segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Conduta de risco

Conduta de Risco (Michael Clayton) 2007, escrito e dirigido por Tony Gilroy, produzido por Sydney Pollack, Steven Samuels, Jennifer Fox e Kerry Orent. Imagem Filmes / USA

 

Em alguns filmes não existe qualquer tipo de poesia, existe apenas a realidade descolorida, fria e angustiante, mesmo não sendo um "baseado em fatos reais", Conduta de Risco (2007) é um destes. Os desavisados poderão dizer que o filme é lento, chato e que sua trama é muita complicada. Mas dizer isso denotaria pura falta de entendimento. Na primeira vez que assisti ao filme, confesso que boiei até cerca de trinta minuto de duração. Eu não tinha lido nenhuma resenha e já não me lembrava da sinopse que li na contra capa do DVD. Mas apesar disso, consegui me situar na história, quando o filme acabou, sobrou apenas uma sensação ruim, desconfortante.

Não me lembro de nenhum outro filme que eu tenha voltado ao início logo depois do final dos créditos, mas foi o que fiz com Conduta de Risco. A segunda exibição foi apenas para deleite, a trama e cada um de seus personagens já estavam em seus devidos lugares e aquilo que eu tinha visto como brechas no roteiro agora passava a fazer sentido. Na segunda vez que cheguei ao final, a sensação de desconforto permaneceu, eram efeitos do confronto que o filme propõe entre a ética e o sucesso pessoal, entre entrar ou não nos “esquemas”.

 

Conduta de Risco, como já deu pra perceber, não teve, nem nunca teria a possibilidade de ser um blockebuster, e é ai que talvez esteja sua melhor qualidade e a genialidade de seu roteiro. Apesar de não ser um filme cult (talvez até o tempo o torne), com certeza não é um filme para qualquer um. Nele não tem ação, não tem história de amor, nem efeitos especiais estonteantes. Como já esclareci, lá tem a realidade. Uma realidade, que não está lá pra nos divertir e entreter e sim para nos confrontar.

Um paralelo pode ser feito entre conduta de risco e outros três filmes: O Jardineiro Fiel (2005) que denunciou a atuação de indústrias farmacêuticas na África, Traffic (2000), que aborda o tráfico de drogas por diversos ângulos e Syriana (2005), que relacionou os negócios da indústria do petróleo com os conflitos no oriente médio. Os três são filmes do tipo que realmente causa este desconforto após a exibição, eles denunciam fatos que todos nós sabemos que acontece, mas que preferimos fingir que não fazem parte de nossa realidade.

 

Michael Clayton (George Clooney) trabalha em uma grande firma de advocacia, a Kenner, Bach & Ledeen, ele classifica seu cargo como uma espécie de “faxineiro”, ele é o responsável por ajudar a encobrir crimes cometidos pelos clientes da empresa. Michael tinha tudo para ser um homem bem sucedido financeiramente, mas não o é, ele está endividado, perdeu suas economias no jogo e está devendo uma grana alta, devido aos prejuízos de um empreendimento que não deu certo. Ele é divorciado e sua ex-esposa mora com um outro homem, seu único contato com seu filho, é quando o leva e o busca na escola.

 

A empresa onde Michael trabalha está cuidando de um caso que pode ser decisivo para o seu futuro. Ela foi contratada para defender uma grande multinacional, a U/Nort, que está sendo processada por habitantes de uma pequena cidade, senda acusada de envenenamento. O responsável pelo caso é Arthur Evans (Tom Wilkinson), ele é um renomado advogado, muito respeitado por seus colegas. Mas durante uma audiência no tribunal, Evans surta, tira toda sua roupa e tenta sabotar o caso que está em suas mãos. Clayton é chamado para limpar a “sujeira” feita pelo colega e convencer Karen Crowder (Tilda Swinton), representante da U/North, que já está com os nervos à flor da pele, a manter a Kenner, Bach & Ledeen no caso.

 

Com este processo em suas mãos, Michael vai ter a dimensão do que se tornou sua vida e o que representa seu trabalho. Uma simples atitude de parar para contemplar o mundo à sua volta, coisa que não fazia há tempos, vai salvar sua vida e fazê-lo repensar suas atitudes e prioridades.

Mencionar outros méritos de um filme como este, talvez seja até dispensável, mas mesmo que o conflito vivido por Michael Clayton não faça nenhum sentido para você, o filme vale pelas atuações. Simplesmente não consigo descrever a forma com que Clooney, Wilkinson e Swinton entram em seus respectivos personagens, é como se a trajetória de cada um deles convergisse para estas atuações. Mas se nada disso lhe chamar atenção no filme, não me acuse de fazer uma má resenha, como mencionei aqui, este não é um filme para qualquer um.

Conduta de Risco recebeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante (Tilda Swinton), e foi indicado também nas categorias de melhor ator (George Clooney), melhor ator coadjuvante (Ton Wilkinson), melhor diretor (Tony Gilroy), melhor roteiro original (Tony Gilroy), melhor filme e melhor trilha sonora (James Newton Howard). O filme também recebeu o Globo de Ouro nas categorias: melhor drama, melhor performance de ator (George Clooney), melhor performance de ator coadjuvante (Tom Wilkinson) e melhor performance de atriz coadjuvante (Tilda Swinton).


Assistam ao trailer de Conduta de Risco no You Tube,
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Este foi o primeiro filme de Tony Gilroy, como diretor, mas este já tinha uma carreira consolidada como roteirista, tendo no seu curriculum obras como Advogado do Diabo (1997) e a trilogia Bourne (2002;2004;2007).

domingo, 30 de janeiro de 2011

Os Imperdoáveis

Os Imperdoáveis (The Unforgiven) 1993, dirigido e produzido por Clint Eastwoody, escrito por David Webb Peoples. Warner Bros / USA.


Descartando o terror, talvez o Western seja o gênero cinematográfico com o qual eu menos tenha afinidade. Nunca fui de me empolgar com cowboys sob seus cavalos perseguindo e matando índios, nem com xerifes durões, tão pouco com fora-da-leis mal encarados. Dança com Lobos (1990), acho que foi o primeiro filme do gênero que de fato gostei, talvez pelo propósito “revisionista” que Kevin Costner, como diretor, conferiu à trama. Da época de ouro do faroeste, talvez só Rastros de Ódio (1956), seja na minha opinião, digno de fazer parte de uma boa lista de filmes indispensáveis.

Já fazia algum tempo que o DVD de Os Imperdoáveis (1992) estava sob a minha escrivaninha, mas precisei assistir todos os outros que estavam comigo, os que eu ainda não tinha visto e até alguns que decidi reassistir, para assim dar uma oportunidade a ele. Apesar de reconhecer que o filme poderia ter ótimas atuações e um boa produção técnica, era do roteiro que eu duvidava. Seria esta mais uma dentre minha série de furadas provocadas pelo meu “preconceito cinematográfico”. Falei disso numa de minhas últimas resenhas.

Assim como Dança com Lobos teria sido feito para reparar os erros históricos dos clássicos do western, podemos dizer que Os Imperdoáveis, talvez tenha a pretensão de ser o último grande filme do gênero, e seja também uma última homenagem a este estilo que experimentou uma crescente decadência a partir dos anos 70. Os estereótipos do velho oeste estão todos lá, só que para serem desconstruídos no decorrer da trama. Ao invés das produções simplistas e maniqueístas dos westerns americanos de outrora, Clint Eastwood, como diretor, buscou referência foi no cineasta italiano Sergio Leoni, por quem foi dirigido na clássica Trilogia dos Dólares. Assim como em alguns longas do western spaghetti, em os imperdoáveis não existe herói, o que tem ali é ódio, ressentimento, culpa, crueldade, arrependimento e, como sugere o título do filme no Brasil, a falta de perdão.

Morgan Freeman e Clint Eastwood em Os Imperdoáveis

No filme a “paz” da pequena cidade começa a ser abalada quando um cowboy desfigura o rosto de uma prostituta com uma faca, por ela ter feito uma piada sobre o tamanho de seu órgão sexual. O cowboy e seu amigo, que o acompanhava no sallon, são detidos, mas são liberados com a promessa de indenizarem o dono do sallon, “proprietário” das prostitutas, com alguns potros. A impunidade faz com que as prostitutas juntem suas economias para oferecer uma recompensa pela cabeça dos dois vaqueiros. Schofield Kid (Jaimz Woovett), um jovem obcecado pelas histórias de fora-da-leis, decide perseguir os dois procurados e para isso pede a ajuda de William Munny (Clint Eastwood). Munny fora famoso pela sua crueldade, sendo um dos mais temidos matadores no passado, mas ele já estava velho e há mais de 10 anos não matava ninguém.


O casamento e a vida em família tinham feito Munny parar de beber e se arrepender de seus crimes do passado. Porém agora ele já estava já viúvo, com dois filhos pequenos para cuidar e seu sustento vinha de uma criação de porcos que era abatida por doenças. Na esperança de dar uma vida melhor para seus filhos, ele aceita a proposta de Kid, e convida Ned Logan (Morgan Freeman), seu parceiro nos velhos tempos, para partir junto nesta última caçada. Além dos três, um assassino inglês, chamado English Bob (Richard Harris), que se intitula de “o duque da morte”, também está interessado na recompensa. Os dois cowboys, cuja cabeça está a prêmio, permanecem na cidade, devido à garantia de segurança oferecida pelo xerife Little Bill Daggett (Gene Hackman). Bill, que veio das violentas cidades do oeste, é um homem sádico e violento que não tolera assassinos e depravados em sua cidade, ele considera os dois procurados homens bons e trabalhadores.

 

Como já disse, em Os Imperdoáveis não existe o embate entre herói e bandido, nem entre o bem e o mal, o que se tem é apenas a explosão da violência e os efeitos que esta causa naqueles que a adotam como estilo de vida e naqueles que a contemplam como objeto de idolatria. Um curto diálogo entre Munny e a prostituta que teve o rosto dilacerado, é uma das melhores sequências do filme, a cena é carregada de simbolismo. Com poucas palavras os personagens deixam claro que são atormentados pelos tipos diferentes de cicatrizes que a violência deixou em suas vidas. Outra sequência, uma que mostra um espancamento em praça pública, também é memorável (se você não consegue ver cenas de ultra violência, pule esta sequência).


Os Imperdoáveis recebeu em 1993 os Oscars de melhor filme, melhor diretor, melhor ator coadjuvante (para Gene Hackman) e melhor montagem. O filme ainda tinha sido indicado em outras cinco categorias: melhor ator (para o próprio Clint Eastwood), melhor direção de arte, melhor fotografia, melhor som e melhor roteiro original. Mesmo para quem, com eu, não tem afinidade com o gênero western, os imperdoáveis é imperdível. Clint Eastwoody parece se sentir a vontade no estilo que o deu notoriedade, ele está em um de seus melhores momentos como diretor e também como ator. E preste atenção também nas locações, os cenários são no mínimo exuberantes, um belíssimo trabalho de fotografia.

Assista ao trailer de Os Imperdoáveis no You Tube, clique AQUI ! 

De Clint Eastwoody, como diretor, recomendo também Cartas de Iwo Jima (2006) e As Pontes de Madison (1995).
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sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Fuga : utopia juvenil ou neurose?

De Davi a David Thoreau, de Candeia a Crhis McCandless; a busca pela natureza selvagem

                                                  cena do filme na natureza selvagem (2007) 

Preciso me encontrar (Candeia)
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Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar...
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Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer
Quero viver...
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Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar
Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
  Depois que me encontrar...
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Preciso me encontrar, canção composta por Candeia e imortalizada na voz de Cartola, aborda um tema recorrente na literatura e na música, um impulso ao qual o indivíduo urbano tem se tornado cada vez mais suscetível, o da fuga para o desconhecido. O selvagem se torna sinônimo de liberdade e beleza. Se não conseguimos nos encontrar em meio ao concreto e a correria das cidades, a possibilidade do contato com a “natureza selvagem” passa a ser uma idealização sob a qual depositamos nossos anseios mais pungentes.
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Tal impulso não é algo novo, nem um resultado de nosso estágio social, já no século XVIII tal sentimento encontrava expressão no bucolismo arcadista. O arcadismo, também chamado de setecentismo ou neoclassicismo, foi uma escola literária surgida na Europa iluminista, que se caracterizava pela exaltação da natureza e da vida no campo e pela crítica da burguesia, da nobreza e do clero. O mito do homem natural era visto como oposição ao homem urbano corrompido pela sociedade. No Brasil o arcadismo teve dentre seus principais representantes Tomás Antonio da Gonzaga e Cláudio Manuel da Costa.
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O sentimento de fuga também pode ser observado em obras de Mark Twain, Julio Verne, e em muitos outros autores. A idealização do selvagem em detrimento do urbano ganha expressão ainda mais forte nos escritos de Jack London, Henry David Thoreau e Léon Tostoy, que indicam tal postura como um método de afronta ao Estado, uma forma de “desobediência civil”, como bem conceituou Thoreau. Até na bíblia podemos identificar passagens que expressam tal anseio. No salmo 23, Davi afirma que Deus é quem o faz “repousar em pastos verdejantes” e o conduz a “águas tranquilas”.
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Não se deve negar […] que estar solto no mundo sempre foi estimulante para nós. Está associado em nossas mentes à fuga da história, opressão, lei e obrigações maçantes, com liberdade absoluta...
(Wallace Stegner em the american as living space)

A chegada da pós modernidade e da globalização, e o sentimento de estar vivendo em uma “aldeia global” , associados às neuroses, que se apresentam como o mal do novo século, ajudam a formar um contexto propício à disseminação da “fuga para as águas tranquilas” como um novo ideal. Seja em busca de tranquilidade ou de excitação e aventura, o que prevalesce é a ideia de fugir do familiar para se encontrar com o “eu primitivo” no contato com o desconhecido. Como mencionei no ínicio deste artigo, associamos à fuga os nossos anseios mais pungentes e passamos a acreditar que o contato com o selvagem pode nos libertar de cada um de nossos problemas e resolver cada uma de nossas questões.
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  "Caminho agora para dentro da natureza selvagem..."
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Chris McCandless, foi um jovem que acreditou piamente nisso. Chris era filho de uma família americana abastada, seu pai era um bem sucedido empresário, que, dentre outros feitos, tinha sido um dos homens à frente da tecnologia que colocaria os Estados Unidos na dianteira da corrida espacial. No entanto Chris não estava bem, ele não se conformava com a hipocrisia de sua família, nem com as maldades que as pessoas faziam umas às outras. Depois de concluir a faculdade Chris decide partir para uma aventura que o colocaria em contato com o selvagem e com seu lado primitivo. Ele acreditava que isso iria lhe trazer autoconhecimento e lhe libertar de tudo de ruim que a vida social tinha impresso em sua personalidade. 

 


o
(Chris McCandless em fotos que tirou com sua máquina portátil. A primeira ele, já visivelmente
debilitado, tirou dias antes de morrer. Na segunda ele faz pose em frente ao ônibus abandonado,
dentro do qual seu corpo foi encontrado.)

Depois de viajar por boa parte do território americano, Chris foi encontrado morto no Alasca, destino de sua aventura, no verão de 1992, dois anos depois de ter “fugido” de casa. Ele tinha 24 anos e segundo a autópsia ele teria morrido por inanição. Sua história foi contado pelo jornalista Jon Krakauer no livro Na Natureza Selvagem (Into The Wild), que foi adaptado para o cinema em 2007 por Sean Penn. (recomendo filme e livro). Em Na Natureza Selvagem Krakauer também resume a trajetória de outros aventureiros, cujo impulso de fuga lhes custaram a vida e cujas trajetórias podem ser comparadas à de McCandless.
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Ao contrário de muitas pessoas que acusaram Chris de ser audacioso e ingênuo, Krakauer compreende o tipo de sentimento que leva um jovem a deixar uma vida estável em busca de sua “verdade”, o próprio autor chegou a embarcar numa aventura parecida pelos picos do Alasca em sua juventude. Talvez, por mais que tentemos esconder, tal ansiedade pelo contato com o estranho esteja presente em cada um de nós e como classifica o autor, talvez seja realmente uma espécie de rito de passagem pelo qual realmente tenhamos a necessidade de passar, saindo do seio do que nos é familiar para nos encontrar (como cantou Cartola) e entrar em contato com nossa total potencialidade criativa.
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O fato de que passamos a conhecer apenas as histórias que terminaram em desastre nos faz crer no oposto e enquanto nos acomodamos à nossa vida normal a publicidade se apresenta como a nossa salvadora e boa parte de seus produtos visam apenas aplacar as mais intimas necessidades de nossa alma. Não é atoa que agências de viagem andam tão cheias, que existam tantos dependentes de drogas e que os ansiolíticos sejam a terceira droga lícita mais consumida no mundo de acordo com dados da ANS. A obsessão pela fuga continuará sendo, cada vez mais, uma tentadora sedução no mundo pós-moderno...
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Além do Horizonte (Erasmo Carlos e Roberto Carlos)
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Além do horizonte deve ter
Algum lugar bonito
Pra viver em paz
Onde eu possa encontrar a natureza
A alegria e felicidade com certeza
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Lá nesse lugar o amanhecer é lindo
Coom flores festejando mais um dia
Que vem vindo
Onde a gente pode se deitar no campo
Se amar na relva escutando o canto dos pássaros
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Aproveitar a tarde sem pensar na vida
Andar despreocupado sem saber a hora de voltar
Bronzear o corpo todo sem censura
Gozar a liberdade de uma vida sem frescura...
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quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Ou Tudo ou Nada

Ou Tudo ou Nada (The Full Monty) 1997. Dirigido por Peter Cattaneo. Escrito por Simon Beaufoy. Produzido por Uberto Pasolini. Fox / UK.


De vez em quando chega em minhas mãos aquele tipo de filme que deixamos pra assistir apenas quando não temos outra coisa melhor pra fazer. E não ter muito o que fazer, tem sido quase uma regra nos meus últimas dias. Tenho que admitir que o ócio tem sido meu maior companheiro nestas férias que já se aproximam do fim. Já que não ia viajar decidi ler alguns dos livros que eu havia comprado recentemente e pegar alguns filmes emprestados para assistir. Um amigo cinéfilo de carteirinha me emprestou, com boas recomendações, o filme Ou Tudo ou Nada. Definitivamente não era o tipo de filme sobre o qual costumo criar expectativas. Já tinham alguns dias que o filme estava comigo e só hoje no meio da tarde (uma quarta-feira) decidi assistir ao filme.

Ou Tudo ou Nada é a típica comédia inglesa despretensiosa e que constrói a trama em torno de um roteiro simples e tiradas sofisticadas. Esta fórmula pode gerar ótimos frutos, como Quatro Casamentos e um Funeral (1994) e Simplesmente Feliz (2008), pode ser um desastre mas também, como acontece na maioria das vezes, pode simplesmente gerar filmes chatos, sem muitos atrativos. Enquanto o jeito americano de fazer comédia tende para o burlesco (sátira e paródia) e para a farsa, o estilo inglês tende para a comédia de costumes, que funciona como uma crítica aos hábitos de uma sociedade em determinada época. Tal estilo é mais difícil de cair no gosto popular, uma vez que demanda um prévio conhecimento da sociedade que se expõe e de seus costumes.

 

Ou Tudo ou Nada está ambientado na cidade de Sheffiel, que chegou a ser conhecida como cidade do aço(city of steel), durante o auge da indústria deste setor, em volta da qual girava a economia da cidade. Com o declínio desta atividade econômica, muitas empresas faliram e outras demitiram boa parte de seus funcionários, gerando um alto índice de desemprego. Gaz (Robert Carlyle) é um destes desempregados, ele precisa conseguir dinheiro para colocar a pensão alimentícia em dia e assim poder continuar vendo seu filho Nathan (Willian Snape). Depois de presenciar o sucesso de um grupo de strip-tease, Gaz se convence que também pode ganhar dinheiro desta forma. Para montar o “show” ele se junta a Dave (Mark Addy), Gerald (Tom Wilkinson), Lomper (Steve Huison), Horse (Paul Barber) e Guy (Hugo Speer), todos desempregados e sem nenhum atrativo sexual. A apresentação será apenas em uma única noite e diferente do Chippendale’s, grupo que os inspirou, eles pretendem ficar completamente nus na frente das mulheres da cidade. O enredo se desenvolve a medida que o grupo é formado e seus integrantes precisam encarar e vencer seus dramas pessoais


Para a minha total surpresa o filme não era chato, tão pouco um desastre. Ou Tudo ou Nada consegue fazer rir e emocionar, é um daqueles filmes que apesar de poucos atrativos, já na primeira exibição consegue nos cativar, isso de uma forma estranha e especial. A trilha sonora é impecável e consegue nos envolver ainda mais na trama e nos dramas e desventuras de seus personagens. Eu me sinto feliz por mais uma vez ter visto meu preconceito sendo desfeito diante de uma bela obra cinematográfica.
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Poderia correr o risco de recomendar nesta resenha algo que não é de fato bom, o que pensei que meu amigo fizera comigo quando me indicou o filme. Reconheço que tenho o hábito de me apegar a filmes que ninguém mais consegue gostar. E apesar de sempre mencionar indicações e premiações no final de minhas resenhas eu nunca fui de buscar um filme pelo número de Oscars que ganhou. Mas desta vez peço a devida licença para recorrer à Academia para justificar minha opinião sobre Ou Tudo ou Nada.
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Só depois de assistir ao filme vim a saber que ele foi indicado a 4 Oscars. Nas categorias: melhor filme (título que perdeu para Titanic), melhor diretor, melhor roteiro original e melhor trilha sonora, sendo o vencedor desta última. Ou Tudo ou Nada de alguma forma me convenceu e pode lhe convencer também, assista!


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Capote

Capote (Capote) 2005, dirigido por Bennett Miller, escrito por Dan Futterman, baseado no livro de Gerald Clarke, produzido por Caroline Baron, William Vince & Michael Ohoven. United Artists and Sony Pictures Classics/ EUA.


Capote (2005), um filme do gênero drama biográfico, relata o período em que o renomado jornalista americano Truman Capote (Philip Seymour Haffman) esteve envolvido na produção daquele que seria seu último livro a ser concluído: Á Sangue Frio (In Cold Blood -1966). A obra se tornou clássica, fez de Capote um homem rico e é hoje considerada pioneira do gênero jornalismo literário.
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Na ocasião Capote trabalhava como repórter na revista The New Yorker e já tinha uma vasta produção literária, que incluía contos, novelas, peças e roteiros. Ao ler em um jornal uma notícia sobre um crime brutal na pequena cidade de Helcomb/Texas de apenas 270 habitantes, Capote decide investigar o caso e escrever uma grande reportagem. Ele, junto com Nelle Harper Lee (Catherine Keener), uma colega de trabalho, partem para a pacata cidade para apuração do acontecido.

 

Ao chegar à cidade ambos se assustam com a brutalidade do crime. No dia 15 de novembro de 1959, Herbe Clutter, de 48 anos, sua esposa Bonnie Clutter de 45 e seus filhos mais novos Kenyon e Nancy foram amarrados e mortos a tiro de espingarda, após terem a casa invadida por desconhecidos. Herbe, antes de ser baleado, ainda teve a garganta cortada, por um dos bandidos. Durante o período de apuração dos fatos Truman fez inúmeras entrevistas e traçou o perfil de cada uma das vítimas e dos acusados.
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Porém, Truman Capote não conseguiu se resguardar daquele que é um dos riscos que qualquer jornalista corre ao mergulhar de cabeça em caso específico, ele se deixou envolver com a história que queria contar. Os criminosos, Dick Hickock (Mark Pellegrino) e Perry Smith (Clifton Collins Jr), foram condenados a morte e Capote, na tentativa de extrair uma explicação sobre o que teria acontecido na noite do crime antes que ambos fossem executados, acabou se aproximando demais, principalmente de Perry Smith.

 

O relacionamento de Capote e Smith, que o filme sugere ir muito além do convencional entre repórter e entrevistado, deixou marcas profundas no jornalista. Capote de alguma forma se identificava com o histórico familiar do assassino. Por diversas vezes a execução de Hickock e Smith foi adiada, algumas destas pela intervenção direta de Truman, que se justificava dizendo que precisava extrair dos acusados a informação que subsidiaria o final de seu livro.
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Capote conseguiu as informações, concluiu sua obra e os criminosos foram enforcados em 14 de abrir de 1965. Depois disso Truman não conseguiu concluir mais nenhum livro e morreu em 25 de agosto de 1984 vítima de complicações causadas pelo alcoolismo.
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Penso que o que mais me despertou a atenção no filme foi a determinação com que Capote mergulha em busca das informações de que precisa. Não por acaso o gênero literário/investigativo é o meu favorito no jornalismo, embora esse esteja cada vez mais restrito à poucas publicações e a pequenos públicos, sendo substituído pelas informações rápidas e descartáveis do jornalismo diário. Reconheço a importãncia e contribuição de Truman, mas não o considero de fato um pioneiro deste estilo de reportagem. Na mesma ocasião em que À Sangue Frio era escrito, um grupo de jornalistas produziam no Brasil uma das revistas mais importantes que já circulou em terras tupiniquins, a Realidade, que se destacava das demais justamente pelo estilo literário de suas matérias.
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Capote, o filme, talvez não seja do tipo que eu queira assistir de novo tão rápido, mas ainda assim é uma grande obra, abrilhantada principalmente pela atuação de Philip Seymour Hoffman, que está sem sombras de dúvida no seu melhor momento. A ator realmente fez por merecer o Oscar de melhor ator que ganhou em 2006. O filme ainda foi indicado ao prêmio da academia nas categorias de melhor filme, melhor diretor, melhor roteiro adaptado e melhor atriz coadjuvante (Catherine Keener).Recomendo!


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segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Babel

Babel (Babel) 2006, dirigido por Alejandro González Iñárritu, escrito por Guillermo Arriaga, produzido por Jon Kilik & Steve Golin. Paramount Vintage/ EUA.


Talvez a marca registrada dos filmes de Alejandro González Iñárritu, diretor mexicano radicado nos EUA, seja o sofrimento latente. Ainda não tive oportunidade de assistir seu primeiro filme, Amores Brutos (2000), mas a dor e a busca por redenção talvez sejam as principais característica de 21 gramas (2003) e de Babel (2006). Em ambos os filmes as consequências de um ato, um acontecimento casual ou uma escolha acabam colocando os personagens em situações extremas que os levam à dor e à angústia. Uma analogia pode ser feita entre tal modelo e o proposto por Aristóteles em sua obra A Poética.

O sofrimento vivido no filme é compartilhado por nós espectadores, tal sentimento é despertado pela empatia que passamos a ter com os personagens, que são pessoas comuns como nós, e “induzido” com brilhantismo pela trilha sonora e pela edição. Tal como na tragédia grega, as peripécias do destino levam os personagens à temíveis catástrofes e nós espectadores, que nos identificamos com a trajetória, passamos a, assim como eles, a ansiar por uma redenção. Quando Aristóteles definiu o modelo trágico, ele chamou de catarse este processo de redenção, pelo qual o personagem passa para purgar o erro que o levou à ruína, purgando também as falhas dos espectadores. 
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Estes três elementos: empatia, catástrofe e catarse, que estão bem definidos tanto em 21 Gramas quanto em Babel, pode ser o segredo do sucesso dos filmes. Os roteiros dos três primeiros longas de Iñárritu foram escritor por Guillermo Arriaga, este talvez seja o responsável pela presença dos elementos trágicos citados acima. Durante as gravações de Babel, Arriaga passou a reivindicar maiores créditos sobre a autoria dos filmes, as discussões em torno do assunto levaram ao rompimento da parceria em 2006.


O roteiro de Babel, se desenrola sobre três histórias distintas e está ambientado nos Estados Unidos, México, Marrocos e Japão. Na primeira história, uma turista americana (Cate Blanchett) que está de férias no Marrocos com o marido (Brad Pitt) é baleada acidentalmente, quando um menino pastor, que cuidava de cabras junto com o irmão, atira contra um ônibus em movimento, para testar o alcance da arma comprada pelo pai. Em San Francisco nos EUA uma babá (Adriana Barraza) cuida de duas crianças enquanto os pais estão ausentes, naquele dia aconteceria o casamento de seu filho no México e ao saber que não tinha com quem deixar os pequenos, decide atravessar a fronteira com eles e seu sobrinho (Gael García Bernal), que os dão carona. No Japão uma adolescente surda e muda (Rinko Kikushi), que não consegue se relacionar bem a não ser com outras meninas surdas, tenta vencer o trauma do suicídio recente da mãe e a distancia afetiva do pai (Kôji Yakusho) e sua carência a leva a apresentar um comportamento sexual desajustado. Assim como em 21 Gramas, em determinado momento as histórias se cruzam e dão um sentido maior à trama.


"E o Senhor disse: Eis que o povo é um, e todos têm a mesma linguagem. Isto é apenas o começo; agora não haverá restrição para tudo que intentam fazer." Gn 11-6

O nome do longa é uma referência ao relato bíblico sobre a Torre de Babel. De acordo com a teologia judaico-cristã, a torre foi construída por homens que queriam chegar até o Criador. A prepotência deste intuito fez com que Deus cessasse a construção e desse a estes homens línguas diferentes, para que não pudessem mais entender uns aos outros. Sem a compreensão a edificação que intentava chegar ao céu não poderia  mais ser retomada. Babel, o filme, mostra pessoas incapazes de se comunicar e totalmente fracas diante do próprio sofrimento. São pessoas comuns, em quem a dor se abate pelo acaso e não pela justa culpa. Na história bíblica se não fosse a intervenção divina, os homens, por estarem unidos em torno de um mesmo objetivo, realmente teriam conseguido erguer a Torre de Babel. No filme a catarse só acontece quando algumas barreiras de comunicação são quebradas permitindo que um personagem possa compreender o sofrimento de outro. O filme se mostra, deste modo, como uma crítica feroz ao desrespeito à cultura alheia, à segregação social do diferente e ao preconceito. Numa das melhores cenas, um personagem secundário na trama, por meio de um gesto virtuoso quebra uma muralha quase intransponível, dando passagem à redenção e à esperança.
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Babel foi indicado a 7 Oscars, incluindo melhor filme, roteiro original e duas indicações para melhor atriz coadjuvante (Adriana Barraza e Rinko Kikuchi), sendo vencedor na categoria "melhor trilha-sonora original". Também foi indicado a sete categorias do Globo de Ouro, sendo vencedor na de "Melhor filme – drama”. Vale a pena assistir!.

Assista ao trailer de Babel no You Tube, clique AQUI !


Do diretor Alejandro González Iñárritu, indico também 21 Gramas (2003). E fiquem de olho em Biutiful (2010), novo filme do diretor que estreou no Brasil no último dia 21.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Desabilitado V

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A última aula, feita antes do exame foi um desastre, estava muito mais nervoso que de costume. Não conseguiu fazer corretamente a baliza e suas mãos e pés suavam intensamente. A ansiedade, pela quarta vez, lhe tiraria a chance de conseguir a cobiçada habilitação para dirigir. Esquecer um “sinal de braço”, para sinalizar uma parada, lhe impedia de chegar ao fim do exame. Faltava apenas a baliza para que a carteira estive dentro de alguns dias em sua mãos. A reprovação como já era de se esperar deixou-o muito mal, se sentia um idiota e nem sequer conseguia tocar no assunto sem ter que se abater com a culpa de ter esquecido algo tão básico. Era como se tudo conspirasse para impedi-lo de fazer uma exame bem sucedido. Chegou, em momento de intensa raiva, a questionar a ajuda de Deus, talvez nem fosse certo esperar Dele este tipo de ajuda... Apesar de mais uma tentativa fracassada decidiu tentar alguma outra vez. E se a sua pauta vencesse, azar! Lembrou então da canção que dizia: “quando eu tiver dinheiro, eu prometo a mim mesmo que eu só vou andar de taxi”, talvez fosse a sua sina...
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Queime depois de ler

Queime Depois de Ler (Burn After Reading) 2008, escrito, dirigido e produzido por Joel e Ethan Coen. Universal / EUA.


Quando se trata dos filme dos irmãos Coen, qualquer crítico se vê diante de um pequeno problema, encaixar a obra em determinado estilo ou escola. Fargo (1996), aquele que talvez seja o filme mais clássico da dupla, é considerado por uns uma “comédia de erros”, por outros “comédia de humor negro”. Queime depois de ler reza pela mesma cartilha. Neste filme estão presentes alguns dos elementos que caracterizam as obras destes dois cineastas: personagens caricatos, sarcasmo e um roteiro onde uma sequência de erros leva os personagens a situações extremas, de onde dificilmente pode se extrair um happy end.
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Em Queime Depois de Ler (2008), tudo começa quando o agente da CIA Osbourne Cox (John Malkovich) pede demissão por não aceitar sua transferência para um cargo burocrático. Ele decide então escrever sua memórias, como uma espécie de vingança contra os antigos colegas. A vida familiar de Cox também não esta nada bem, sua esposa Katie (Tilda Swinton) que quer o divórcio é aconselhada por um advogado a buscar documentos que subsidiem a ação de partilha de bens. Ela tem um caso com Harry Pfarrer (George Clooney), um segurança federal. Ao vasculhar o computador do marido, Katie copia para um CD os rascunhos do que viria a ser o livro de Cox. Por acaso o CD vai parar nas mãos de Chad (Brad Pitt) e Linda (Frances McDormand), ambos funcionários de uma academia, que decidem ganhar dinheiro extorquindo o dono dos arquivos, que seria para eles alguém do “alto escalão”.


Brad Pitt, George Clooney e Fances McDormand estão perfeitos em seus respectivos papeis, eles protagonizaram algumas das cenas mais engraçadas e absurdas do filme. O humor destilado ao longo da história não é o convencional e o roteiro realmente não é do tipo que irá agradar a todos. Não é novidade também que nos filmes dos irmãos Coen o final possa ser motivo de reações controversas e quem espera um final nos moldes Hollywoodianos também irá se decepcionar.

As controversas em torno de Queime Depois de Ler começaram antes mesmo da estreia do longa nos cinemas. Ao mesmo tempo que existia uma grande expectativa em torno do lançamento, devido ao sucesso de Onde os Fracos Não Têm Vez (2007), que faturou 4 Oscars em 8 indicações, a crítica ironizava a escolha da mesma dupla da franquia Onze Homens e Um Segredo, Brad Pitt e Geord Clooney.


Se você espera um filme de ação ou comédia a lá Jim Carrey e Adam Sandler, com certeza Queime Depois de Ler, não será uma boa pedida. No entanto se você presa por ótimas atuações e um roteiro inteligente que fuja do convencional, você não vai se decepcionar.


Assista ao trailer de Queime Depois de Ler no You Tube, clique AQUI !
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De Joel e Ethan Coen, indico também: Fargo (1996), Onde os Fracos Não Têm Vez (2007), E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? (2000) e Bravura Indômita (2010).

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Desabilitado IV

A terceira e quarta aula aconteceram sem muitas novidades, ele parecia estar um pouco melhor com relação às duas anteriores. Chegara então o dia do exame, naquele noite ele não conseguiu dormir bem, e acordou com uma intensa dor de cabeça. Ainda estava conseguindo manter a postura de não falar com ninguém sobre seus planos, ele acreditava que talvez assim o peso sobre si seria menor, afinal não teria de prestar contas a ninguém. Seu sucesso ou possível fracasso só diria respeito a ele. Mesmo depois de tantas tentativas e tantas aulas, ele não conseguia ter autoconfiança, preferia confiar que Deus pela Sua graça tivesse misericórdia, mesmo não se considerando digno de merecimento... Faria ainda naquele dia, antes da prova, a última aula. Temia que sua ansiedade viesse a lhe atrapalhar, mas estava disposto a tentar. Dentro de algumas horas já teria alguma resposta...

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Antes do Anoitecer

Antes do Anoitecer (Before Night Falls) 2000, dirigido por Julian Schnabel, e produzido por Jon Kilik, escrito por Cunningham O`Keef, Larazo Gomez Carriles e Julian Schnabel, baseado no livro homônimo de Reinaldo Arenas. El Mar Pictures, Grandview Pictures / EUA


Comentar um filme "baseado em fatos reias" não é, ao menos para mim, tarefa fácil. Já estamos a princípio diante de duas "verdades", a verdade histórica e a verdade impressa pelo olhar do roteirista e do diretor do filme, estes ainda podem ser influenciados por interesses de terceiros, como produtores e financiadores. No caso do filme Antes do Anoitecer (2000), ainda temos mais um complicativo, uma outra verdade, a do livro de memórias do escritor cubano Reinaldo Arenas, no qual o longa foi baseado. Para comentar o filme eu pretendo tentar me distanciar um pouco dos fatos históricos que o inspiraram e me ater apenas à produção como obra ficcional, mas para comentar o filme é necessário que antes nos inteiremos do contexto político e econômico de Cuba no período.
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Reinaldo Arenas (Javier Bardem) nasceu na cidade de Holguín em 16 de julho de 1943, durante o primeiro governo de Fulgêncio Batista. A situação do país não era das melhores, Cuba era assolada pela fome e pela pobreza estrema. Fulgênco ficou no poder até 1944. Em 1952, após um golpe militar apoiado pelos EUA, o ex-governante volta ao poder e instaura um regime ditatorial marcado por métodos terroristas, pela perseguição de opositores, silenciamento da imprensa das universidades e do congresso. Em 1959 Fulgêncio foi deposto por Fidel Castro, que tentaria implatar, através da revolução o modelo socialista em Cuba.

 

Em 1963 Arenas se muda para Havana capital do país para concluir os estudos, ele consegue se ingressar na Universidade de Havana, mas não chegou a concluir o curso. Naquele período Cuba vivia não só uma revolução social, mas também de costumes. Reinaldo Arenas, que era homossexual assumido, se identificava então mais com a liberação sexual do que com as ideias dos rebeldes que agora estavam no poder. A opção sexual do poeta não era bem vista pelos partidários de Fidel. Os maricones, como eram chamados os homossexuais, eram considerados depravados e, por estarem alheios à mudança política no país, eram visto como uma ameaça e seu comportamento, como uma expressão do estilo de vida capitalista.
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O filme de Julian Schnabel mostra Reinaldo Arenas como um poeta com alma de menino, sensível e apegado às lembranças de sua infância. Por seu comportamento "libertário" Arenas se torna vítima daquilo que seria o principal erro dos regimes baseados no socialismo bolchevique, a supressão da liberdade individual. Em Antes do Anoitecer, a revolução cubana é mostrada apenas como alternância de poder e sua incapacidade de comportar estilos de vidas diferentes a torna tão cruel quanto o regime de Fulgêncio. Arenas chegou a ser preso, acusado de depravação e abuso sexual. Na prisão ele, segundo suas memórias, teria sido torturado, até que o regime decide que ele já podia ser solto (?).

 

Após frustradas tentativas de sair de Cuba, Arenas conseguiu partir quando o governo concedeu uma autorização que permitia que homossexuais e outras persona non grata deixassem a ilha. Temeroso de que pudessem impedi-lo de partir, ele adulterou seus documentos e embarcou com o nome trocado. Os EUA passa a ser, para o poeta, um ideal de sociedade livre, uma das sequências do filme mostra Arenas passeando em um conversível pelas ruas de New York; deitado no banco traseiro do veículo ele contempla os prédios e a neve que cai lentamente. Após esta sequencia ele pondera: "a diferença entre o comunismo e o capitalismo é que, quando se leva um chute na bunda no comunismo você tem que aplaudir, no capitalismo você pode berrar...". Talvez a ilusão de liberdade tivesse deixado o poeta cego (não me contive).
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Em New York, Arenas descobriu que era portador do vírus da AIDS, nesta época começou a escrever Antes que Anochezca, livro que daria origem ao filme 10 anos depois. Em 1990, após concluir o livro, ele suicidou-se com uma dose excessiva de álcool e e drogas. Sua morte é mostrada de uma forma diferente no filme.

 

O principal destaque do filme é a atuação de Javier Bardem, que esta fantástico na pele do escritor. Por uma injustiça histórica ele perdeu o Oscar de melhor ator em 2001, prêmio para o qual foi indicado. Quem ganhou o prêmio naquele ano foi Russell Crowe pelo filme Gladiador. O elenco ainda conta com nomes de peso como Sean Penn, Johnny Depp (que interpreta dois personagens) e Hector Babenco (diretor naturalizado brasileiro, que dirigiu filmes como Carandiru (2003) e O Beijo da Mulher-Aranha (1984). Trilha sonora e fotografia são destaques à parte. Desconsiderando a alcunha de "baseado e fatos reais" e substituindo-a por "inspirado nas mémórias de Reinaldo Arenas", o filme funciona melhor ainda. Com um olhar crítico, pipoca e um refri gelado, Antes do Anoitecer é uma ótima pedida!


Assista ao trailer de Antes do Anoitecer no You Tube, clique AQUI !

Do diretor Julian Schnabel, indico também O Escafandro e a Borboleta (2007)