quarta-feira, 29 de junho de 2011

Além da Linha Vermelha

Além da Linha Vermelha (The Thin Red Line) - 1998. Dirigido e escrito por Terrence Malick, adaptado do livro homônimo de James Jones. Direção de Fotografia de John Toll. Música Original de Hans Zimmer e John Powel. Produzido por Robert Michael Geisler, Grant Hill e John Roberdeau. 20th Century Fox / EUA.



"Esse grande demônio, de onde vem? Como se entranha dentro do mundo? De que semente, de que raiz é que se desenvolveu? Quem é que está fazendo isso? Quem está nos matando? Nos furtando a vida e a luz... Brincando com o que talvez pudéssemos vir a saber. Será que a nossa ruína beneficia a terra de alguma maneira? Será que ajuda a grama a crescer ou o sol a brilhar? Esta escuridão está dentro de ti também? Já teve este pesadelo também?"

Vários filmes, desde os primórdios do cinema, já mostraram os horrores da guerra, mas poucos com a mesma poesia, angustiante e ao mesmo tempo bela, de Além da Linha Vermelha (1998). Quando assisti ao filme pela primeira vez, não consegui aprecia-lo em sua plenitude. Acabei me perdendo na complexidade de seu roteiro, em parte por não esperar dele mais do que esperaria de qualquer outro filme de guerra. O principal diferencial deste filme, quando comparado a tantos outros do gênero, é que o seu atrativo não são as cenas de batalha nem a exaltação de um dos lados que estão em combate. A subversão das fórmulas prontas pode ser um fator negativo para quem está acostumado ao convencionalismo hollywoodiano e um deleite para quem aprecia a qualidade criativa do cinema de arte. Além da Linha Vermelha é um claro exemplo do perfeccionismo e da genialidade de Terrence Malick, cineasta que produziu apenas 5 longas em quase 40 anos de carreira.


Malick estava “parado” a mais de 20 anos quando anunciou o interesse de adaptar o livro de James Jones, o retorno do cineasta foi visto por atores renomados como uma oportunidade única de trabalhar com o diretor. Um elenco enorme esteve mobilizado durante a pré-produção do longa. Robert DeNiro, Robert Duvall e Tom Cruise receberam cópias do roteiro. Kevin Costner, Brad Pitt, Edward Norton, William Baldwin, Edward Burns, Josh Hartnett, Philip Seymour Hoffman, Stephen Dorff, Leonardo DiCaprio, Nicolas Cage e Johnny Depp fizeram leituras, se encontraram com o diretor ou tiveram em algum momento seus nomes associados ao mega cast. Reza a lenda que Sean Penn teria dito: “me dê um dólar e me diga onde aparecer”, ao receber diretamente de Malick o convite para integrar o elenco.


Do grande contingente de atores que fizeram testes ou leituras, relativamente poucos chegaram a gravar algumas cenas, dentre estes, Billy Bob Thornton, Martin Sheen, Gary Oldman, Bill Pullman, Lukas Haas, Viggo Mortensen e Mickey Rourke tiveram todas as sequencias em que apareciam cortadas na edição final. Dentre aparições, participações e atuações de fato, sobraram, dentre outros, Adrien Brody, George Clooney, John Cusack, Woody Harrelson, Jared Leto, Dash Mihok, Tim Blake Nelson, John C. Reilly, John Travolta, Kirk Acevedo, Paul Gleason, Miranda Otto, Nick Stahl, todos em atuações precisas e que não deixam nada a desejar. Os destaques, na minha opinião são as atuações de Sean Penn (como o cético Primeiro Sargento Edward Welsh), de Jim Caviezel (como o Soldado Robert Witt), de Elias Koteas (como o Capitão James Staros, um dos poucos personagens que ainda conservam um pingo de honra) e de Nick Nolte (fantástico como o impassível Tenente Coronel Gordon Tall).


Ao contrário de outros filmes do gênero, que tentam recriar determinado evento histórico ou simplesmente mostrar cenas de explosão e morte, Além da Linha Vermelha adentra é no consciente dos personagens, extraindo de lá todos os fantasmas e espectros forjados pela guerra. Através de narrações em off, alguns dos personagens expõem seus medos e incertezas e descrevem o pavor vivenciado diante da barbárie. As reflexões, de forte teor filosófico, mergulham em questões complexas, como a imortalidade, o porquê do sofrimento, o lugar do homem no universo e a busca de um significado maior para toda a loucura que estão vivendo. O filme parte da desconstrução do macro, representado pelo conflito como um todo, para chegar até a concepção do micro, materializada no conflito individual de cada um dos envolvidos.


Através de flashbacks, percebemos que a força, que os soldados necessitam, para continuar lutando lutas que não são suas, é buscada bem longe do front. É na idealização da família e do aconchego do lar que aqueles homens, feridos psicológica e fisicamente, buscam motivos para não se entregarem à morte que está constantemente à espreita. A história do filme, ambientada em sua maior parte na Ilha de Guadacanal, localizada no Pacífico Sul, remonta um dos eventos ocorridos durante a Segunda Guerra Mundial. A ilha era vista, tanto por japoneses, quanto por americanos, como um ponto estratégico, que podia determinar o rumo do conflito bélico. A missão dos soldados americanos, enviados para lá em um navio, era a de retomar o controle da ilha e assim destruir a estratégia dos japoneses que já tinham construído uma base lá.


A natureza exuberante da região é apresentada como um organismo vivo, um todo do qual alguns dos personagens se questionam se fazem parte, ou se não são nada mais que antagonistas. A beleza selvagem da ilha fornece o contraste perfeito entre idealização do paraíso na terra e a sangrenta e injustificável batalha que é travada no local. Com uma fotografia exuberante, são captadas algumas das imagens mais belas e dotadas de significação já reproduzidas pelo cinema. O reflexo dos raios solares penetrando na mata densa, o vento se esgueirando sutilmente nas folhagens, os corpos amontoados em um vilarejo... tudo isso compõe uma verdadeira poesia visual. John Toll, o diretor de fotografia, ilumina cada fotograma, como se fosse um quadro, uma obra de arte que consegue extrair a mais pura beleza dos acontecimentos mais repulsivos.


Além da Linha Vermelha passa a fazer parte de minha lista pessoal de melhores filmes de guerra, dividindo o pódium com Platoon (1986) de Oliver Stone e Apocalypse Now (1979) de Francis Ford Coppola. Reconheço que não é um filme que tende a agradar de imediato a todos os públicos, mas é um daqueles que deveria ser visto, sentido e refletido não só por cinéfilos, mas por todos que ainda vivem em um mundo que cultua a guerra, onde soldados são apenas peões caminhando para a morte em um grande tabuleiro. É sem dúvidas um filme imperdível! Ultra recomendado! 

Naquela que foi uma das edições mais injustas da premiação feita pela Academia, Além da Linha Vermelha foi indicado a sete Oscars, porém não levou nenhum deles. As indicações foram nas categorias de Melhor Filme, Diretor, Roteiro Adaptado, Fotografia, Edição, Trilha Sonora e Som. Tamanha gafe não seria cometida no Festval de Berlim, onde filme ganhou o prêmio máximo, o Urso de Ouro.


Assistam ao trailer de Além da Linha Vermelha no You Tube,
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Fiquem atentos para a estreia de A Árvore da Vida, o mais recente trabalho de Terrence Malick, que deve chegar em terras tupiniquins [já com bastante atraso] em breve.


domingo, 26 de junho de 2011

Closer - Perto Demais

Closer – Perto Demais (Closer) - 2004. Dirigido por Mike Nichols. Escrito por Patrick Marber, adaptado de uma peça de sua autoria. Direção de Fotografia de Stephen Goldblatt. Música Original de Suzana Peric. Produzido por Mike Nichols, Cary Brokaw e John Calley. Columbia Pictures / EUA|UK.


Começo a perder a conta de quantas vezes já vi Closer - Perto Demais (2004), o que não me esqueço é que o odiei, sem nenhum exagero, na primeira vez que o assisti. Na verdade eu nem sabia explicar porquê, mas alguma coisa no filme tinha mexido comigo e me incomodado, eu sentia raiva daquele roteiro e me ceguei para a verdade de que justamente por ter me levado àquela reação, o filme já deveria merecer um grande crédito. A segunda vez que o assisti foi na TV aberta, lembro de ter chegado da faculdade e de tê-lo pego bem no início. Apesar da dublagem horrível, naquela noite eu faria as pazes com o longa, mesmo estando muito cansado naquele dia, lembro de não ter conseguido parar de assistir.

O filme mal tinha acabado eu já queria revê-lo, seria a terceira sessão, esta seria necessária pois eu sabia que o veria, a partir de então, com outros olhos e a experiência de tê-lo visto TV na aberta, dublado e com cortes, praticamente não contava. Não demorou muito tempo e consegui pegá-lo em DVD emprestado com um amigo, também cinéfilo, e foi então que veio a certeza: aquele era um filme fantástico, praticamente em todos os aspectos. Não só assisti a ele de outra forma, como o seu efeito sobre mim também foi diferente, ele passou a fazer mais sentido e todo seu significado se expandiu quando eu finalmente aceitei que a trama, em torno da qual o filme gira, é surpreendentemente real.


Assim como em Quem Tem Medo de Virginia Woolf (1966), neste filme, Mike Nichols buscou em uma peça teatral a base para a construção do roteiro, mas ao contrário do que observei no primeiro, neste a transição entre as linguagens se dá da forma mais harmônica possível. Os diálogos carregados de ironia e acidez funcionam perfeitamente e ajudam a definir o ritmo ensandecido do filme, que consegue entrelaçar sentimentos tão antagônicos, como o amor, o ódio, a repulsa, a admiração e o asco. O roteirista Patrick Marber adaptou a peça homônima de sua própria autoria, forjando assim uma das histórias mais reais e contundentes, no tocante a relacionamentos, que sétima arte produziu na década.


Closer começa com The Blower's Daughter de Demien Rice tocando de fundo, Alice Ayres (Natalie Portman) e Dan Woolf (Jude Law) caminham pela rua vindo de direções opostas, os cortes sutis intercalam a imagem de cada um deles andando em meio a multidão, pelos olhares percebe-se que eles já se viram, mesmo de longe. Desatenta Alice olha para o lado errado da rua antes de atravessar (ela se esquece que em Londres o trânsito flui pela mão oposta), a câmera se volta para a reação de Dan, que esboça uma expressão de susto. Uma tomara feita por cima, nos mostra Alice, que fora atropelada por um táxi, caída no meio da rua. Dan a socorre e tudo que ela consegue dizer é: “Olá estranho”. Ele a leva para o hospital e ali se inicia um relacionamento.


Um corte, um avanço no tempo, e somos levados para o estúdio de Anna Cameron (Julia Roberts), ela está fotografando Dan, que está prestes a lançar um livro, cuja a personagem principal é inspirada em Alice. Dan se sente atraído pela fotógrafa e eles se beijam, ele não consegue conter o que está sentindo. Anna se recusa a se envolver com Dan, para se vingar, ele entra em um chat de encontros sexuais usando o nome dela. Se passando pela fotógrafa, Dan seduz e marca um encontro com o dermatologista Larry Gray (Clive Owen). Larry e Anna se encontram e ela não entende nada quando ele se apresenta como o “Sultão”, desfeito o mal entendido eles descobrem algumas afinidades e ali se inicia um outro relacionamento.


Achei interessante descrever a trivialidade que marca o início do envolvimento entre os personagens, pois ela marca não só o nascimento mais todo o processo de construção das relações entre eles. Closer é quase um raio x dos relacionamentos pós-modernos, pois ilustra perfeitamente a efemeridade e a fragilidade dos laços que são criados. O que fica evidente é que cada um dos personagens quer apenas se sentir o agente dominante na relação e quando perdem o controle total que almejam, perdem também o sentido que embasa a continuidade do envolvimento. Eles também manisfestam em si a compulsividade do indivíduo contemporâneo na busca ávida por sensações e impressões, que vêem substituir o compromisso inerente à construção de um relacionamento duradouro.


Definitivamente Closer não é um filme “de amor”, esta obra magnífica vai muito além de qualquer historinha água com açúcar com final feliz. A densidade desta obra, em seus diálogos e reviravoltas, renderia ótimas análises sobre cada um temas que o longa aborda em seu roteiro, mas não pretendo adentrar em nenhuma delas, afinal este artigo se trata apenas de uma breve análise crítica da obra. Cada um dos atores que compõem o elenco estão magníficos em seus respectivos papéis. Natalie Portman foi, na ocasião do lançamento, a grande surpresa, ela está excelente em um papel bastante difícil, ainda considero uma injustiça ela não ter ganho o Oscar a que foi indicada. A trilha sonora do filme também faz jus à densidade da trama e inclui as canções Samba da Benção, Mais Feliz e Tanto Tempo, interpretadas por Bebel Gilberto. Closer é uma obra prima, que pode provocar as mais diversas reações e que, sem sombras de dúvidas, merece ser assistida. Recomendo!

Closer foi indicado aos Oscars de Melhor Ator Coadjuvante (Clive Owen) e Atriz Coadjuvante (Natalie Portman). Ganhou o Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante (Clive Owen) e Atriz Coadjuvante (Natalie Portman), tendo sido indicado a este prêmio também nas categorias de Melhor Filme, Direção e Roteiro.


Assistam ao trailer de Closer - Perto Demais no You Tube, clique AQUI !

Confiram também, aqui no SUBLIME IRREALIDADE, a resenha de
primeiro filme dirigido por Mike Nichols.

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sábado, 25 de junho de 2011

Singles - Vida de Solteiro

Singles – Vida de Solteiro (Singles) - 1992. Dirigido e escrito por Cameron Crowe. Direção de Fotografia de Tak Fujimoto e Ueli Steiger. Música Original de Paul Westerberg. Produzido por Cameron Crowe e Richard Hashimoto. Warner Bros. Pictures / EUA.


Singles – Vida de Solteiro (1992) conseguiu a façanha de ser um daqueles filmes que acabam associados à uma época e à determinada manifestação cultural. No caso deste, que foi o segundo longa de Cameron Crowe, a época é o início dos anos 90 e o contexto é o da explosão da cena grunge em Seatle. O hype que trouxe visibilidade para bandas como Nirvana, Alice in Chains, Pearl Jan e Soundgarden, não chega a ser, na minha opinião, um sub-estilo de rock. O grunge, como movimento, foi mais uma cena local do que qualquer outra coisa criada a posteriori pela indústria cultural. Singles foi bem sucedido ao não se ater a conceitos que fossem além da ebulição musical que a cidade americana passava naquele período. 

O roteiro do filme tem como foco principal os relacionamentos de dois jovens casais, ambos na faixa de vinte e poucos anos, a história deles é contada tendo como pano de fundo o circuíto de clubes noturnos da cidade, que abriam espaço para as bandas de garagem se apresentarem. A cena Grunge talvez tenha sido uma das primeiras e mais contundentes antíteses da geração X. A juventude mostrada no filme é aquela que vive de sub-empregos, que está incerta quanto ao próprio futuro e aos rumos da sociedade e que compensa a falta de ideologias com o barulho do rock alternativo. Diferente de outros movimentos que o antecederam e o influenciaram, o hype grunge não recorreu à politização ou ao engajamento, se mostrando mais como uma expressão simples e brutal de jovens que estavam desiludidos e entediados.


Em Singles, Linda Powell (Kyra Sedgwick) é uma garota que acabou de sair de um namoro curto e traumatizante, ela é idealista e sofisticada, sua promessa de não se envolver de novo com alguém tão cedo é quebrada quando ela conhece Steve Dunne (Campbell Scott), um rapaz que trabalha em uma empresa de controle de tráfego, ele não é do tipo que curte os “jogos” amorosos e dentre os personagens é o único que cogita abandonar a vida de solteiro. Janet Livermore (Bridget Fonda) é a namoradinha de Cliff Poncier (Matt Dillon), o vocalista da banda Citizen Dick, ela passa o tempo todo tentando atrair a atenção dele para si, mas ele só pensa em sua banda e enxerga o namoro como um relacionamento aberto.


Analisando os dois casais percebemos que o primeiro é quase uma oposição do segundo, Linda e Steve estão completamente deslocados na geração da qual fazem parte, enquanto Janet e Cliff são a personificação dos jovens daquela época À medida que a trama vai se desenrolando vamos percebendo que eles são mais parecidos do que imaginávamos e que por trás das aparências e dos modos embrutecidos, no caso de Cliff, eles nutrem o mesmo desejo de abandonarem a inconsequência e o desapego da vida que levam no conjunto de apartamento de solteiros onde moram, eles apenas não sabem lidar bem com isso, ainda.


O mais legal do filme, além da trilha sonora, são as referências à cultura underground de Seatle dos início dos anos 90. O figurino do personagem de Matt Dillon, por exemplo, foi composto basicamente por peças do guarda-roupas de Jeff Ament, baixista do Pearl Jan. O nome da banda fictícia do filme, Citizen Dick é uma referência à banda Citizen Sane, cujo o nome é uma paródia de Citizen Kane (Cidadão Kane). No longa podemos ver breves apresentações do Soundgardem e do Alice in Chains, ambas no início da carreira, em um dos clubes da cidade. O filme também tem uma curta cena gravada no túmulo de Jimi Hendrix. Outra curiosidade sobre Singles é que o filme poderia ter virado uma série de TV, o que foi recusado por Cameron Crowe, a ideia no entanto não foi abandonada, o seriado inspirado no filme seria lançado com o nome de Friends, o que já é história para, quem sabe, um outro post.


Em alguns momentos, bem no início, cheguei a pensar que o filme fosse me decepcionar, mas a história foi me cativando aos poucos, até que eu chegasse à conclusão de que Singles se trata, na verdade, de uma das comédias românticas mais legais dos anos 90. Embora a trama tenha injustamente ficado em segundo plano, devido ao sucesso da trilha sonora, o longa vale muito a pena e merece ser conferido, mesmo por quem não goste de nada da cena musical de Seatle. Para a garotada de camisa de flanela, que ainda insiste que grunge é um estilo musical e que o Nirvana salvou o rock, o filme sempre será obrigatório e um verdadeiro deleite. Recomendo!


Assistam ao trailer de Singles - Vida de Solteiro no You Tube, clique AQUI !

De Cameron Crowe, recomendo também: Vanilla Sky (2001), Quase Famosos (2000) e Jerry Maguire - A Grande Virada (1996).


sexta-feira, 24 de junho de 2011

Encontros e Desencontros

Encontros e Desencontros (Lost in Translation) - 2003. Dirigido e escrito por Sofia Coppola. Direção de Fotografia de Lance Acord. Música de Kevin Shields. Produzido por Sofia Coppola e Ross Katz. Focus Features – Universal / EUA | Japão.


Hoje, antes de começar a assistir ao Encontros e Desencontros (2003), estava refletindo, tentando entender porquê eu me identifico tanto com o que já vi da curta filmografia de Sofia Coppola. Poderia ser por causa da bela estética, das excelentes trilhas sonoras ou pelos roteiros muito bem escritos. Mas cheguei à conclusão de que tem algo a mais, existe em seus filmes um espécie de áurea que me remete a diversas coisas além daquilo que está sendo mostrado. Confesso que não consigo explicar bem tal fenômeno, mas desde que assisti Encontros e Desencontros pela primeira vez, senti que o filme estava de alguma forma falando de minha vida, não de minha vida pessoal, mas de minha vida em uma sociedade que dificilmente consegue se compreender e se comunicar.

Os filmes de Sofia não são tão fáceis de cair no gosto popular, ao retratar um cotidiano vazio e tedioso, o filme pode acabar taxado de chato. O ritmo lento e a falta de clímax é quase uma marca de seus longas, que geralmente mergulham na melancolia e no negativismo, aspectos característicos da sociedade pós-moderna. A inadaptação dos personagens em suas respectivas realidades se tornou o tema mais recorrente na obra da cineasta, o que já era perceptível desde seu primeiro longa, As Virgens Suicidas (1999)Encontros e Desencontros e Maria Antonieta (2006) seguiram o mesmo caminho e ao que parece, Um Lugar Qualquer (2010), que ainda não assisti, também.


Sofia Coppola foi elogiada pela crítica desde seu primeiro filme, compensando sua frustrada carreira de atriz, mas foi com Encontros e Desencontros que veio o respeito como uma realizadora madura, criativa e com o diferencial de não estar dirigindo, ou escrevendo para o grande público. No ano passado, na ocasião do lançamento de seu filme mais recente, Sofia chegou a ser acusada de falta de criatividade por voltar mais uma vez no mesmo tema que a teria consagrado. Reconheço que Maria Antonieta, apesar de ser bem legal, está bem aquém de seus primeiros trabalhos, o que poderia ser o indicativo de que o seu impeto criativo estivesse se esgotando, entretanto, não me arrisco a afirmar nada, sem primeiro conferir Um Lugar Qualquer, que dividiu opiniões nas avaliações da crítica especializada.


Independente de qualquer polêmica, atiçada pelos críticos em torno da carreira de Sofia Coppola como diretora, acredito que Encontros e Desencontros se encaixe perfeitamente em qualquer lista onde figure os filmes essenciais e mais importantes da década. Com um roteiro muito bem escrito, uma trilha sonora muito bem escolhida, ótimas tomadas e excelentes atuações, o filme consegue representar o isolamento social do indivíduo contemporâneo, que não consegue se encontrar nos relacionamentos que constrói, nem no convívio diário com pessoas estranhas e tão pouco no trabalho que realiza.


Na trama, Bob Harris (Bill Murray) é um respeitado ator norte-americano que está no Japão, numa viagem a trabalho, ele irá gravar uma comercial e participar de uma sessão fotográfica para a divulgação de uma marca de whisky. Desde a chegada em Tóquio, Bob não consegue se fazer compreendido, a barreira da diferença de idiomas passa a lhe parecer quase intransponível. Charlotte (Scarlett Johansson) é outra americana que não consegue se encontrar na terra do sol nascente, ela está acompanhado o marido, um fotógrafo de celebridades, que também está lá a trabalho. Ela fica sozinha no hotel enquanto ele viaja por várias cidades japonesas. Tanto Bob, quanto Charlotte estão completamente entediados e infelizes e a situação de incomunicabilidade, vivida em um país estranho, acaba sendo apenas uma metáfora do que são suas vidas pessoais.


O casamento de Bob está ruindo e o relacionamento de Charlotte também não está legal, algumas sequências do filme deixa bem claro que não é só no Japão que não conseguem ser escutados. Quase dispensável dizer já na primeira conversa, que acontece no bar do hotel, nasce entre eles um profundo sentimento de empatia, cumplicidade e identificação. O fato de estarem juntos, ameniza a dor provocada pela solidão. O roteiro foi muito bem sucedido em não explorar tanto o relacionamento entre eles, fugindo assim de qualquer clichê que poderia transformar o filme em uma comédia romântica água com açúcar. O fluxo da história transcorre sem grandes reviravoltas até chegar a um desfecho que ainda deixa algo em aberto.


Bill Murray dá um show de interpretação, sua expressão facial parece materializar a angústia existencial e a solidão de seu personagem, isto fica evidente já na primeira sequência do filme, que mostra a chegada de Bob a Tóquio. Scarlett Johansson está belíssima e formidável na pele de Charlotte, ela aos 18 aninhos já prova sua competência e habilidade, ao desempenhar tão bem um papel tão difícil, pela sua complexidade e profundidade da personagem. Encontros e Desencontros, como qualquer outro dos filmes de Sofia Coppola, tende a não agradar a todos já na primeira exibição, pois exige sensibilidade, coisa rara hoje em dia. O que posso dizer, é que o filme me pareceu ainda melhor do que quando o assisti pela primeira vez! Um verdadeiro clássico contemporâneo (na minha opinião)... Recomendo, mas não para todos!


Encontros e Desencontros ganhou o Oscar de Melhor Roteiro, tendo sido indicado também nas categorias de Melhor Filme, Melhor Ator (Bill Murray) e Melhor Diretor. O filme também ganhou o Globo de Ouro de Melhor Roteiro, Melhor Ator em Comédia ou Musical (Bill Murray) e Melhor Filme Comédia ou Musical, tendo recebido também uma indicação de Melhor Diretor.


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quinta-feira, 23 de junho de 2011

O Último Imperador

O Último Imperador (The Last Emperor) - 1987. Dirigido por Bernardo Bertolucci. Escrito por Mark Peploe / Bernardo Bertolucci, baseado no livro autobiográfico de Aisin-Gioro Pu Yi. Direção de Fotografia de Vittorio Storaro. Música de David Byrne, Ryûichi Sakamoto e Cong Su. Produzido por Jeremy Thomas. Columbia Pictures / UK|Itália|França|China.

O Último Imperador (1987) pode ser considerado, na minha opinião, a obra mais “acessível” de Bernardo Bertolucci e isso explica em parte o sucesso de público e crítica deste grandioso épico. Na trama o cineasta pincela alguns dos temas que também estavam presentes no roteiro de alguns de seus clássicos, como O Conformista e O Último Tango em Paris. A politização e o erotismo (desta vez mais velado) estão presentes na obra, que assim como nos dois outros filmes citados, parte da visão de indivíduos e dos microcosmos habitados por eles para retratar a realidade social na qual estão inseridos. Se a beleza estética já era estonteante em seus primeiros filmes, neste, que contou com grande apoio de uma grande produtora, não podia ser diferente. Bertolucci corria o risco de fazer um filme nos moldes do cinema mainstream e assim acabar perdendo qualidade no roteiro, mas felizmente isso não aconteceu, sob a batuta deste verdeiro gênio, tal tipo de risco se tornou quase nulo.

O Último Imperador conta a história de Aisin-Gioro Pu Yi, o último representante da dinastia Qing, coroado aos 3 anos de idade, em 1908 na China. Pu Yi conservou o título de imperador mesmo depois da proclamação da república no país, ele continuou reinando, mas só do lado de dentro da Cidade Proibida, uma grande fortaleza situada no centro de Pequim, que o servia de palácio. A Cidade Proibida funcionava como uma espécie de prisão de luxo, onde o menino imperador era cuidado e mimado, porém sem o mínimo de liberdade. Em 1917 houve uma tentativa de reedificar a monarquia e então Pu Yi foi novamente colocado no trono, até que em 1924 as tropas do partido Kuomintang ocuparam Pequim e tomaram o controle da Cidade Proibida, expulsando o imperador seus servos.


Desde que foi expulso de seu palácio, Pu Yi contou com o apoio da embaixada japonesa e do imperador daquele país. Em 1931, o Japão invadiu a região da Manchúria, ao norte da China e Pu Yi foi novamente nomeado imperador em 1934. Durante 11 anos ele reinou mas não governou, ficando conhecido como o imperador-fantoche dos japoneses. Com o fim da segunda guerra mundial, a manchúria foi reanexada ao território chinês e Pu Yi foi capturado e deportado pelos soviéticos que invadiram o país. Em 1949 ele foi entregue aos comunistas, que haviam tomado o poder na China naquele ano, foi então acusado de crime de guerra e internado em um campo de reeducação política e ideológica, onde permaneceu 10 anos, até que o regime o considerasse “convertido” e apto a voltar a viver em liberdade. Pu Yi foi libertado em 1959 e se tornou jardineiro, passando a levar uma vida comum em Pequim. Já no fim de sua vida, ele foi encorajado a escrever uma autobiografia, que inspiraria o filme de Bertolucci.


O cineasta italiano foi o primeiro a conseguir autorização da República Popular da China para filmar no interior da Cidade Proibida, o que comprova o prestígio que ele tinha entre os comunistas. O Último Imperador se tornaria um ícone do contexto histórico no qual foi produzido, o do fim da guerra fria e da revisão da bipolaridade do mundo político. A simpatia de Bertolucci pelo comunismo é claramente perceptível em suas obras, seus melhores filmes podem ser vistos como odes á ideologia libertária e ao engajamento político do homem comum. No entanto neste filme fica claro que sua posição não vem de uma postura cega, o cineasta direciona o foco da trama para a falta de autonomia e manipulação do imperador, que ora é mostrado como vítima, ora como produto dos sistemas políticos que se sucedem no poder na China. Eu entendo tal angulação como uma forma de defesa da liberdade antes de qualquer outra coisa, liberdade esta que deveria se sobrepor a qualquer instituição política ou ideológica. Pu Yi consegue sobreviver a cada alternância de poder, mas sem experimentar uma real liberdade.


O Último Imperador não é na minha opinião o melhor, nem o mais clássico dentre os trabalhos de Bertolucci, mas sem sombra de dúvidas é um ótimo filme que merece ser assistido. Cada um dos atores, mesmo as crianças, estão realmente convincentes em seus respectivos personagens, o que confere uma maior credibilidade à trama, que é tida como altamente fiel á história real que a inspirou. A parte técnica do filme realmente merece aplausos de pé, o belíssimo conjunto formado pela direção de arte, fotografia, edição e figurino conferem ao filme o status de obra de arte, o que não é nenhuma novidade em se tratatando de um filme de Bertolucci. Apesar de parecer um pouco demorado demais, o longa vale por cada um de seus 160 minutos (existe um versão estendida com 218 minutos), ele vai muito além do mero entretenimento. É um filme para ser refletido e apreciado em cada um de seus detalhes. Altamente indicado!


O Último Imperador ganhou cada um dos Oscars para os quais foi indicado, nove no total. O longa recebeu a estatueta de: Melhor Filme, Diretor, Fotografia, Direção de Arte, Figurino, Edição, Trilha Sonora, Edição de Som e Roteiro Adaptado.


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Confiram também, aqui no SUBLIME IRREALIDADE, as resenhas de
dois clássicos absolutos de Bernardo Bertolucci!

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quarta-feira, 22 de junho de 2011

Dudu Lima e Emerson Nogueira no ViJazz & Blues

.Bom show, mas com um gosto amargo de quero mais!.


O vacilo de não ter percebido um simples detalhe e quase que um evento, que tudo para ser ótimo, se torna uma grande decepção. No último domingo (17/06) acordei cedo e peguei o ônibus para Viçosa, naquela manhã a minha expectativa era das melhores possíveis, afinal eu tinha passado boa parte da semana anterior ansiando pelo show do Emerson Nogueira, que aconteceria naquela tarde. Durante a viagem fui lembrando de alguns dos clássicos do rock´n´roll que estão no repertório daquele talentoso cantor e violonista... Eu nunca fui de render aplausos para covers, mas a playlist do cara é simplesmente formidável, ele fez fama tocando Beatles, Creedence, Pink Floyd, Police, Eagles, Surpertram e outros clássicos absolutos dos anos 60, 70 e 80.

O detalhe que me havia passado despercebido era quase banal e veio à tona quando, na casa de uma amiga em Viçosa, fiquei sabendo que o tal show nem estava na agenda do Nogueira. “Como assim?!?” Era verdade, aquilo que tinha me levado à Viçosa naquele domingo não era um show, mas apenas uma participação do cantor na apresentação do músico Dudu Lima, um virtuose do contrabaixo, que já tocou com Milton Nascimento, Stanley Jordan e outras feras. Antes do show começar a minha expectativa, que era até então das melhores, foi mudando e se convertendo em uma incômoda dúvida: “Como será esta tal participação?


Dudu Lima subiu no palco depois de mais de duas horas de atraso, mas para o delírio de quem gosta de boa música, ele mostrou que a espera tinha valido a pena. Com influências que vão da música mineira ao jazz, ele provou que o contra-baixo não é apenas um mero instrumento “tapa-buracos”. Depois de umas quatro cancões interpretadas apenas com baixo, bateria e teclado, ele convidou o Emerson Nogueira para lhe acompanhar. O cantor, meio sem jeito pela falta do já tradicional banquinho, contou que estava gripado, o que se notava pela sua voz rouca. No entanto a rouquidão desapareceu como em um passe de mágica no momento em que ele começou a cantar a primeira música.  

Quem conhece o Recanto das Cigarras, que fica dentro campus da UFV, entendo porque tão poucos eventos são realizados no local hoje em dia. O espaço cercado pelo verde da natureza já foi muitas vezes alvo de vandalismo. Durante festas e shows que aconteciam lá, as dependências da universidade eram depredadas e o espaço aos poucos destruído. Hoje o Recanto se encontra revitalizado e muito bem cuidado, trazendo uma confortante sensação de paz e calmaria, principalmente para quem, como eu naquela tarde, o visitava pela primeira vez. O contato com a natureza potencializou o efeito do show, foi indescritível a sensação de escutar uma versão de Pink Floyd, por exemplo, em um lugar tão agradável.


O evento só não foi perfeito, pois enquanto eu imaginava que o show estava apenas começando, o Emerson anunciava que aquela já seria a última música. Sua participação se resumiu a cinco ou seis canções, totalizando umas dez, se contarmos com as que Dudu Lima tocara antes. Ficou um amargo gostinho de quero mais e a vontade de que o anúncio feito pelo Nogueira, de que Viçosa receberá um show completo em breve, seja de fato verdade, se for, torço para que seja novamente no Recanto das Cigarras

P.S. O Show de Dudu Lima e Emerson Nogueira fez parte da edição 2011 do festival ViJazz & Blues, que aconteceu no dia 16 de junho em Ponte Nova/MG e do dia 17 ao dia 19 em Viçosa/MG.

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sábado, 18 de junho de 2011

Alta Fidelidade

Alta Fidelidade (High Fidelity) - 2000. Dirigido por Stephen Frears. Escrito por D.V. DeVincentis, Steve Pink, John Cusack e Scott Rosenberg, baseado na obra de Nick Hornby. Direção de Fotografia de Seamus McGarvey. Música de Howard Shore. Produzido por Tim Bevan, D.V. De Vincentis e Rudd Simmons. Touchstone Pictures / EUA.
 
A comédia romântica Alta Fidelidade (2000) parece ter se tornado quase um cult dentre os filmes do gênero, além de contar todos os ingredientes característicos, que incluem protagonistas cativantes e coadjuvantes engraçadinhos, esta produção se destaca pelos outros elementos que a compõem. Antes de qualquer outra coisa, o filme é um verdadeiro elogio ao mundo da música. Só quem sabe o que é ter acontecimentos e fases da vida marcados por determinada música, poderá compreender e se deliciar com este longa. A música Pop é quase uma personagem na trama que, como na maioria das comédias românticas, gira em torno das desventuras e desilusões amorosas do personagem principal. O diferencial neste caso acabam sendo o roteiro, muito bem escrito, e as atuações, principalmente a de John Cusack.

O que veio primeiro? A música ou a miséria? As pessoas se preocupam com crianças brincando com armas, vendo vídeos violentos, como se a cultura da violência fosse consumi-las. Mas ninguém se preocupa se escutam milhares de canções sobre sofrimentos, rejeição, dor, miséria e perda. Eu ouvia música pop porque era infeliz ? Ou era infeliz porque ouvia música pop ?” Rob Gordon, personagem de Cusack, abre o filme com esta fala, nesta sequência ele conversa diretamente com a câmera e em um tom quase confessional ele nos convida a mergulhar em cinco de seus casos amorosos, aqueles que mais o marcaram e lhe imprimiram o estigma da rejeição.


Rob foi abandonado pela atual namorada, Laura (Iben Hjejle), que parecia já estar cansada da inércia de sua vida, machucado pelo término “repentino” ele decide revisitar casos antigos em busca de explicações para as rejeições e as traições das quais foi vítima. Conhecendo suas antigas namoradas, conhecemos um pouco mais de Rob e ele, como personagem, vai se tornando ainda mais cativante até o final do filme. Ele, que é uma enciclopédia ambulante de música pop, é o dono de uma loja de discos de vinil, que parece estar a beira da falência. No elenco secundário estão, além de suas ex-namoradas, os dois funcionários voluntários da loja, o fanático Barry (Jack Black, outra grande atuação no filme) e o esquisito Dick (Todd Louiso).


Outro detalhe legal do filme, são os Top Fives que Rob, Barry e Dick vivem elaborando, 5 músicas para tocar no dia de sua morte, as 5 melhores do Lado B, 5 melhores profissões e por ai vai... Em alguns momentos dá até vontade de entrar no filme e nas discussões dos personagens sobre o fantástico universo da música. O roteiro também nos presenteia com algumas situações hilárias, como na sequência em Barry se recusa a vender um determinado disco para um cliente, ou em outra, na qual o atual namorado de Laura vai até a loja para tirar satisfações com Rob.


Na trilha sonora estão grandes nomes do Rock e do Pop, mainstrean e independente, dentre eles The Velvet Underground, Belle and Sebastian, Bob Dylan, Queen, Stevie Wonder e até Stiff Little Fingers. Ao assistir ao filme preste atenção também nas participações de Catherine Zeta-Jones, como Charlie, uma das Ex de Rob, de Tim Robbins, como o vizinho do andar de cima de Rob, o estranho Ian 'Ray' Raymond, e de Bruce Springsteen, como ele mesmo. Curiosidade: se prestar um pouquinho de atenção você perceberá o disco Tropicália (Panis et Circencis), que aparece numa das prateleiras da loja no início do filme. Alta Fidelidade não é um filme que entraria facilmente em um de meus Top Fives, mas com certeza é um ótima dica, principalmente pra quem curte uma comédia romântica, com um ótimo roteiro e tiradas inteligentes.

Alta Fidelidade foi indicado ao Globo de Ouro na categoria de Melhor Ator em Comédia/Musical (John Cusack).


Assista ao trailer de Alta Fidelidade no You Tube, clique AQUI !

Confiram também, aqui no SUBLIME IRREALIDADE, a resenha do filme 
também dirigido por Stephen Frears!

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segunda-feira, 13 de junho de 2011

La Iguana Rock Fest

.Sinais de Vida no Underground.


Desde a última edição do Ubá Rock, que aconteceu 23 de outubro do ano passado, que eu não ia em um festival do tipo, não posso esconder o fato de que eu tenho estado bem distanciado da cena nos últimos tempos, mas a verdade é que os “swowzinhos” são bem mais raros hoje em dia. Tem se tornado mais comuns as apresentações individuais de bandas em barzinhos e outros tipos de evento, o que acredito que se deve às dificuldades de se organizar um evento desses aqui na cidade. Temos as leis que regulam a entrada de menores, que estão bem mais rigorozas, temos a difuldade de conseguir apoio, de encontrar lugares que abram as portas para eventos do tipo e tem a séria questão do ego das bandas, que já gerou muitos problemas no passado. Neste contexto, o sucesso do La Iguana Rock Fest pode ser considerado um verdadeiro feito para a cena, o festival foi muito bem organizado, o som esteve legal na maior parte do tempo, não houve demora excessiva entre as bandas e a galera colaborou.
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Quando cheguei na Babilônia, local onde o evento foi realizado, a primeira banda já estava tocando. Era o The Horríveis e aquela era a primeira vez que eu os via ao vivo. Matei a curiosidade que tinha desde que as banda começou a tocar e a receber grandes elogios nas redes sociais. A banda mostrou um repertório bem eclético, que foi do Rock Nacional Oitentista ao Punk passando pelo Hard Rock e pelo Rock´n´Roll. O The Horríveis voltou àquelas que são as influências seminais e referências básicas de quem começa a escutar um som de qualidade, isso em qualquer outra situação poderia ser visto como falta de personalidade artística, mas não é este o caso, a banda sabe o que está fazendo e tragetória dos integrantes na cena mais uma vez é foi um grande peso a favor.

The Horríveis

A segunda banda a subir no palco foi o Macwaine, outra banda de Ubá que eu ainda não tinha visto ao vivo. Desde a primeira música já deu para perceber que os caras não estavam de brincadeira, a sonzeira da banda remonta aos clássicos dos anos 60 e 70, com influencias de Rock,n´Roll, Rhythm and Blues e Hard Rock. O repertório foi composto de músicas próprias e covers, dentre eles Hendrix, Stones, Guns e Dire Straits. O destaque, além do ótimo instrumental, é a proposta da banda de enveredar por um caminho pouco explorado por bandas da cidade. A decisão de não ser apenas mais do mesmo, acredito eu, vai contar muito para o futuro da banda.

Macwayne

Na sequencia veio o Sexta-Feira 13 com seu Rock´n´Roll cafageste. A banda fez um bom show com músicas próprias que deverão estar em seu 1° CD, Baseado em Fatos Reais, e covers. Continuo acreditando que a banda é uma grande promessa para a cena local, mas senti um pouco a falta da postura de palco irreverente da banda, o que pra mim é uma de suas melhores qualidades. Acredito também que se o repertório tivesse sido escalado de uma forma um pouco diferente, o show e a reação da galera teria sido ainda melhor. Faltou um pouco de feeling na hora de definir a ordem das músicas executadas (que acredito que deva variar um pouco de acordo com o lugar onde a banda se apresenta), o que passou, para alguns, a ideia talvez errônia de que as músicas são todas iguais. Mas a ordem do repertório foi só um detalhe, a banda continua muito bem sucedida em sua proposta de fazer um som visceral e descompromissado com rótulos e outras frescuragens.

Sexta-Feira 13

Mal deu tempo de me refazer da agitação do Sexta-Feira 13 e o Fliperama, de Juiz de Fora, já estava no palco. Como o próprio nome da banda sugere, eles buscam referências sonoras nos ruidosos anos 90, ótimas referências por sinal. Ficou claro que a maior influência da banda é o Red Hot Chili Peppers, perceptível até pelo visual a la Antonie Kiedis do vocalista. Naquela que talvez tenha sido a melhor apresentação da noite, a banda fez a galera agitar com clássicos da melhor fase do Red Hot e outros covers de Rage Against the Machine, Peal Jam, Foo Fighters, Nirvana e Raimundos. Destaque para o ótimo instrumental e para o vocal, que não deixaram nada a desejar em nenhuma dos músicas do set list..

Fliperama

Depois do show do Fliperama eu já tinha a certeza de que a noite e o ingresso já tinham valido a pena, mas ainda tinha mais, o festival ainda estava na metade. A quinta banda a se apresentar foi o Hard Desire, também de Juiz de Fora. Não sei explicar o porquê, mas desde sempre as bandas de heave metal tradicional, geralmente funcionam pra mim como um “chill out” nos festivais. A banda mostrou um grande entrosamente e um instrumental preciso, mas a verdade é que eles só conseguiram me empolgar nos covers do Black Sabbath e do Dio. Acredito que o que me incomoda é a surperficialida da postura poser, sou daqueles que ainda acredita que o Heave Metal tem que ser pesado, cru e sem frescuras. Apesar de não ser o estilo que me agrada, a banda mostrou um repertório próprio com nível de qualidade musical, que tem visíveis influências da NWOBHM.

Hard Desire

A próxima banda foi o Metheora, de Santos Dumont, moderninhos eles tentaram buscar influências não nos clássicos, mas em bandas ditas “pesadas”, mas que têm forte apelo radiofônico. O estilo explorado é um misto de Evanescense e Metal Alternativo, o instrumental da banda não é ruim, mas o vocal deixou muito a desejar. Não senti em nenhuma das músicas empolgação ou entrega em nenhum dos integrantes. A performance quase teatral da vocalista não condiz com sua empostação vocálica, sobra caretas e expressão corporal diante uma cantarola pouco empolgada. A gota dágua foi um cover do Nirvana, mais deslocado impossível. Minha empolgação foi-se embora, levada pelo repertória da banda. Simplemente já não tinha mais forças para continuar a maratona e decidi voltar pra casa. Ainda me arrependo de não ter ficado para ver o Rawborne, cujo show no Ubá Rock, no ano passado, foi muio bom, e o Black Butterffly, banda que eu estava realmente muito curioso para assistir.

Metheora

Sinceramente espero que o evento tenha dado o restorno esperado pelos organizadores e que o sucesso desta edição sirva de incetivo para a realização de muitas outras. E quem sabe o Babilônia passe a ser a nova casa da galera underground? Mais uma vez, me vem a esperança que bons e novos tempos se aproximam para a nossa cena. Continuo apenas observando de longe, na certeza de que, por mais tortuoso que pareça, este é o caminho certo! Rock´n´Roll can never die!!!
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Uma Garota Dividida em Dois

Uma Garota Dividida em Dois (La Fille coupée en deux) - 2007. Dirigido por Claude Chabrol. Roteiro de Cécile Maistre e Claude Chabrol. Direção de Fotografia de Eduardo Serra. Música de Matthieu Chabrol. Produzido por Patrick Godeau. Alicéléo / França | Alemanha.


Claude Chabrol é um dos nomes seminais da Nouvelle Vague Francesa, ele foi um dos primeiros colaboradores da lendária revista Cahiers du Cinéma, periódico que publicou também artigos de François Truffaut, Jacques Rivette e Jean-Luc Godard. Chabrol tal como seus colegas se engajou na defesa do cinema autoral, que insurgia como contraponto ao cinema dito “de produtoras”. Um das características mais marcantes do cineasta foi o humor negro, que ele frequentemente usava como elemento de construção de suas sátiras da burguesia francesa. Ele desenvolveu um olhar perspicaz sobre os vícios, a hipocrisia e a baixeza do comportamento burgues, um olhar que criticava o conformismo sem perder o senso de humor.


Uma Garota Dividida em Dois (2007) foi o último filme de Claude Chabrol, que morreu em 12 de setembro de 2010. Neste longa ainda estão perceptíveis alguns dos temas que marcaram sua trajetória como cineasta: a satirização dos costumes e da pompa da burguesia e o questionamento de tabus e valores, que variam conforme o meio e a classe social. A trama foi inspirada na história real do arquiteto nova-iorquino Stanford White, morto em 1906, as situações e os personagens são alterados e a narrativa é transportada para Paris dos dias de hoje. A história gira em torno do triangulo amoroso, que tem em uma das pontas Gabrielle (Ludivine Sagnier), uma bela garota do tempo de um jornal de TV a cabo, em outra Paul Gaudens (Benoît Magimel), um jovem playboy, herdeiro de uma grande fortuna e na terceira Charles Saint-Denis (François Berléand) um renomado escritor de meia idade.



Gabrielle está dividida entre os dois e tudo que eles passam a representar em sua vida, que passa também por transformações intensas na área profissional. Paul e Charles no entanto não poderiam ser mais diferentes, um é a materialização do antagonismo do outro. Enquanto Paul representa a segurança de uma vida familiar estável dentro dos padrões sociais, Charles representa o oposto disso tudo, ele a conquista é pela inconstância e pela antítese de seu comportamento, que ela enxerga como indicativo de experiência de vida. O escritor está frequentemente cercado por mulheres lindas, dentre elas Capucine (Mathilda May), sua editora e assessora de comunicação e sua esposa, a quem ele chama de “santa”, pelo comportamento recessivo dela diante de suas constantes traições.


Gabrielle estava vivendo uma louca paixão por Charles, até ser colocada pra escanteio, ao se cansar do caso que estava vivendo com ela, ele, sem dar explicações, apenas troca a fechadura do apartamento de solteiro onde eles se encontravam no centro de Paris. Ela inconsolada com o término repentino da relação, se deixa seduzir por Paul, com quem parte em uma viagem para Portugal, lá ela acaba aceitando seu pedido de casamento, como uma forma de tentar silenciar aquilo que ainda sentia por Charles. Ao vermos a forma com que os três personagens se deixam dominar pelas suas paixões e as tentativas de Gabrielle, de se adaptar a um mundo com o qual não se identifica e a vida conjugal com alguém que não ama, percebemos que a história caminha para um final trágico, que vai sendo desenhado sutilmente, com uma imensa naturalidade, pelo roteiro.


Ao contrário do que alguns críticos afirmam, eu não creio que o filme seja uma afirmação das opiniões ou do estilo de vida de algum dos personagens, ele funciona mais uma observação à distância de um mundo de hipocrisia e aparências, do que como uma ferramenta moralizante ou desmoralizante. O filme não é nenhuma obra prima, nas atuações não tem nada de tão espetacular e alguns cortes abruptos que surgem nos momentos mais improváveis são um tanto estranhos. Mas ainda assim o filme vale a pena, principalmente por não ser dramalhão e por não descambar no romantismo pedante. Curioso o fato de eu tê-lo assistido justamente no dia dos namorados, pois tal como o ótimo Closer (2004), de Mike Nichols, este retrata os relacionamentos como eles são de verdade, na maioria das vezes, sem magia, sem romantismo e sem glória no final.


Assista ao trailer de Uma Garota Dividida em Dois no You Tube, clique AQUI !


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