosidade atualmente, sou um dentre muitos que estão já anciosos para conferier La Piel que Habito (2011), seu mais novo filme. E neste mês fui novamente acometido pelo meu ímpeto quase consumista, comprei um box com cinco filmes do realizador espanhol (alguns dias depois comprei outro com 20 de Woody Allen), dos cinco o único que ainda não tinha visto era Carne Trêmula, adaptado da obra de Ruth Rendell, ele é considerado por muitos, como o filme inaugural da maturidade do cineasta. Carne Trêmula, traz consigo a maioria dos ingredientes, que definem o estilo extravagante e polêmico de Almodóvar. A trama começa fazendo um retrocesso de mais 20 anos para nos mostrar o nascimento de um dos personagens, a mãe dele, uma prostituta estava a caminho do hospital em um ônibus, quando o filho nasceu, o caso ficou famoso em Madri, todos, ao saberem do fato inusitado, apostaram em um futuro promissor para aquele garoto que nascera em condições tão adversas.

 

O tempo passa e então somos apresentados a Victor Plaza (Liberto Rabal), aquele menino que nascera no ônibus, que agora já está com 20 anos. Ele tenta marcar um encontro com uma mulher, Elena (Francesca Neri), que conhecera dias antes, ela o esnoba, então ele decide ir até o apartamento dela para cobrar explicações. A partir daí uma série de reviravoltas acontecem e aquela noite seria marcante na vida de Victor e Elena e na de dois policiais, David (Javier Bardem) e Sancho (José Sancho), que acabam se envolvendo, e muito, na trama. A esposa de Sancho, Clara (Ángela Molina), também terá a vida afetada pelo acontecido naquele apartamento. Novamente a trama dá um pulo no tempo, seis anos depois os personagens irão se reencontrar, porém em condições bem diferentes da noite trágica em que se conheceram. A trama é costurada com imensa habilidade, fazendo deste, não um filme de altos e baixos, mas um daqueles em que a tensão é mantida do início ao fim. Somos surpreendidos em cada um das peripécias que o roteiro prepara para os personagens.

 

Javier Bardem está fantástico no papel de David, esta atuação pode ser vista como a abertura de uma grande porta para a carreira internacional do ator, que começava a se deslanchar. Penélope Cruz, também pode ser vista em um papel secundário, marcando sua primeira parceria com Almodóvar. A direção de arte, a fotografia e a trilha sonora também são marcadas pela excelência, que o cineasta sempre buscou alcançar com seus trabalhos, o resultado são sequências belíssimas, que nos arrebatam com tamanho impacto áudio-visual. Ainda não li o livro que deu origem ao longa e ao assistir ao filme, pensei em duas possibilidades, ou Almodóvar adaptou a obra para encaixar nela sua fauna de personagens, ou, por uma grande coincidência, o livro já nasceu destinado a ser remontado pelo cineasta, o tempo todo nos sentimos diante de uma produção, cujo o roteiro é completamente almodovariano. Cada filme de Almodóvar desde então, é em si, uma prova concreta de que ele, ao contrário do que a Academia Espanhola de Cinema já pode ter suposto, é um um dos melhores e mais brilhantes realizadores do cinema contemporâneo. Carne Trêmula é prova disso, ele estrapola a barreira que cerca os filmes de arte, sendo uma produção que pode ser apreciada tanto pelo cinéfilo mais cult, quanto por um representante legítimo do "público médio". Recomendo!



Assista ao trailer de Carne Trêmula no You Tube, clique AQUI !

De Pedro Almodóvar, recomendo também: Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos (1987), Tudo Sobre Minha Mãe (1999), Fale Com Ela (2002), Má Edução (2004) e Volver (2006).

P.S. Confiram também aqui no Sublime Irrealidade a resenha crítica de


Nenhum comentário:

Postar um comentário