sábado, 30 de abril de 2011

Marcelo Camelo – Toque Dela – Voltando a falar de solidão...

Marcelo Camelo - Toque Dela - 2011 (Universal Music)


À medida que vão aumentando as responsabilidades e a correria do cotidiano nós vamos lentamente abdicando de prazeres que tínhamos e que em algum ponto de nossas vidas nos esquecemos do quão eram bons. Estava aqui refletindo como tem se tornado raro para mim, parar para ouvir um disco do início ao fim. Deixem-me explicar melhor, eu escuto música praticamente o tempo todo quando estou em casa, me acostumei a ter o som ligado quando estou escrevendo, navegando na net, ou fazendo qualquer outra coisa. Mas a verdade é que há um bom tempo eu não parava para escutar música, sabe, simplesmente não fazer nada e deixar que a atmosfera criada pela música me tome por completo. Realmente não entendo que alguns precisem se drogar para “viajar” enquanto existem tanta musicalidade, que pode nos proporcionar ótimas “viagens” sem nos cobrar um preço tão alto por isso.

Já tinha escutado bastante Toque Dela, segundo álbum solo de Marcelo Camelo, quando decidi escrever esta resenha, mas faltava algo. Mesmo já tendo o ouvido tantas vezes, ainda não dava para eu dizer que conhecia o disco e escrever uma crítica sobre ele seria uma tremenda ousadia. Já estava começando a digitar as primeiras linhas, ainda sem ter um norte, quando parei, voltei à primeira faixa no Media Player, desliguei a tela do computador e me deitei, foi a partir daí que realmente comecei a sentir verdadeiramente aquilo que estava ouvindo. O disco me soou totalmente diferente e só assim pude compreende-lo, mesmo que somente em parte ainda. Quando terminou eu senti que estava ao menos um pouco mais preparado para escrever sobre a obra.

 

Alguns podem se perguntar, como alguém sem nenhuma noção musical (sou daqueles que conseguem desafinar até batendo palmas em “parabéns pra você”) pode se meter a fazer uma resenha de um disco. Pois bem, tenho que realmente me explicar sobre este aspecto, não pretendo analisar a musicalidade nem tão pouco a harmonia ou a afinação de cada instrumento (na verdade, na maioria das músicas não consigo nem distinguir um instrumento do outro...), o que me proponho a fazer é apenas comentar o que o álbum me proporcionou, o que senti ouvindo as canções e as reflexões a que estas me levaram. Proposta nobre, mas pouco valorizada em um mundo em que a qualidade artística real é substituída apenas pela técnica e pelas fórmulas prontas, que se apresentam como normas a serem seguidas. É melhor deixar de embromação e ir direto á crítica.

No aspecto artístico Toque Dela é surpreendente e a evolução com relação ao primeiro pode ser notada desde a primeira faixa. Marcelo Camelo é de fato um dos melhores artistas que nossa música gerou nos últimos tempos. A maturidade como cantor e compositor já fora alcançada por ele, acredito eu, na ocasião da produção de Ventura (2003), terceiro álbum do Los Hermanos, sua antiga banda, de lá pra cá ele tem se mantido em um constante processo de evolução, que inclui auto referências e experimentações. O Marcelo Camelo de agora é um músico que parece estar com os pés no chão e a cabeça nos ares, ele parece saber precisamente o caminho que está trilhando, a evolução perceptível nas composições a cada disco deixa claro que o experimentalismo, no qual ele mergulhou, principalmente em Sou/Nós (2008), seu primeiro álbum solo, não é uma aventura cega e sim um levante estético, que tem alvo certo e precisão em suas articulações.

 

Sou/Nós me pareceu, quando o escutei a primeira vez, um içar de velas sem bússola rumo ao desconhecido. O disco era de uma qualidade inegável, mas era bastante experimental e do tipo que não é fácil de gostar já na primeira audição. Com o tempo, à medida que fui o compreendendo, percebi que ali estava a alma do compositor sendo despida em canções melancólicas que abordavam o amor, a perda e principalmente a solidão. Toque Dela mostrou que aquele levantar de âncoras em 2008 não foi assim tão impensado, o novo disco se apresenta como uma continuação daquele navegar. Agora as músicas não estão tão difíceis e até podemos perceber uma porçãozinha de alegria que vai se desenvolvendo durante cada uma das faixas. No entanto, a solidão volta a ser um tema inspirador para Camelo, na primeira faixa, a noite, ele canta: “Triste é viver só de solidão, pena de quem nunca, esteve aqui, pra ver fazer dormir a noite, passará depois em cada despedida, nos romances os mistérios dessa clareira, que há de luz iluminar, é, vai ver é só saudar o sol...” Em tudo o que você quiser ele pondera: “Tudo o que você quiser, tempo de recomeçar, solidão eu já vivi, na cidade que não volta... Hoje eu vim pelo mar, naveguei de volta, só passei pra falar, que eu não vi resposta...

Numa entrevista recente, concedida ao O Globo, Marcelo Camelo, lembrou com sarcasmo, que só apareceu no Fantástico em três ocasiões, quando foi agredido por Chorão (a quem o tempo já fez o favor sepultar no mar do esquecimento), quando começou a namorar Mallu Magalhães (na época com 15 anos) e quando Jim Capaldi gravou Anna Júlia. Em comunidades e fóruns em redes sociais, fica claro que Camelo e sua antiga banda não é nenhuma unanimidade entre o público médio, ele já foi acusado de ser um “hippie idiota” e de estar chapado ao dar determinadas declarações que geraram polêmica. A explicação mais plausível de tudo isso é que a massa (me perdoem o uso de um termo tão retrógrado), que está acostumada aos sertanejos universitários, pagodes e similares que tocam à exaustão nas rádios, se incomoda ao ter a inteligência (que prefere não usar) incitada por uma obra artística. Deve-se reconhecer, que apesar de ser menos estranho que Sou/Nós, Toque Dela é tão avesso aos padrões comerciais quanto o primeiro. Este é um disco composto basicamente por reações, não é atoa que Camelo tenha elogiado a banda Hurtmold, que o acompanha desde o primeiro solo, por conseguir dar a uma música a cara de um pôr-de-sol, conforme tinha pedido.

 

Toque Dela é um álbum no mínimo singular, apesar de não ter nenhuma canção que “empolgue” à primeira audição, ele é composto por 10 faixas, que mantêm durante todo o tempo, um altíssimo padrão de qualidade, o mergulho que consegui fazer no disco nesta tarde me levou à esta conclusão. Marcelo Camelo conseguiu produzir uma obra extraordinária, um trabalho que parece totalmente deslocado no tempo e no espaço. A crítica buscou na mudança de Camelo, do Rio para São Paulo, um motivo que explicasse a mudança na áurea que o disco traz consigo, mas talvez este não seja, nem um disco carioca nem paulista, sendo simplesmente diferente. Não é de forma alguma um bom exemplo de obras musicais produzidas por nossa geração. Toque Dela contraria tudo aquilo que atualmente se tem valorizado, como a rapidez, o imediatismo e os efeitos prontos, ele é um disco para ser ouvido com tempo e com calma, para ser pensado e apreciado aos poucos. Recomendo apenas para quem sabe apreciar a boa música!


Confiram o vídeo da canção ÔÔ no you tube (Clique AQUI) - outras músicas de Toque Dela foram postadas no mesmo canal!

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sexta-feira, 29 de abril de 2011

Carne Trêmula

Carne Trêmula (Carne Trémula) - 1997. Dirigido por Pedro Almodóvar. Roteiro de Pedro Almodóvar, Jorge Guerricaechevarría & Ray Loriga baseado na obra de Ruth Rendell. Direção de Fotografia de Affonso Beato. Música de Alberto Iglesias. Produzido por Agustín Almodóvar. CiBy 2000 - El Deseo S.A. - France 3 Cinéma / Espanha.

 

No último dia 08 (08/04/2011) a produtora El Deseo comunicou o retorno de Pedro Almodóvar e seu irmão, o produtor Agustín Almodóvar, à Academia Espanhola de Cinema. Coincidência ou não, o retorno coincidiu com a nomeação de um novo presidente da instituição, que é a responsável pela entrega do Prêmio Goya, uma espécie de Óscar do cinema daquele país. Segundo especulações, a saída dos irmãos em 2005, fora motivada pela entrega do Goya de 2004. Almodóvar não concordou com os critérios do juri, que não deu ao Má Educação nenhum dos prêmios a que fora indicado. Mas o que se sabe é que a relação entre o cineasta e seus colegas já estava conflituosa ha muito tempo. Em 1990 o filme Ata-me recebeu indicações à 15 categorias e não levou nenhum dos prêmios. No entanto em 1999, o longa Tudo Sobre Minha Mãe recebeu sete prêmios da academia, o que pode ter sido interpretado por Almodóvar como um fato isolado, uma vez que a crítica os colegas espanhóis nunca deram muito valor à sua obra.

Diria que Almodóvar colhe os frutos de sua genialidade. Como é normal em artistas que se desprendem do lugar comum para adentrar em obras autorais, ele se tornou alvo tanto de elogios quanto de críticas. Na Espanha ele tem se tornado uma persona nom grata, eu creio que isto se deva perincipalmente à sua personalidade forte e impetuosa e à polêmica de seus filmes. Tocar nas feridas dos conservadores parece ser uma de suas especialidades, os dardos já foram lançados contra a hipocrisia da igreja, contra o preconceito e principalmente contra os tabus sexuais. A singularidade de Almodóvar é a forma com que ele consegue extrair a beleza estética do prazer selvagem, da dor e do sofrimento, o que já lhe custou até a acusação de ser excessivamente melodramático.


 

Não posso esconder que Almodóvar é um dos cinestas que mais despertam a minha curiosidade atualmente, sou um dentre muitos que estão já anciosos para conferier La Piel que Habito (2011), seu mais novo filme. E neste mês fui novamente acometido pelo meu ímpeto quase consumista, comprei um box com cinco filmes do realizador espanhol (alguns dias depois comprei outro com 20 de Woody Allen), dos cinco o único que ainda não tinha visto era Carne Trêmula, adaptado da obra de Ruth Rendell, ele é considerado por muitos, como o filme inaugural da maturidade do cineasta. Carne Trêmula, traz consigo a maioria dos ingredientes, que definem o estilo extravagante e polêmico de Almodóvar. A trama começa fazendo um retrocesso de mais 20 anos para nos mostrar o nascimento de um dos personagens, a mãe dele, uma prostituta estava a caminho do hospital em um ônibus, quando o filho nasceu, o caso ficou famoso em Madri, todos, ao saberem do fato inusitado, apostaram em um futuro promissor para aquele garoto que nascera em condições tão adversas.

 

O tempo passa e então somos apresentados a Victor Plaza (Liberto Rabal), aquele menino que nascera no ônibus, que agora já está com 20 anos. Ele tenta marcar um encontro com uma mulher, Elena (Francesca Neri), que conhecera dias antes, ela o esnoba, então ele decide ir até o apartamento dela para cobrar explicações. A partir daí uma série de reviravoltas acontecem e aquela noite seria marcante na vida de Victor e Elena e na de dois policiais, David (Javier Bardem) e Sancho (José Sancho), que acabam se envolvendo, e muito, na trama. A esposa de Sancho, Clara (Ángela Molina), também terá a vida afetada pelo acontecido naquele apartamento. Novamente a trama dá um pulo no tempo, seis anos depois os personagens irão se reencontrar, porém em condições bem diferentes da noite trágica em que se conheceram. A trama é costurada com imensa habilidade, fazendo deste, não um filme de altos e baixos, mas um daqueles em que a tensão é mantida do início ao fim. Somos surpreendidos em cada um das peripécias que o roteiro prepara para os personagens.

 

Javier Bardem está fantástico no papel de David, esta atuação pode ser vista como a abertura de uma grande porta para a carreira internacional do ator, que começava a se deslanchar. Penélope Cruz, também pode ser vista em um papel secundário, marcando sua primeira parceria com Almodóvar. A direção de arte, a fotografia e a trilha sonora também são marcadas pela excelência, que o cineasta sempre buscou alcançar com seus trabalhos, o resultado são sequências belíssimas, que nos arrebatam com tamanho impacto áudio-visual. Ainda não li o livro que deu origem ao longa e ao assistir ao filme, pensei em duas possibilidades, ou Almodóvar adaptou a obra para encaixar nela sua fauna de personagens, ou, por uma grande coincidência, o livro já nasceu destinado a ser remontado pelo cineasta, o tempo todo nos sentimos diante de uma produção, cujo o roteiro é completamente almodovariano. Cada filme de Almodóvar desde então, é em si, uma prova concreta de que ele, ao contrário do que a Academia Espanhola de Cinema já pode ter suposto, é um um dos melhores e mais brilhantes realizadores do cinema contemporâneo. Carne Trêmula é prova disso, ele estrapola a barreira que cerca os filmes de arte, sendo uma produção que pode ser apreciada tanto pelo cinéfilo mais cult, quanto por um representante legítimo do "público médio". Recomendo!



Assista ao trailer de Carne Trêmula no You Tube, clique AQUI !

De Pedro Almodóvar, recomendo também: Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos (1987), Tudo Sobre Minha Mãe (1999), Fale Com Ela (2002), Má Edução (2004) e Volver (2006).

P.S. Confiram também aqui no Sublime Irrealidade a resenha crítica de


terça-feira, 26 de abril de 2011

1° Festival de Teatro de Ubá - Boas Peças Para Um Público Pequeno


Há quase 4 anos, desde a última edição da Mostra Vicenzia, Ubá não sediava um festival de teatro. Em 2007, quando o último evento do tipo aconteceu, a cena na cidade estava um pouco diferente, a quantidade de grupos em atividade era maior e mesmo quem estava por fora do circuito, percebia uma certa rivalidade que existia entre os grupos “pequenos” e os “grandes”. Atualmente a situação é bem diferente, não dá pra falar que o teatro perdeu força na cidade, mas a verdade é que o teatro perdeu muito do incentivo que chegou a ter outrora. Hoje a quantidade de grupos é bem menor e, apesar de termos ganho um espaço para encenações na cidade, a Sala Chiquinha Dias Paes, a quantidade de peças continua pequena e o público restrito. As coisas pioraram em alguns aspectos, mas isso acabou tendo um impacto positivo, a rivalidade que existia no passado parece ter acabado e foi graças a união daqueles que ainda persistem na batalha pela cena, que o 1° Fetuba pode acontecer.

By Cleverson Montanha

Recolocar Ubá no circuíto dos Festivais não foi nada fácil e a principal dificuldade foi conseguir patrocínio, fato curioso em uma cidade onde circula tanto dinheiro. Graças a uns poucos incentivadores e à persistência dos organizadores, o evento aconteceu, mesmo sem grande apoio dos empresários locais. Entre os dias 21 e 24 de abril, trupes de Juiz de Fora, São João Del Rei, São João Nepomuceno, Guaçuí (ES), Conselheiro Lafaiete, Rio Espera, Senhora de Oliveira e Cataguases se apresentaram na cidade. Os espetáculos aconteceram na Sala Chiquinha Dias Paes e na Sede da antiga estação ferroviária da cidade (prédio tombado pelo patrimônio cultural do município).

Eu tinha planejado de assistir a cada uma das peças encenadas, mas devido à questões de horários, precisei fazer opção por apenas algumas delas. Assisti a um total de 7 espetáculos, sendo 2 deles na quinta-feira, 2 no sábado e 3 no domingo. Minha jornada no primeiro dia já começou com um leve pesar, eu já tinha perdido a peça Uai Zé, do grupo Os Mineirinhos de Senhora de Oliveira. A Dança da Escuridão Butoh, do grupo En-Cena de São João Nepomuceno foi então a minha peça de abertura. O espetáculo é inspirado em uma dança surgida no Japão do pós-guerra, e usa o corpo como forma de expressar a incompletude do ser humano. A peça, que retrata a angústia da condição humana, começa com uma cena em que dois personagens se tocam e se acariciam, parecendo explorar seus corpos, o contato com o outro lhes traz prazer, porém a dor vem logo em seguida, ela é anunciada pela trilha sonora melancólica que se desenvolve. Numa das cenas um personagem parece querer se livrar da própria pele, para assim fugir daquilo que sente. A peça é muito boa e os atores merecem aplausos pela ousadia daquilo a que se propuseram, falta um pouco de precisão nos movimentos, o que talvez venha com o tempo e com a prática.

Da Sala Chiquinha Dias Paes, fomos para a Estação, sem dúvidas, a próxima era a apresentação que eu mais esperava, era A Odisséia – Nunca Voltar Para Casa Foi Tão Difícil, inspirada na obra de Homero, encenada pelo grupo Manicômicos de São João Del Rei. O efeito da peça SerTão Menino, encenada pela mesma trupe no último festival, estava ainda bem vivo em minha memória, aquele fora um dos melhores espetáculos de minha vida. Não nego que acabei tendo um pingo de decepção aos assistir a remontagem da saga de Ulisses, mas apesar de não ser tão boa quanto a anterior, a peça provou mais uma vez a qualidade do trabalho que o grupo vem desenvolvendo. Os atores, alunos da 4° turma de atuação que os Mancômicos formaram, demonstraram agilidade e sintonia na adaptação, que se desprendeu com êxito do texto original. O não uso de cenários complexos e uma trilha sonora que se constrói ao vivo durante a peça, que parecem ser características da trupa, foram, também desta vez, um grande atrativo e um ponto a favor do espetáculo, que também contou com ótimas atuações.

A Cor Desta Noite, do grupo Gota Pó e Poeira de Guaçuí (ES), encena na Sala Chiquinha Dias Paes, foi a primeira peça que assisti no sábado. Com um roteiro inteligente, que aborda com maestria temas complexos como a identidade criativa, a reclusão e o conflito existencial. O espetáculo encena a relação de um artista, Pedro, com sua musa/modelo, Luiza. Ele prefere a reclusão de seu ateliê ao preto e branco da realidade, onde seria privado de seu dom criativo, ela, que parece enxergar o mundo de forma diferente, tenta lhe alertar dos riscos de sua reclusão e lhe trazer de volta para o mundo real. Luiza, que não aguenta mais fazer parte daquela fantasia, forjada com mentiras de ambos, tenta se libertar da presença de Pedro e de tudo que ela representa. O roteiro é muito bom e consegue manter o ritmo durante mais de uma hora de peça. Os atores deixam a desejar em alguns momentos, mas o simples fato de terem conseguido decorar todo o roteiro já é um mérito e os momentos de ápice da peça compensam os poucos deslizes.

Palhaço da Vida, monólogo do "grupo" Eu & Myself de São joão Nepomuceno, encenado na estação, veio logo em sequência. Na peça um ator decadente narra suas peripécias e lamenta o destino a que foi acometido, descrevendo sua tragetória desde o passado de glória até o presente, onde se encontra tomado por vícios, desilusões e pela loucura. O ator é excelente, pela forma com que mergulha em seu papel, diria que ele parece ser um dos adeptos do Método Stanislavski, a construção do personagem parece ter sido realmente muito bem trabalhada, porém a trama não se sustenta. O roteiro, mesmo tendo sido bem escrito, se torna um pouco cansativo com o tempo e se a peça só não se torna chata, o mérito é do ator. Não fiquei para conferir os vencedores do festival, mas não seria injustiça dar a ele o prêmio de melhor atuação da mostra.

No domingo à tarde, lá estava eu, indo de novo para a antiga Estação, quando cheguei o espetáculo tinha acabado de começar, a peça era uma releitura de A Megera Domada de Shakespeare, encenada pelo grupo Gota, Pó e Poeira. Foi a única comédia que assisti na mostra e ela me arrancou boas rizadas, algumas tiradas dos personagens durante a peça são impagáveis. A trupe ousou ao remontar a encenação original sob um novo contexto e com uma nova linguagem, mas a adaptação foi muito bem sucedida e alguns dos atores deram um verdadeiro show de interpretação. A interação com o público, que parecia ser um grande diferencial, acabou não o sendo, da metade para o final o ritmo parece ter sofrido alguma alteração e o abuso das “brincadeiras” com o público se tornaram a partir de então um fator mais negativo do que positivo, afinal o conteúdo colaborativo às vezes não sai conforme esperado. Ainda assim a peça é muito boa, arrisco a dizer que foi uma das melhores do festival. O grupo mostrou grande competência ao remontá-la, e isto ficou perceptível também pelos figurinos e maquiagens, ótimos. Era o sinal de que o final do domingo ainda prometia.

Tiro ao Alvo, encenado pelo grupo Criarte de Juiz de Fora, foi minha grande surpresa, foi na minha opinião a melhor dentre as peças que assisti, tanto em questão de roteiro, quanto em atuações, levando se em conta todo o elenco. O roteiro, escrito nos anos 60 pelo juiz-de-forano Flávio Márcio contém críticas ácidas à repressão que o país vivia na época e à hipocrisia de uma família da classe média, microcosmo que procura retratar. A Trama da peça gira em torna da família Santana, uma espécie de espelho deturpado do sistema social então vigente. A família tem valores invertidos, mas apesar disso, tem a mesma preocupação que a nossa sociedade tem em manter as aparências. O mote da peça é a desclassificação do filho do casal em uma competição de tiro ao alvo. A derrota cai como uma bomba no seio familiar e cada um dos personagens tentam achar uma justificativa para o fato, porém nos diálogos fica claro que a família não consegue se ouvir e estar enquadrado no sistema se torna, então mais importante para eles que qualquer outra coisa. A abertura da peça feita por um arauto, que anuncia ironicamente o que está por vir, é seguida por uma cena em que o pai injeta drogas na esposa e na filha, ao som de What a Wonderful Word de Louis Armstrong. Numa das melhores cenas, a filha confessa para a mãe, tremendo de medo, que ainda é virgem. A mãe a repreende e dia que vai contar para o marido tamanho desgosto. O humor ácido da peça, quase lhe tira a classificação de “drama”, a substituindo pela de “comédia de costumes”. Os comentários durante a encenação deixou claro, que pouca gente deve ter pescado as referências e citações que a peça faz, para a maior parte do público presente o mais marcante provavelmente foi a sequência que tornou a peça restrita a maiores de 16 anos.

O 1° Fetuba foi encerrado com brilhantismo pelo grupo Roda de Conselheiro Lafaiete, que trabalha principalmente montagens feitas com textos literários. A peça encenada foi Perfume de Rosas, que se baseia em fragmentos da obra de Clarisse Lispector, Cora Coralina, Adélia Prado e no texto O Último Discurso de Charlie Charplim (do filme O Grande Ditador), para propor reflexões sobre a inércia provocada pelo corre-corre e pela rotina da vida moderna. A encenação nos chama para a verdadeira vida, que começa apenas quando deixamos de estar acostumados com aquilo que o mundo ao nosso redor nos oferece. Recorro ao clichê para dizer que o encerramento foi feito com chave de ouro. Os cinco atores que participaram da peça/recital demostraram total entrega aos seus respectivos personagens. A montagem também se destaca pelo cenário, que evoca a esperança, que a encenação tenta passar, através das rosas que são lançadas e depois colhidas em meio a monte de folhas secas. O incenso e os cartissais que cercavam o cenário, aliados aos figurinos, trouxeram um clima dark à peça, que não constrata no fundo com a urgência da mensagem que estava sendo emitida.

Em cada uma das peça que assisti, pude perceber aquilo, que na minha opinião foi um dos pontos fracos do festival: a falta de educação de parte do público. Os cochichos e murmurações durante as peças e a porta lateral da sala que era aberta nos momentos mais inoportunos, incomodaram bastante, mas felizmente não foram suficientes para me furtar a apreciação de cada um dos espetáculos, nem mesmo os celulares, que tocaram em três das peças, o fizeram. No final voltei pra casa lamentando não poder ter assistido às outras apresentações e tomado por um grande desgosto com relação à situação cultural de Ubá... Na maioria das apresentações o público era constituído, em sua maior parte, de organizadores e integrantes de alguns dos outros grupos que estavam participando da mostra. Cheguei a me questionar se isso poderia ser devido à falta de informação (apesar da organização ter investido na divulgação, pouca gente sabia do evento), ou se seria realmente pela falta de cultura da nossa cidade provinciana, que ao que parece, sabe muito sobre produzir e vender móveis (somos o 3º polo moveleiro do país, báhh) e pouco sobre valorizar a cultura e arte. Tenho que reconhecer o grande mérito de cada um dos envolvidos na organização, principalmente aqueles que investiram dinheiro do próprio bolso na realização, pois infelizmente, promover cultura em Ubá realmente parece ser jogar pérolas aos porcos...

Não deixem de confirir o SlideShow feito com imagens do festival, capturadas pelo fotógrafo ubaense, Cleverson Montanha. Clique AQUI para assistir!
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domingo, 24 de abril de 2011

Em Busca da Palma de Ouro


O Festival de Cannes, que acontecerá entre os dias 11 e 22 de maio, chega à 64° edição se mantendo fiel à sua missão de "revelar e valorizar obras para servir a evolução do cinema, favorecer o desenvolvimento da indústria do filme no mundo e celebrar a 7ª arte a nível internacional". O mostra é uma das mais importantes no circuíto mundial, principalmento pelo fomento que da à criação e à descoberta de novos talentos (impulsionada principalmente pela mostra paralela de curtas). A lista de selecionados, que segue abaixo, deixa clara a ampla visão que o festival tem sobre a produção mundial, são selecionados filmes dos quatro cantos do mundo e, diferente do que acontece no Oscar, os filmes são selecionados pelos próprios organizadores (desde 1972) e não pelos países de origem, conferindo assim uma autonomia maior ao festival. Dentre os selecionados para a competição oficial (aqueles que concorrem à Palma de Ouro) estão: La Piel que Habito de Pedro Almodovar (Espanha), A Árvore da Vida de Terrence Malick (EUA) e Melancolia de Lars Von Trier (Dinamarca).


Competição Oficial

La Piel que Habito, de Pedro Almodovar (Espanha)
L'Apollonide - Souvenirs de la Maison close, de Bertrand Bonello (França)
Pater, de Alain Cavalier (França)
Footnote, de Joseph Cedar (Israel)
Once Upon a Time in Anatolia, de Nuri Bilge Ceylan (Turquia)
Le gamin au vélo, de Jean-Pierre e Luc Dardenne (Bélgica)
Le Havre, de Aki Kaurismäki (Finlândia)
Hanezu No Tsuki, de Naomi Kawase (Japão)
Sleeping Beauty, de Julia Leigh (Austrália)
Polisse, Maïwenn (França)
A Árvore da Vida, de Terrence Malick (EUA)
La Source des Femmes, de Radu Mihaileanu (Romênia)
Hara-kiri: Death of a Samurai, de Takashi Miike (Japão)
Habemus Papam, de Nanni Moretti (Itália)
Precisamos Falar sobre o Kevin, de Lynne Ramsay (Grã-Bretanha)
Michael, de Markus Schleinzer (Áustria)
This Must Be the Place, de Paolo Sorrentino (Itália)
Melancolia, de Lars Von Trier (Dinamarca)
Drive, de Nicolas Winding Refn (cineasta dinamarquês, produção dos EUA)

Fora de Competição

Meia-Noite em Paris, de Woody Allen (EUA), filme de abertura
La Conquête, de Xavier Durringer (França)
Um Novo Despertar, de Jodie Foster (EUA)
The Artist, de Michel Hazanavicius (França)

Mostra Um Certo Olhar

Restless, de Gus Van Sant (EUA)
The Hunter, de Bakur Bakuradze (Rússia)
Halt auf Freier strecke, d'Andreas Dresen (Alemanha)
Hors Satan, de Bruno Dumont (França)
Martha Marcy May Marlene, de Sean Durkin (EUA)
Les neiges du Kilimandjaro, de Robert Guédiguian (França)
Skoonheid, de Oliver Hermanus (África do Sul)
The Day He Arrives, de Hong Sangsoo (Coreia do Sul)
Bonsaï, de Cristian Jimenez (Chile)
Tatsumi, de Eric Khoo (Cingapura, animação)
Arirang, de Kim Ki-duk (Coreia do Sul)
Et maintenant on va où?, de Nadine Labaki (Líbano)
Loverboy, de Catalin Mitulescu (Romênia)
Yellow Sea, de Na Hong-jin (Coreia do Sul)
Miss Bala, de Gerardo Naranjo (México)
Trabalhar Cansa, de Juliana Rojas e Marco Dutra (Brasil)
L'Exercice de l'Etat, de Pierre Schoeller (França)
Toomelah, de Ivan Sen (Austrália)
Oslo, 31 août, de Joachim Trier (Noruega)

Exibições Especiais

Labrador, de Frederikke Aspöck (Dinamarca)
Le Maître des forges de l'enfer, de Rithy Panh (Camboja)
Michel Petrucciani, de Michael Radford (Inglaterra)
Tous au Larzac, de Christian Rouaud (França)

Sessão da Meia-noite

Wu xia, de Chan Peter Ho-Sun (China)
Dias de Gracia, de Tekla Taidelli (México)

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sábado, 23 de abril de 2011

Drácula de Bram Stoker

Drácula de Bram Stoker (Bram Stoker's Dracula) - 1992. Dirigido por Francis Ford Coppola. Roteiro de James V. Hart, baseado na obra de Bram Stoker. Direção de Fotografia de Michael Ballhaus. Música de Wojciech Kilar. Figurino de Eiko Ishioka. Produzido por Francis Ford Coppola; Fred Fuchs & Charles Mulvehill. Columbia Pictures / EUA. 

 

Filmes de vampiro? Não obrigado... De fato o tema ficou saturado e o cinema parece não conseguir mais se reinventar quando se trata de contar uma nova história sobre os chupadores de sangue. Nos últimos anos os nosferatus protagonizaram produções rasas e de baixíssima qualidade. A trilogia de Blade, a franquia de Anjos da Noite e o péssimo Rainha dos Condenados (2003) confirmam a falta de criatividade em torno da lenda, que ainda poderia dar a origem a muitos clássicos da sétima arte. A saga Crepúsculo, por outro lado, inova da pior forma possível, transformando os vampiros em criaturas meigas, astros pop, que ilustram bem o hype da modinha emo. Cada vez mais me convenço que os bons filmes de vampiros realmente são coisas do passado. Não me lembro bem de Entrevista com o Vampiro (1994 - que assisti já há muito tempo), mas estou certo de que Drácula de Bram Stoker (1992) é o último grande exemplar do gênero.

Francis Ford Coppola foi muito bem sucedido ao adaptar o clássico literário de Bram Stoker e o resultado foi um filme surpreendente, tanto visualmente, quanto pela trama, que inovou sem se desprender da história original. Coppola transportou o foco da narrativa, que no livro estava nos personagens humanos, para o próprio conde, que no filme ganha um passado, inspirado na história real de Vlad Tepes, o Empalador. O cineasta também dá dimensões maiores à história de amor de Drácula, que no livro tinha pouca importância. A presença do nome do autor no título do filme, que segundo o próprio Coppola, se deve à uma questão de reconhecimento daquele como co-autor do filme como um todo, não é a única reverência que o filme presta. Pude perceber, em cada uma das vezes que o assisti, fortes referências a Nosferatu (1922), clássico do realizador F. W. Murnau e do expressionismo alemão. Nosferatu teria sido a primeira adaptação do livro de Bram Stoker para o cinema, mas devido à questões relativas aos direitos autorais, teve que ser lançado com um nome diferente.


Francis Ford Coppola dá ao filme um visual impecável, ao reproduzir de uma forma aterradora os aposentos de Drácula e a região do Mar Báltico, onde está localizado seu castelo. Os efeitos especiais, produzidos por Romam Coppola, filho do diretor, remontam aos primórdios do cinema e a técnicas, que no ano do lançamento já estavam obsoletas. A assimetria dos cenários e o jogo de luz e sombras, que o filme explora ao dar vida própria à sombra do vampiro, também remontam ao expressionismo de Nosferatu. Os efeitos quase rudimentares utilizados, não prejudicam e sim colaboram com as reações que o filme pretende provocar. A sequência inicial que mostra a batalha do conde, ainda humano, como cruzado na guerra, é produzida usando uma antiga técnica chinesa, que usa o teatro de bonecos aliado ao manejo das sombras. Algumas imagens, capturadas em enquadramentos belíssimos, chegam a ser hipnóticas em alguns momentos e exploram o absurdo, para provocar reações de medo e estranhamento, como na cena em que uma gota cai para cima, ou naquela em que um rato anda de cabeça para baixo em uma calha.


Na adaptação, o conde romeno Vlad Tepes (Gary Oldman) volta para casa depois de uma esmagadora vitória em uma batalha das cruzadas, ao chegar em seu castelo e recebe a triste notícia de que sua esposa se suicidara ao receber uma mensagem falsa, que comunicava a morte do marido na guerra. A igreja se recusa a enterrar a suicida como uma cristã, por ela ser culpada de um pecado imperdoável. Vlad se enfurece contra o clero e contra seu próprio deus, ele não entende como pôde ser acometido por tamanha tragédia, mesmo depois de arriscar a própria vida em defesa do cristianismo na cruzada. Ele renega à igreja e ataca um crucifixo em um altar, que jorra sangue, do qual ele bebe, em sinal de blasfêmia. A partir de então ele é amaldiçoado e condenado à sede eterna e insaciável de sangue. Alguns séculos se passaram, somos transportados para Londres, no final do século 19, onde conhecemos o jovem agente imobiliário, Jonathan Harker (Keanu Reeves). Harker recebe a missão de viajar até a Romênia e fechar a venda de alguns imóveis com o excêntrico conde Drácula.

 

Harker é feito prisioneiro na mansão do conde, que mais tarde ele descobre se tratar do próprio Vlad Tepes, que continua vivo e atormentado por sua maldição. Drácula, ao ver a foto de Mina (Winona Ryder), a noiva do rapaz, passa a enxergar nela uma espécie de reencarnação de sua esposa Elisabetha. Drácula muda completamente sua aparência (como o faz diversas vezes durante o filme - justificando o Oscar de Melhor Figurino) rejuvenescendo, para assim se aproximar da moça. Mina, por trás de sua inocência, esconde o ardor do desejo sexual, que começa a descobrir junto com a sua melhor amiga, a fantasiosa Lucy (Sadie Frost), ambas seriam nesta condição vítimas fáceis para a sedução fatal do vampiro. Quando a vida de Lucy é colocada em risco por uma estranha doença, seu noivo, Lord Arthur Holmwood (Cary Elwes) e seu médico, Dr. Jack Seward (Richard E. Grant) recorrem ao Professor Abraham Van Helsing (Anthony Hopkins), que através de seus métodos nada ortodoxos, percebe os indícios da presença do vampiro em Londres. O restante do filme nos mostra a busca incansável de Drácula pelo amor que atravessou séculos e a luta de Van Helsing e dos outros homens para salvar a vida e a alma de Lucy e de Mina.

 

Se o filme tem um ponto fraco, este é a atuação medíocre de Keanu Reeves, mas o restante do elenco mantém o nível altíssimo da produção, destaque para a participação de Tom Waitts, como o psicologicamente perturbado R.M. Reinfield. Os figurinos, aspecto no qual, confesso, não costumo prestar muita atenção, realmente é algo marcante e faz jus ao Oscar que recebeu. O figurino ajuda a compor o visual fantástico do longa, que, como já mencionei, é o aspecto que mais se destaca. A trama, que deu à história original mais sensualidade, paixão e até um toque de lesbianismo, é o exemplo perfeito do que realmente é um bom filme de vampiro. Este consegue ser excitante, assustador e maldito, sem com isso precisar apelar para modismos para construir uma boa história. É um clássico do gênero, que parece pequeno perto de outras obras de Coppola, mas que é imperdível por toda a sua força e beleza! Recomendo (crepusculianos passem longe)!

Drácula de Bram Stoker ganhou os Oscars de Melhor Figurino, Maquiagem e Efeitos Sonoros, tendo sido indicado também na categoria de Melhor Direção de Arte.


Assista ao trailer de Drácula de Bram Stoker no You Tube ! (clique no link)


sexta-feira, 22 de abril de 2011

Meu Malvado Favorito

Meu Malvado Favorito (Despicable Me) - 2010. Dirigido por Pierre Coffin & Chris Renaud. Roteiro de Ken Daurio & Cinco Paul. Música de Heitor Pereira & Pharrell Williams. Produzido por Chris Meledandri. Illumination Entertainment / EUA.

 

Meu Malvado Favorito (2010) é a primeira produção da Illumination Entertainment, empresa fundada por Chris Meledandri, que esteve à frente da 20th Century Fox Animation, quando A Era do Gelo (2002), Os Simpsons – o filme (2007), Alvin e os Esquilos (2007), e outros longas muito bem sucedidos foram lançados. O filme conta com a experiência que Meledandri, como produtor, já tem na área e não faz feio. O filme é legal, no começo chega a parecer que vai ser chato e cansativo, mas depois vai melhorando a cada cena, não consegue ser maravilhoso (o que já seria pedir demais) contudo nos proporciona momentos de ótimo entretenimento. 

A história é bem legal e foi bem sucedida ao contar as desventuras não de um mocinho, mas de um vilão, daqueles bem malvados. Gru, o personagem principal, que no original é dublado por Steve Carrel, tem como estilo de vida a maldade e isto se reflete na casa onde mora e em tudo que faz no seu dia-a-dia. Mas ao contrário do que podem pensar, à medida que vamos conhecendo o personagem, ele vai nos cativando e nos conquista com a imensa empatia que consegue despertar, mostrando que bem lá no fundo não assim tão malvado, afinal de contas este é uma filme para crianças.



Gru se gaba de ser o maior malvado do mundo, até que alguém faz uma maldade inimaginável, roubar as pirâmides do Egito. Vetor, o novo vilão, é mais jovem e aparentemente mais esperto que Gru e este, para não ser passado para trás, decide colocar em prática seu plano mais diabólico: roubar a lua. Para tal ele precisa provar que consegue mesmo fazer isso, para assim o Banco da Maldade(!) financiar seu empreendimento. Para concretizar seus planos o malvado vai precisar se fazer de bonzinho para conseguir a ajuda de três garotinhas que vivem em um orfanato, elas serão a peça chave para que Gru consiga provar que seu plano é viável. Os ajudantes do laboratório de Gru, pequenos bichinhos amarelos (que as crianças devem adorar), são os protagonistas das melhores e mais engraçadas sequências do filme. 

Meu Malvado Favorito é realmente gostoso de assistir, algumas cenas chegam a ser comoventes e outras podem nos provocar boas risadas. Contudo e como é de se esperar pela sua proposta, esta animação não nos traz nada que vá além de alguns bons momentos de entretenimento (e estes podem ser encontrados com maior facilidade nos extras do DVD, do que no próprio filme). O filme é uma boa pedida para um fim de semana, no qual não se tenha nada melhor para fazer, neste caso, junte a criançada, prepare a pipoca e o refri e boa diversão!


Assista ao trailer de Meu Malvado Favorito no You Tube ! (clique no link)

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terça-feira, 19 de abril de 2011

O Senhor dos Anéis - Trilogia

 O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel (The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring) - 2001. Dirigido por Peter Jackson. Roteiro de Fran Walsh; Phillipe Boyens & Peter Jackson, baseado na obra de J. R. R. Tolkien. Música de Howard Shore. Direção de Fotografia de Andrew Lesnie. Produzido por Peter Jackson; Barrie M. Osborne; Fran Walsh & Tim Sanders. New Line Cinema; Wing Nut Films & The Saul Zwertz Company / EUA-Nova Zelândia.

O Senhor dos Anéis – As Duas Torres (The Lord of the Rings: The Two Towers) - 2002. Dirigido por Peter Jackson. Roteiro de Fran Walsh; Phillipe Boyens & Peter Jackson, baseado na obra de J. R. R. Tolkien. Música de Howard Shore. Direção de Fotografia de Andrew Lesnie. Produzido por Peter Jackson; Barrie M. Osborne & Fran Walsh. New Line Cinema; Wing Nut Films & The Saul Zwertz Company / EUA-Nova Zelândia.

O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei (The Lord of the Rings: The Return of the King) - 2003. Dirigido por Peter Jackson, baseado na obra de J. R. R. Tolkien. Roteiro de Fran Walsh; Phillipe Boyens & Peter Jackson. Música de Howard Shore. Direção de Fotografia de Andrew Lesnie. Produzido por Peter Jackson; Barrie M. Osborne & Fran Walsh. New Line Cinema; Wing Nut Films & The Saul Zwertz Company / EUA-Nova Zelândia.




Dia desses uma amiga me disse que, conforme havia percebido, o tema “relacionamentos” era recorrente em minhas resenhas. Não posso negar que realmente este é uma aspecto que sempre observo com um cuidado maior nas histórias, mas não era de fato um tema recorrente. Às vezes busco assistir a determinados filmes com uma visão que vá além daquela limitada, com a qual o público médio o assistiria, sempre busco a profundidade das tramas e o que está por detrás daquilo que para muitos seria apenas banalidade. Na condição de criação artística, principalmente os filmes autorais, refletem alguns dos sentimentos, ideais e reflexões de seus realizadores e com isso cada produção já traz em si algo implícito, dito muitas vezes nas entrelinhas e não é só isso, nossa carga psicológica também influencia decisivamente na forma com que decodificamos a mensagem fílmica, isso é algo totalmente pessoal, que faz com que cada tenha um ponto de vista e que enfoque determinados ângulos da obra. Em cada resenha que posto aqui no Sublime Irrealidade tento descrever cada uma de minhas reações e impressões ao assistir cada produção e isso não quer dizer que deva, por obrigação, analisar cada um dos aspectos da obra.

 

Esta pequena introdução se fez necessária pela dimensão do que me propus a fazer, resenhar a trilogia O Senhor dos Anéis (2001, 2002, 2003). Assisti à trilogia (quase um filme atrás do outro) pela primeira vez em 2006, na ocasião eu fiquei bestificado com a tamanha qualidade, tinha descoberto o porquê do sucesso de crítica e de público, conquistado pelos três filmes do diretor neozelandês Peter Jackson. Decidi fazer apenas uma resenha da trilogia, poque entendo que seria um erro fazê-lo de forma diferente. Tal como no caso do livro, do qual foram adaptados, os três filmes devem ser vistos como uma única obra (de mais de 9 horas). Pensar sobre o que falar de algo tão perfeito, quando os clichês já pareciam estar prontos em minha mente, seria o primeiro desafio. Poderia escrever um grande número de laudas para falar dos efeitos (que são espetaculares), da fotografia (idem - a maioria das paisagens são reais, as locações foram feitas na Nova Zelândia, país do natal de Peter Jackson) ou da trilha sonora (fantástica). Poderia falar das atuações ou até mesmo analisar a história à luz da filosofia, da mitologia ou da teologia e acreditem isso não seria tão difícil, afinal as analogias e metáforas estão tão latentes no filme. Mas escolhi analisar o filme sobre outro aspecto, adivinhem... Sim, o dos relacionamentos.


O curioso é que mesmo o filme sendo protagonizado por criaturas fantásticas e miológicas, cada um dos personagens são dotados de humanidade e a essência da história são os relacionamentos que desenvolvem e as decisões que precisam tomar. Toda a trama, que se passa na Terra Média, gira em torno do Um Anel, que fora criado por Sauron, que intentava controlar cada um dos povos a quem tinha presenteado com outros anéis menos poderosos. Em tempos remotos, homens e elfos se uniram contra Sauron, conseguiram bani-lo da Terra Média, mas sua influência continuou a ser exercida através do Um Anel que passou de mãos em mãos até chegar ao hobbit Frodo, que o herdou do tio Bilbo. Sauron arquitetava sua volta, que só poderia ser impedida com a destruição do Um Anel. Para a realização da missão, foi criada a Sociedade do Anel, que congregava os humanos Aragorn (Viggo Mortensen) e Boromir (Sean Bean), os hobbits Frodo (Elijah Wood), Sam (Sean Astin), Merry (Dominic Monaghan) e Pippin (Billy Boyd ), o elfo Legolas (Orlando Bloom), o anão Gimli (John Rhys-Davies) e o mago Gandalf (Ian McKellen). O Um Anel despertava em seu portador o egoísmo, a ira e a ganância. Nenhum dos que temiam o retorno de Sauron tinham coragem de possui-lo, então Frodo, que já era o portador, foi o encarregado de transportá-lo até o único lugar onde ele poderia ser destruído, lugar este que ficava bem no centro do território inimigo.

  

Ao contrário do que podem pensar os desavisados ao verem as cenas de ação, o foco do filme não são as batalhas contra os inimigos e sim as batalha da cada um contra si mesmo. Neste caso o que conta não é a força física ou o poder que se detém. A escolha de Frodo para ser o portador do anel é prova disso, ele é membro de uma das raças mais menosprezadas e subestimadas da Terra Média e o sucesso de sua missão não será determinado por isso, e sim pelas amizades que construiu e pela constante luta contra seus próprios sentimentos, que vão sendo corrompidos à mediada que o tempo passa, pela influência maligna do Um Anel. Outros personagens se vêm diante de dilemas totalmente humanos, que os levam ao aprendizado sobre o valor da amizade, o perdão, a humildade e o auto-controle. Sob este ponto de vista, pode-se considerar a obra bastante moralista, da forma mais positiva possível. A trama nos alerta sobre o perigo de nossa ganância e sobre a forma com que os sentimentos negativos pode nos levar a uma espécie de morte em vida. O personagem Gollum é um dos mais interessantes da trama. Ele personifica a ruína de um ser tomado pelo ódio, pela auto-piedade e pela ganância. Gollun fora um hobbit um dia, seu nome era Sméagol, porém ao se apoderar do Um Anel, ele vai se definhando até se transformar numa criatura nojenta e repugnante. Sméagol funciona como uma metáfora sobre a forma com que nossos sentimentos, quando não controlados, podem levar à destruição irreversível de nossa alma.

  

É extraordinária a forma com que o filme (leia-se a trilogia) trata de assuntos profundos e complexos, como a relação familiar, a brevidade da vida (encarada pelos personagens quando se deparam com a iminente ameaça de morte) e o auto-sacrifício. Ainda não li o livro, já o procurei na biblioteca do Centro Cultural Banco Brasil, onde posso pegar emprestado, mas não o achei, creio que vou ter que comprá-lo, pois a reflexão que o filme proporcionou nesta minha segunda maratona (assisti aos 2 primeiros no último domingo e ao terceiro na segunda-feira) foram ainda além do que aquelas que eu tinha ensaiado no meu primeiro contato com a obra em 2006. Ao invés de baboseiras descartáveis, como as que a saga Crepúsculo nos proporcionou, a trilogia do O Senhor dos Anéis nos mostrou como se faz um grande filme, grande em todos os sentidos, e não se faz só com um belo par romântico e um bocado de efeitos especiais (meia boca no caso das adaptações da obra de Stephenie Meyer). Como já disse, O Senhor dos Anéis pode ser objeto de inúmeros estudos, das mais diversas áreas, que vão deste a linguística, às teorias gerais do estado e à psicologia.

 
 
Mesmo em meio a tantos efeitos especiais, que revolucionaram a forma de fazer cinema, percebo que as melhores cenas não são as de batalha e sim aquelas em que os personagens estão imersos em reflexões e temores quanto aos tempos ruins que se aproximam. A simplicidade dos hobbits é em cada cena, em que aparecem, extremamente comovente e a relação entre Frodo e Sam é o ápice disso, o hobbit gorducho talvez seja o maior de todos os responsáveis pelo desfecho da história. O final melancólico (não se preocupe, não pretendo o revelar) mostra como cada personagem evoluiu no decorrer da trama, mesmo após o início dos créditos finais, fica ainda um sentimento estranho, que parece nos dizer que o preço pago talvez tenha sido alto demais e a verdade de que “algumas feridas não se cicatrizam jamais” é um tanto dolorosa, só amenizada pela certeza, que o filme nos dá, de que uma verdadeira amizade é a melhor arma quando nos encontramos na mais profunda escuridão. Numa das cenas mais profundas Gandalf consola Frodo: “Todos que atravessam tempos difíceis lamentam sua sorte mas não podemos decidir a hora que vamos viver. A nós cabe apenas decidir o que fazer com o tempo que temos”. Simplesmente um clássico absoluto!



O Senhor dos Anéis - As Sociedade do Anel ganhou os Oscars de Melhor Fotografia, Trilha Sonora, Efeitos Visuais e Maquiagem, tendo sido indicado também nas categorias de Melhor Filme, Direção, Ator Coadjuvante (Ian McKellen), Direção de Arte, Edição, Figurino, Mixagem de Som, Roteiro Adaptado e Melhor Canção Original


O Senhor dos Anéis - As Duas Torres ganhou os Oscars de Melhor Edição de Som e Efeitos Especiais, tendo sido indicado também nas categorias de Melhor Filme, Edição, Direção de Arte e Mixagem de Som.

O Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei ganhou cada um dos Oscars a que concorreu, sendo eles os de Melhor Filme, Direção, Roteiro Adaptado, Edição, Direção de Arte, Figurino, Maquiagem, Canção Original, Edição de Som, Efeitos Especiais e Trilha Sonora Original.


domingo, 17 de abril de 2011

A Liberdade é Azul

A Liberdade é Azul (Trois Couleurs: Bleu) - 1993. Dirigido por Krzysztof Kieslowski. Roteiro de Krzysztof Kieslowski; Krzysztof Piesiewicz; Agniezka Holland; Slavomir Idziak & Edward Zebrowski. Música de Zbigniew Preisner. Direção de Fotografia de Slavomir Idziak. Produzido por Marin Karmitz. CAB; CED; Eurimages; France 3; MK2 & Tor / França-Polônia-Suiça.

 

Na última segunda-feira (11/04), a lei que que proíbe o uso do véu islâmico integral (aquele que só deixa uma pequena abertura na altura dos olhos) entrou em vigor na frança. O uso da burca está proibido nas ruas, transportes públicos, lojas, escolas, agências de correio, tribunais, hospitais e prédios da administração pública . As mulheres que desobedecerem a lei estarão sujeitas a uma multa de 150 Euros e a um curso de educação cívica. A lei vem causando polêmica desde quando ainda estava tramitando no congresso francês, a população está dividida, há quem vê a lei como um atentado à liberdade individual e de crença e há os que a vêm como uma forma de proteger as mulheres contra o uso do véu, que conforme justificam seria ago arbitrário, imposto pela religião e pelos maridos das seguidoras do islamismo mais radical. 

Achei interessante mencionar este tema tão atual no início desta resenha, pois ele ilustra categoricamente como o ideia da liberdade pode se tornar por vezes ambígua e contraditória. Na polêmica dos véus podemos perceber que ambos os lados recorrem à liberdade para justificarem seus pontos de vista. Curioso é que o mesmo país que ostenta em sua bandeira uma cor que representa o ideal da liberdade, que reprime a prática de um costume, cuja a decisão de praticar deve, ao menos em tese, partir da pessoa que escolhe seguir àquela tradição religiosa. A fragilidade do ideal tem tudo a ver com a Trilogia das Cores de Krzysztof Kieślowski, já deixei isso bem claro na resenha dos outros dois filmes e não é diferente em A Liberdade é Azul (1993). Neste filme, o primeiro na ordem cronológica, encontrei mais uma peça que ajudou a dá um sentido mais amplo às outras duas histórias.


 

Julie (Juliette Binoche – linda e exuberante como sempre) se vê diante do que poderia ser a liberdade completa, ela está livre do casamento, das obrigações familiares e da administração de seu lar. Mas esta liberdade não é nada boa, na verdade este parece ser o pior momento de sua vida, ela acabou de perder o marido e a filha de 5 anos em um acidente automobilístico e agora ela tenta se desapegar da antiga rotina para simplesmente continuar vivendo. Esta história simples trouxe a peça que me faltava para uma compreensão mais ampla da trilogia e que só agora eu consegui encontrar: os ideias em si não podem nos trazer a felicidade, esta só pode encontrada nos relacionamentos e nos sentimentos compartilhados. Isto também pode ser percebido nos outros dois filmes, em A Igualdade é Branca (1994), o personagem principal não encontra mais a felicidade que tinha no casamento, nem depois de concretizar sua vingança contra a ex-esposa, em a Fraternidade é Vermelha (1994) entendemos que a fraternidade pode destrutiva, ao vermos que uma boa ação pode destruir o já fragilizado relacionamento de uma família.

Nesta história, Patrice, o marido de Julie, estava compondo o Concerto Pela Unificação da Europa antes de morrer. A música deveria ser executa simultaneamente por orquestras de diversos países do velho continente. A conclusão da obra inacabada é atribuída a Julie, que também é compositora, mas ela não consegue encontrar dentro de si o sentimento de união que a composição demanda. Ela que está despedaçada pela perda, não consegue materializar o sentimento que o marido falecido começara a dar à música. Nesta situação percebemos outra vez que a ventura que se deseja alcançar não está nas abstrações de conceitos filosóficos e sim nos sentimentos de cada indivíduo, que por sua vez é moldado e influenciado pela fragilidade de suas relações.


 

Após assistir aos três filmes, fica bem mais fácil ensaiar uma interpretação mais ampla da Trilogia das Cores, cada um dos filmes são alicerçados pela ideia da morte das ideologias e da fragilidade do ser humano em suas relações. As histórias transferem para a espera dos relacionamentos de cada indivíduo a felicidade que ele busca em ideias que estão tão desfigurados e tão distantes. De acordo com este ponto de vista, a liberdade, a igualdade e a fraternidade são sim coisas positivas, mas em determinadas situações é melhor estar preso ao que se ama do que ser livre, é melhor ter as diferenças respeitadas e compreendidas do que ser igual e é melhor não ser fraterno, quando tal fraternidade fizer mais bem ao nosso ego que a pessoa a quem é destinada.

 

A Liberdade é Azul é tão formidável quanto A Fraternidade é Vermelha, mais uma vez a fotografia, a trilha sonora, as atuações nos deixam boquiabertos. A poesia parece saltar de cada uma das cenas. Em alguns momentos parece ser quase palpável a dor que a personagem principal sente e os artifícios usados para isso são fantásticos, preste atenção em como a tela enegrece quando Julie mergulha na dor que está sentindo e nas cenas de close-up em que apenas a canção e a fotografia dão o tom do estado de espírito da personagem. Não tem como descrever a cena em que percebemos apenas pela sonoplastia e pela expressão facial de Julie, tomada pela frieza da cor azul, o suspense e a brutalidade de algo, que acontece fora de seu apartamento, que não nos é mostrado. Em outra sequência impecável a canção que toca é alterada à medida que a personagem reflete sobre as possíveis alterações a serem feitas na composição.

 

Vale lembrar que tal como os outros dois, este é um filme de sutilezas, ele possui um ritmo um pouco mais lento e mais melancólico que os outros, sem com isso deixar de ser maravilhoso. As sutilezas vão desde pequenas metáforas, que estão em todo o filme, à repetição de uma cena que aparece em circunstâncias um pouco diferentes em cada um dos filmes e à inserção de personagens das outras histórias que aparecem em algum momento da trama.

A situação que relembrei na introdução desta resenha pontua bem o quanto as reflexões propostas por Krzysztof Kieślowski acerca dos ideias são atuais e capazes de ainda causar polêmicas e discussões exaltadas. O diretor conseguiu descrever magistralmente a situação do indivíduo na pós-modernidade, que se encontra cada vez mais carente de relacionamentos que não sejam superficiais e cada vez mais confuso diante de um mundo que se sustenta sobre pilares que estão ruindo. Indico cada um dos três filmes, com a ressalva de que A Igualdade é Branca, apesar de ser o favorito do diretor, não merece o status de obra prima, que os outros alcançam com tamanho mérito. Recomendo!


Confiram a resenha crítica dos outros dois filmes da  Trilogia das Cores aqui no Sublime Irrealidade:


Assista ao trailer de A Liberdade é Azul no You Tube ! (clique no link)

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