segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Onze Homens e Um Segredo

Onze Homens e Um Segredo (Ocean's Eleven) - 2001. Dirigido por Steven Soderbergh. Escrito por Ted Griffin (baseado no roteiro da versão original escrito por George Clayton Johnson, Jack Golden Russell, Harry Brown e Charles Lederer). Direção de Fotografia de Steven Soderbergh (creditado como Peter Andrews). Música Original de David Holmes. Produzido por Jerry Weintraub. Warner Bros. Pictures / EUA.

 

Geralmente quando se trata de remakes o negócio é apenas faturar, a reciclagem de uma obra que fizera sucesso no passado é uma boa aposta para produtores receosos de investir em novidades. Todo ano estréia uma quantidade enorme de refilmagens, mas pouquíssimas delas chegam a ter alguma relevância quando comparadas à versão que as originaram. Ainda não assisti Onze Homens e Um Segredo (1960) de Lewis Milestone, portanto não posso comparar, ao menos neste caso, a adaptação ao original, contudo tenho que reconhecer que a refilmagem dirigida por Steven Soderbergh é no mínimo um grande filme. O segredo do sucesso e da qualidade do filme de 2001 pode estar na gênese da produção, pois ao contrário de outros remakes que partem da iniciativa de produtores ambiciosos, este se desenvolveu a partir de uma ideia do ator George Clooney, que abraçou o projeto abrindo mão do próprio salário e juntou um ótimo time de atores que fizeram o mesmo.

A direção desta nova versão ficaria por conta de Steven Soderbergh, parceiro de Clooney na produtora Section Eight. Por estar sendo movida pela paixão de seus realizadores e não apenas pela previsão de lucros, a produção foi iniciada com o pé direito, ela já era então muito mais que um mero caça níquel. O resultado final foi excelente, tanto que rendeu outras duas continuações, o grande time de atores estava em plena forma e perfeitamente entrosado, o roteiro, muito bem escrito, conferiu ao filme um bom ritmo, com ação, toques de humor e algumas reviravoltas. A trilha sonora, que resgatou alguns clássicos presentes na versão original, é ótima e também colabora com ritmo do filme, dando a ele um toque pop e ao mesmo tempo clássico. E por falar em clássico, vale destacar a direção de arte e os figurinos, que em determinadas passagem nos remete à classe de algumas produções da era de ouro de Hollywood.

 

Mas não se deixe enganar, Onze Homens e Um Segredo é um filme pipoca, um bom filme pipoca, porém ele não sai imune das características deste tipo de produção, apesar da quantidade de atores e da aparente complexidade, o roteiro é simples e de fácil compreensão. Apesar de ter anti-heróis como protagonistas, o filme não escapa do convencionalismo, afinal isso por si só não é nenhuma novidade desde os anos 60. Ao não explorar situações ambíguas, nem personagens detentores de significativa profundidade, o longa se torna não muito mais que uma boa opção de diversão, mas é ai que está o seu diferencial, apesar de sua proposta ser apenas o entretenimento, o filme conta, como eu já disse, com grandes atuações e uma boa parte técnica, o que não é nenhum pouco comum em filmes do gênero.

 

No centro da história de Onze Homens e Um Segredo está Danny Ocean (George Clooney), ele é uma espécie de criminoso profissional, que acabara de cumprir quatro anos de prisão por roubo. Logo que ganha a liberdade, Danny já tem um novo plano, ele pretende roubar em uma mesma noite três cassinos da cidade de Las Vegas, o Bellagio, o Mirage e o MGM Grand, todos pertencentes ao empresário Terry Benedict (Andy Garcia). Para colocar o audacioso plano em prática, ele se encontra com Rusty Ryan (Brad Pitt), um antigo parceiro que estava ganhando a vida trapaceando e dando aulas de poker para jovens atores de Hollywood, juntos ele irão compor o restante do time, que conta também com um jovem criminoso cheio de habilidades (Matt Damon), com um financiador (Elliott Gould), dois irmãos motoristas (Casey Affleck e Scott Caan), um acrobata (Shaobo Qin), um especialista em disfarces (Carl Reiner), um hacker (Eddie Jemison), um crupie (Bernie Mac) e um perito em explosivos (Don Cheadle).

 

O elenco ainda conta com a presença, meio apagada, de Julia Roberts (ela ganha destaque na segunda parte da franquia), seu personagem corrobora o “segredo” presente no título do filme... Não se preocupe, eu vou parando por aqui para não correr o risco de revelar mais detalhes sobre a trama e assim diminuir o gostinho da surpresa que a história nos proporciona. Onze Homens e Um Segredo é indicado tanto para fãs de filmes de ação, quanto para aqueles que valorizam um roteiro bem escrito ou apreciem a desenvoltura de grandes atores em papéis “menores”. Por experiência própria digo que é uma ótima pedida para uma tarde monótona de domingo, sem coisa melhor para fazer e sem clima para encarar uma produção de maior complexidade. Se ainda não assistiu, fica ai a dica e mesmo para quem já o viu, eu garanto, ele continua tão legal como na primeira vez! Recomendo!


Assistam ao trailer de Onze Homens e Um Segredo
no You Tube, clique AQUI !


domingo, 30 de outubro de 2011

O Show de Truman

O Show de Truman (The Truman Show) - 1998. Dirigido por Peter Weir. Escrito por Andrew Niccol. Direção de Fotografia de Peter Biziou. Música Original de Burkhard von Dallwitz. Produzido por Scott Rudin, Andrew Niccol e Adam Schroeder. Paramount Pictures / EUA.

 

“1,7 bilhão de pessoas viram seu nascimento. 220 países ligados em seu primeiro passo. O mundo parou por aquele beijo. E conforme crescia, crescia também a tecnologia. Toda uma vida humana gravada em uma rede de câmeras escondidas e transmitida ao vivo e sem cortes, 24 horas por dia, 7 dias por semana a telespectadores no mundo todo. E agora, da ilha Seahaven, fechado no maior estúdio jamais construído e tal como a grande Muralha da China, uma das estruturas feitas pelo homem visíveis do espaço, faz seu aniversário de 30 anos, é o O Show de Truman”.

Com um argumento no mínimo inusitado, O Show de Truman (1998) consegue ser ao mesmo tempo divertido, engraçado, inteligente e instigante. Não é atoa que ele é, até hoje, o meu favorito dentre os protagonizados por Jim Carrey. Entretanto, nem todos os amigos, para quem o indiquei nos últimos anos, compartilham esta minha opinião sobre a obra, alguns o classificaram como chato, outros disseram apenas que ele era "fraco". Para quem está acostumado às comédias mais simplistas estreladas pelo ator, a história deste filme, que provoca mais reflexão do que risos, poderá mesmo causar estranhamento e até mesmo apatia.

O longa conta a história de Truman Burbank (Carrey), o personagem principal de um progama de televisão, cuja sua vida é o espetáculo. O rapaz não tem nem ideia de que tudo à sua volta, incluindo sua família e amigos, são parte de uma realidade criada para comover telespectadores e vender produtos. Truman trabalha em uma companhia de seguros e leva uma vida monótona e rotineira ao lado de sua esposa Meryl (Laura Linney), ele nunca saiu da ilha onde moram, pois desde sua infância ele foi condicionado a temer o mar, viagens de avião e tudo o mais que lhe fosse desconhecido. Mesmo depois de 30 anos no ar, sem interrupções, o programa continuava um sucesso de público no mundo inteiro, porém esta hegemonia é ameaçada quando Truman começa a fazer questionamentos acerca da realidade a sua volta, suas dúvidas são motivadas por uma série de acontecimentos estranhos (erros da produção do programa) que ele começa a perceber em sua vida.

 

O estopim da crise existencial e de identidade que Truman experimenta é o reaparecimento de seu pai, que surge em trages de mendigo na ruas da cidade, este fato potencializa as indagações do rapaz, que presenciara a morte do pai quando ainda era criança. Em meio às reflexões sobre sua realidade, ele se lembra de algo que lhe fora dito por Lauren (Natascha McElhone), uma colega dos tempos de faculdade, ela lhe afirmara que tudo que existe na ilha teria sido feito exclusivamente para ele e nada ali seria de fato real. Truman decide então deixar a cidade e ir à procura da ex-colega, por quem ainda nutria uma ardente paixão. Todos estes acontecimentos são vistos por Christof (Ed Harris), o criador do programa, como uma ameaça ao sucesso e à continuidade do show. A verdade é que não só Truman, mas todos que o assistem e até mesmo os atores contratados e aqueles que trabalham nos bastidores de seu show, têm suas vidas condicionadas e dependentes de tudo aquilo que acontece na bucólica Seahaven.

 

Em uma análise mais ampla, concluo que o sucesso do programa no filme se deva ao simples fato de que as pessoas projetam em Truman aquilo que deveriam estar vivendo em suas próprias realidades. Quando assisti ao filme pela primeira vez, vi isso como uma falha do roteiro, eu questionava como um programa deste tipo permaneceria tanto tempo no ar sem a presença constante de conflitos a serem resolvidos. Só compreendi que não era um erro, quando entendi que esta era a crítica que o filme pretendia fazer. A relação entre a mídia e o telespectador é elevada a um absurdo extremo, situação em que a Teoria Hipodérmica (teoria da manipulação) seria de fato infalível e os receptores manifestariam sem desvios os efeitos esperados pelos emissores das mensagens. Nós, na condição de espectadores do filme, por muito não caímos nesta mesma armadilha, pois somos induzidos a rir e a chorar com as desventuras e peripécias do personagem.

 

Em uma das sequências mais legais do filme, testemunhamos a construção de uma situação dramática através do uso de artifícios como posicionamentos de câmera, trilha sonora e fotografia. Nesta passagem, mesmo sabendo de antemão que se trata de uma situação forjada para emocionar, muitos não se conterão e se emocionarão junto com os espectadores do show. O filme é genial por brincar com estas ferramentas usadas tanto pela televisão quanto pelo cinema e a partir delas tecer sua crítica à influência midiática na vida das pessoas. Tal crítica é feita sutilmente, tanto que os mais desapercebidos não a compreenderão ou provavelmente sequer a notarão no roteiro. O Show de Truman é um filme que se vale de inúmeras alegorias para contar uma história simples e ao mesmo tempo complexa, o longa está cheio de referências à literatura, à filosofia e até à histórias bíblicas. Sou dos que compartilham a ideia de que se não fosse a presença de Jim Carrey no elenco, este seria hoje um filme cult restrito a um pequeno público intelectualizado.

 

Outros aspectos que merecem destaque são a trilha sonora, que é excelente, e a atuação de Jim Carrey, que na minha opinião mostra nas cenas de teor dramático toda a sua versatilidade e amadurecimento como ator, sem deixar de lado, claro, os trejeitos e caretas que já são marca registrada de seus personagens cômicos. O filme ainda tem a seu favor o fato de ter sido produzido antes da invasão dos reality shows, que se tornariam moda pouco tempo depois. Curiosamente a versão original do Big Brother estreou no ano seguinte ao da estreia do filme. O Show de Truman foi profético ao prenunciar não só o sucesso dos reality shows, mas também por prever um tempo em que a vida real seria assustadoramente substituída pela vida midiática, com as ressalvas de que o veículo dominante não seria mais a TV e as projeções de sentimentos e ambições não seriam mais feitas em personagens e sim em profiles de redes sociais... Sem dúvidas um ótimo filme. Recomendo!


O Show de Truman foi indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Ator Coadjuvante (Ed Harris), Diretor e Roteiro Original. No Globo de Ouro o longa foi vencedor nas categorias de Melhor Ator de Drama (Jim Carrey), Melhor Ator Coadjuvante (Ed Harris) e Melhor Trilha Sonora Original, tendo sido indicado também ao prêmio de Melhor Filme de Drama, Diretor e Roteiro.

Assistam ao trailer de O Show de Truman
no You Tube, clique AQUI !


sábado, 29 de outubro de 2011

O Encouraçado Potemkin

O Encouraçado Potemkin (Bronenosets Potyomkin) - 1925. Dirigido por Sergei M. Eisenstein. Escrito por Sergei M. Eisenstein e Nina Agadzhanova. Direção de Fotografia de Vladimir Popov e Eduard Tisse. Música Original de Nokolai Kryukov, Edmund Meisel e Dimitri Shostakovich. Produzido por Jacob Bliokh. Goskino e Mosfilm / URSS.

 

Enquanto militares reprimem uma manifestação popular, algo inusitado acontece, uma mulher que estava junto com um bebê é atingida pelo disparo de uma arma de fogo e acaba soltando o carrinho com a criança, que se precipita pela escadaria à sua frente. O carrinho desce degrau por degrau delineando um caminho entre corpos de militantes mortos e outros feridos. Nesta sequência a montagem, que nos diz no filme muito mais que poderiam dizer as palavras, deixa evidente diversos significados que estariam ocultos naquele fato. Entendo que de alguma forma aquela criança represente o futuro, o porvir utópico que está ameaçado pela brutalidade das classes dominantes, isto explica porque mesmo em meio a tudo que está acontecendo naquele local, algumas pessoas percebem o risco que o bebê corre e se alarmam. A edição não nos permite saber ao certo o que aconteceu com a criança, como se deixasse algo em aberto, algo a ser posteriormente reparado, tal incompletude é o que incitaria os espectadores a tomar alguma atitude contra toda a ameaça representada no filme ora pela hierarquia do navio Potemkin, ora pela repressão do exército.

A sequência da escadaria de Odessa continua sendo até hoje uma das mais clássicas e emblemáticas da história do cinema e injustamente o filme continua sendo lembrado em muitas situações apenas por causa do impacto destas cenas. Quem tiver a oportunidade de assistir a versão com o filme na íntegra, irá descobrir uma obra de excelente profundidade dramática e com uma carga ideológica que vai muito além de uma mera propaganda política, como alguns críticos insistem em afirmar. Cenas como a do motim no navio, a dos vermes na carne apodrecida, a da homenagem a um marinheiro morto e a do encontro com um navio supostamente inimigo são mínimo esplêndidas. Desde a época da faculdade, quando estudamos superficialmente a história do cinema, eu ouvia comentários sobre os filmes de Sergei Eisenstein e a chamada montagem dialética, no entanto eu não imaginava o efeito que isso poderia me provocar. O ritmo que o cineasta deu a este filme, em meados da década de 20, é surpreendente e perceptível em pouquíssimas produções nos dias de hoje.


Antes de enveredar pelos caminhos da sétima arte, Eisenstein já tinha criado e desconstruído diversas teorias sobre a montagem teatral, de tais reflexões surgiu o conceito de montagem de atrações, que defendia a ideia de que em uma encenação teatral, os diversos elementos que a compunham funcionariam como uma sistemática que em conjunto levaria o espectador a refletir sobre aquilo a que estava sendo exposto. Eisenstein colocaria esta teoria em prática também em seus filmes. O artifício que ficou conhecido como montagem dialética seria uma adaptação da montagem de atrações para a linguagem cinematográfica. Na dialética, uma situação vigente chamada de tese, tenderia a gerar sua própria contradição, chamada de antítese, o choque entre a tese e a antítese levariam a uma síntese, que seria conforme pressuposto algo maior do que a simples soma das duas situações que a geraram. Conforme defendia Eisenstein, em seus filmes cada cena seria uma atração, ou tese, a própria montagem forneceria a síntese e o espectador seria estimulado (condicionado, segundo alguns críticos) a produzir a sua própria síntese.

 

O Encouraçado Potemkin (1925) foi todo idealizado com base nesta teoria, de fato o diretor explora com grande destreza cada um dos conflitos que reproduz. A sequência da escadaria de Odessa é uma boa ilustração de tudo isso, nestas cenas os Cossacos, o exército czarista, é mostrado sempre de longe, nunca conseguimos enxergar nitidamente seus rostos, ao contrários das pessoas simples do povo, que são mostradas por diversas vezes em close-up. Podemos ver ai uma relação dialética, nós tendemos a enxergar na figura dos soldados a brutalidade e a desumanização e nos rostos abatidos dos populares a dor e o sofrimento, o que nos leva ao repúdios dos primeiros e à uma identificação com os flagelados, a nossa síntese. Tal efeito, que poderia ser tido como manipulação, não acontece com perfeição na prática, afinal ninguém termina de ver o filme e decide começar de imediato uma revolução, no entanto, tendemos a receber melhor uma ideia, quando encontramos por nós mesmos a sua síntese. Mas tudo isso, acreditem, explica somente em parte a genialidade da obra e do cineasta.

 

O Encouraçado Potemkin, que teria sido inspirado em um acontecimento real, narra o motim de marinheiros em um navio, que acontece devido às péssimas condições de trabalho a que eles estavam sujeitos e tem seu estopim quando a tripulação é obrigada a comer uma carne apodrecida tomada por vermes. Os marinheiros assumem o controle e os oficias que comandavam o navio, juntamente com um padre e o médico que atestara a qualidade da carne, são atacados, alguns são mortos e outros lançados ao mar. Quando a embarcação é ancorada no porto da cidade de Odessa, sua tripulação é recebida com honras pela população local. O homem que começara o motim, que morrera em combate se torna então uma espécie de mártir e seu corpo fica exposto em um tenda no cais. A população engajada na causa dos marinheiros vê na coragem daqueles homens um impulso para sua própria libertação, discursos revolucionários são bradados para a multidão e tudo indicava que a revolução começaria ali, naquele mesmo dia, no entanto os Cossacos chegam furiosos e um verdadeiro massacre começa.

 

A revolução russa pode não ter conseguido manter nas décadas seguintes a utopia e o desejo de liberdade que guiava tanto o povo, quanto intelectuais como Eisenstein, alguns críticos e cinéfilos podem até acusar o filme de ser dogmático e manipulador, mas eu o defendo. O Encouraçado Potemkin transcende o contexto no qual foi produzido, pois ele é antes de tudo um filme sobre a luta pela liberdade e pela igualdade e sobre aquele sentimento nobre que acende a chama do desejo por mudanças, chamado de utopia. Se a revolução então idealizada pelos bolcheviques permanece até hoje apenas como uma abstração, se o capitalismo continua produzindo suas antíteses, sem uma síntese que nos satisfaça, se aqueles que lutaram na esperança de que o bebê chegasse a salvo ao final de sua trajetória morreram em vão, nada disso diminui a excelência desta obra. A trama do filme está repleta de mártires, mas sem alguém que personifique o herói, pois este não é necessário, aqui o herói é o povo unido e o ato de bravura é o engajamento. O Encouraçado Potemkin vale não só pela sua trama e montagem, mas também pela fotografia, enquadramentos e estética, que em conjunto o transformam numa das obras mais importantes e influentes do cinema. Ultra recomendado!


Confiram no You Tube uma parte da sequência da escadaria de Odessa,
 o trecho mais lembrado e citado do filme até hoje. Clique AQUI!


domingo, 23 de outubro de 2011

Joana d'Arc de Luc Bessom

Joana d'Arc de Luc Bessom (Jeanne d'Arc) - 1999. Dirigido por Luc Besson. Escrito por Luc Besson e Andrew Birkin. Direção de Fotografia de Thierry Arbogast. Produzido por Patrice Ledoux e Luc Besson. Gaumont / USA | França.

 

Meus últimos dias foram no mínimo agitados, o tempo escasso e inúmeras preocupações chegaram a quase me paralisar e isto explica em parte a minha recente inatividade aqui na web. Nos poucos momentos de calmaria a única coisa que consegui assistir foram alguns episódios da segunda temporada do seriado Friends, que comprei recentemente. Em meio a esta loucura do cotidiano, enquanto o tempo voava, a minha lista de filmes na espera para serem assistidos só aumentava... Por causa de uma indicação cheia de entusiasmo do amigo Cristiano Contreiras, editor do Blog Apimentário, resolvi deixar outros títulos para depois e assistir Joana d’Arc de Luc Bessom (1999). Este filme pode não ser o tipo de épico/histórico que se torna facilmente uma unanimidade entre fãs do gênero, mas é um ótimo filme, sem dúvidas, engrandecido por uma belíssima fotografia e por um excelente roteiro. Ao recontar a história da maior heroína francesa, o longa constrói um olhar quase intimista sobre a vida, a trajetória, os sentimentos e principalmente as dúvidas da personagem principal.

Tal como sempre faço em análises de filmes inspirados em fatos em fatos reais, nesta resenha deixarei um pouco de lado a história verídica e focarei a trama do longa. Fica evidente no decorrer do filme, que um dos interesses de Luc Bessom era de alguma forma desconstruir o mito criado em torno da mártir. A Joana d’Arc do filme é uma jovem cheia de fé e coragem, mas é também alguém que tem temores e traumas, que a tornam por vezes cruel e vingativa. Talvez a maior genialidade do roteiro tenha sido deixar em aberto as questões acerca do direcionamento divino e dos sinais que ela afirmava ter recebido. Entre a religiosidade, a loucura e a coragem, ela consegue se fazer ouvida, convencer autoridades de sua "missão" e se posicionar à frente de um exército, que seguia quase cegamente suas ordens. O contexto em que o filme se passa é o da Guerra dos 100 anos, conflito entre a França e a Inglaterra, que se iniciara em 1337 e que duraria até 1453.

 

Em 1420, Henrique V, rei da Inglaterra e Carlos VI, rei da França, assinaram o Tratado de Troyes, que dizia que após a morte de seu governante a França passaria a pertencer à Inglaterra, no entanto pouco tempo após a assinatura do tratado ambos morreram e ambos os países ficaram sob o “comando” de Henrique VI, que tinha então apenas alguns meses de idade. Os franceses não aceitam a sucessão e decidem não entregar o país sem luta. Os ingleses invadem a França e tomam Compiègne, Reims e Paris. A ocupação inglesa se torna então um problema para Carlos VII (John Malkovich), o delfim (título que se dava ao sucessor na monarquia francesa), que ambicionava o trono da França. É então que Joana d`Arc (Milla Jovovich) surge trazendo consigo a esperança que os soldados do delfim precisavam, ela tinha a seu favor a prerrogativa de que estaria em uma missão que lhe fora dada por Deus. O anseio que o povo tinha pela chegada de um herói que libertasse o país do julgo inglês fez com que ela fosse rapidamente aceita e tida como uma espécie de mensageira da vitória, ela ficaria conhecida entre os mais simples como a "donzela de Orléans".

 

Desde criança Joana d`Arc foi muito ligada às questões religiosas, ela frequêntava assiduamente a igreja e se confessava quase diariamente com o padre local. Conforme mostrado no filme, no mesmo dia em que teve sua primeira visão do sobrenatural, ela testemunhou o estupro e a morte da irmã por um invasor inglês, durante muito tempo ela se culpou por este acontecimento. Na sequência que mostra este ato brutal, que está no início do filme, já fica claro aquilo que eu disse no início desta resenha: há um evidente processo de desconstrução da figura idealizada da heroína, afinal o desejo de vingança que passa a mover a partir de então não é nem um pouco nobre ou condizente com a teologia cristã. Mesmo sem se ater a nenhuma delas, o filme dá diversas outras interpretações para as visões tidas por Joana, elas poderiam ser simplesmente frutos de uma loucura ou de seu ardente desejo de vingança contra os ingleses, poderiam ser também situações banais que ganharam ares sobrenaturais ao serem percebidas por um olhar previamente condicionado.

 

Sem dúvidas o melhor atrativo de Joana d`Arc de Luc Bessom são os momentos de reflexão e de questionamentos que o roteiro explora muito bem. A sequência em que a personagem principal percebe que tinha se tornado aquilo contra o que vinha lutando é simplesmente sublime. A percepção de que vinha prestando culto mais a si mesma que a Deus chega a ser perturbadora para ela, o artifício usado para narrar isso no filme é simples, porém eficaz e muito bem elaborado. Joana interage com um personagem vivido por Dustin Hoffman, este pode representar ao mesmo tempo uma figura demoníaca, divina ou a sua própria consciência, é ele quem a leva a questionamentos profundos acerca da legitimidade e da barbárie do conflito no qual lutou e acerca de sua própria fé e personalidade. A boa atuação de Milla Jovovich, ainda que eu não concorde que ela tenha sido a escolha certa para o papel, torna quase palpável a dor e a angústia interior vivida pela personagem.

 

Por fim, o filme desmonta os significados que posteriormente atribuíram á morte de Joana. Ela deixa então de ser uma mártir para se tornar uma vítima de um contexto que ela parecia não compreender. Sua trajetória chega a se torna mesquinha à medida em que sua contribuição nas batalhas é renegada pelo seu próprio rei e sua postura é tida como herege pela sua própria igreja. Se ela era motivada tão somente pela vingança da morte da irmã, ela falhou, pois se tornou tão cruel quanto os homens que invadiu sua casa quando ela ainda era criança. Se de fato ela agia com direcionamento divino, também falhou e sua missão não foi concluída, ao menos da forma que ela esperava, suas últimas interações com a figura que lhe aparecia em visões deixa isso bem claro... O clamor de Joana d`Arc por uma última confissão confere um tom ainda mais trágico ao final do filme e a informação de que ela fora canonizada quase 500 anos depois chega a ser quase irônica... Joana d’Arc de Luc Bessom pode não ser uma obra prima, mas é no mínimo grandioso e merece ser apreciado. Recomendo!



Assistam ao trailer de Joana d’Arc de Luc Bessom

no You Tube, clique AQUI !


sábado, 15 de outubro de 2011

Bucky (Jibaku-kun)

Bucky (ジバクくん Jibaku-kun) – 1999-2000. Dirigido por Akira Suzuki e Hiroyuki Tsuchiya. Baseado no mangá de Ami Shibata, publicado entre de 1997 e 1999. Softx Trans Arts / Japão.

 

Alguns dias atrás, pela proximidade do dia das crianças (12 de outubro), uma onda de desenhos animados tomou conta do facebook. Aquilo que seria a priori uma manifestação contra a exploração infantil, se tornou na verdade uma viagem de volta para os anos 80 e 90, décadas em que boa parte dos usuários da rede social ainda eram crianças ou adolescentes. Naquela época a internet era rara ou inexistente e TV por assinatura privilégio de pouquíssimos, sendo assim era a TV aberta quem definia as tendências, lançava modismos e oferecia o que se tinha de melhor em entretenimento para meninos e meninas. Apesar da minha resistência inicial à campanha (cheguei a usar um foto do Dadinho de Cidade de Deus como uma suposta foto de minha infância) acabei entrando na brincadeira. Nesta última semana, passaram pela foto de meu perfil personagens de Rupert, Os Animais do Bosque dos Vinténs, Samurai X, Yu Yu Hakusho, Babar, Jambo e Ruivão, Coelho Ricochete e Blau Blau, Akira (tá certo que este é um filme em animação, mas também foi um dos que marcou minha infância) e Bucky.

Dentre todos os que eu escolhi, Bucky talvez tenha sido o que estava mais deslocado. Explico: eu já não era uma criança que assisti a este anime, devia ter algo entre 13 e 14 anos, mas isso não me impediu de vivenciar a magia e a profundidade da história contada por ele. Não resisti, depois de mais de 10 anos que o assisti no “Band Kids” decidi que já era hora de revisitá-lo, confesso, fiz o download dos episódios em um site de compartilhamento de arquivos. Pra minha surpresa o desenho era tão bom quanto eu lembrava e desta vez eu ainda percebi nele aspectos que minha limitação de adolescente não permitira entender outrora. Esta é uma daquelas produções que parecem ter sido feitas para agradar tanto crianças quanto adultos, pois garanto, a forma com que decodifiquei a mensagem do anime, agora que o reassisti, tem pouco a ver com a nostalgia que ele me despertou.

 

A história de Bucky é no mínimo não convencional, no primeiro episódio do anime conhecemos o personagem principal, ele é um garoto em idade escolar que não consegue se socializar bem e nutre uma grande arrogância. O sonho de todos os seus colegas de escola é ser uma “Grande Criança (G.C.)”, uma espécie de herói nomeado que salva o mundo dos “Monstros Encrenqueiros”, criaturas que estão dispostas a provocar destruição e sofrimento. Porém, ao contrário de todos, Bucky (Baku no original) não quer ser uma “Grande Criança”, seu maior sonho é dominar o mundo e fazer de todos seus escravos. Para a surpresa geral ele é o escolhido por Spaak (En no original) para ser seu sucessor como a grande criança do primeiro mundo, chamado de Primas. A realidade paralela onde a história acontece é dividida em 12 mundos, dispostos em forma de um relógio, estes mundos são controlados pela Torre Pontiaguda, que fica no Mundo 0 (centro do relógio), cada um destes mundos é protegido por uma G.C.

 

Cada uma das G.C. são acompanhadas por um Espirito (eles têm o formato de uma bola com rostos, braços e pernas e explodem cada vez que abrem as mãos), que elas usam como arma, os espíritos são sempre repassados aos sucessores de uma G.C. quando esta fica velha velha demais para o cargo ou quando esta é promovida a “Grande Soldado (G.S.)”. Frequentemente as G.C. usam também um mostro como companheiro e meio de transporte, são os chamados Monstros Guias. Jibak (Jibaku no original) é o Espírito que Bucky recebe de Spaak. Diferente de outras G.C. Bucky não precisou de fazer teste de resistência ou de perseverança para assumir a função, ele foi apenas o escolhido por aquele que todos consideravam como o mais forte dentre os guardiões dos 12 mundos, por isso Bucky não tem a princípio um monstro guia nem uma Técnica pessoal, que seria uma especialidade desenvolvida por cada um dos defensores dos mundos.

 

É justamente o sonho de Bucky, de dominar o mundo, que o torna aos olhos de Spaak o merecedor de se tornar uma G.C., no primeiro encontro entre eles Spaak justifica: “Seja qual for o seu sonho, você deve correr atrás dele para realizá-lo. Se você for capaz de dar a vida para realizá-lo, será uma Grande Criança”. De fato é o sonho de Bucky que o motiva a sempre olhar pra frente e a se impor contra tudo que o possa impedir de alcançá-lo. Nos últimos tempos algo não tem estado certo nos doze mundos, os Monstros Encrenqueiros estão surgindo com uma frequência bem maior e a Torre Pontiaguda não tem se posicionado. Bucky decide então ir até o Mundo 0 para descobrir o que está acontecendo e para desafiar Spaak conforme prometera. Não tem como chegar ao Mundo 0 passando direto de Primas para Doidicos (o Mundo 12). Para chegar até a Torre, o aspirante a dominador do mundo terá que passar por cada um dos outros 11 mundos, o que não será nada fácil. Nesta jornada ele terá a companhia de Pinky (Pinku no original) a G.C. do Mundo 2, Secandas, de Kai, G.C. do Mundo 3, Trios, e de seus respectivos Espíritos, Bumby (Banbi) e Bakzan (Bakuzan).

 

De uma forma que chega a ser quase poética, o anime fala de amizade, ambientalismo, autoritarismo, superação e perseverança. Bucky também foi o primeiro desenho que assisti que tinha um personagem abertamente gay (pois é, o Shun, o Kurama e o Leiga não contam). Na minha opinião o mais legal na série, que tem apenas 26 capítulos, é a questão envolta nos sonhos. Curiosamente são apenas as crianças os detentores do poder de sonhar, de defender o mundo e transformar a realidade, é como se os adultos já tivessem desistido de si mesmos e de seus ideais, um personagem que surge em um determinado ponto da história exemplifica bem isso. Longe de cair na falácia típica da literatura de autoajuda, o anime consegue explorar o tema sem ser piegas, transformando a busca pelo sonho e não a sua realização no aspecto que trás dignidade e reconhecimento para o indivíduo. O roteiro de Bucky, baseado no mangá homônimo, é muito bem escrito, tornando o desenho mais gostoso de assistir a cada episódio. Uma pena que são apenas 26 capítulos, pois a história termina com um gostinho de quero mais... Recomendo para os fãs de animes e saudosistas de plantão!



Confiram no You Tube a versão brasileira da abertura de Buck!
Clique AQUI!
(confesso, eu adora o tema de abertura)


quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Lua de Papel

Lua de Papel (Paper Moon) - 1973. Dirigido por Peter Bogdanovich. Escrito por Alvin Sargent, baseado na obra de Joe David Brown. Direção de Fotografia de László Kovács. Produzido por Peter Bogdanovich. The Directors Company / USA.

 

Addie (Tatum O’Neal) é uma garotinha de nove anos que ficou órfã com a morte da mãe, ela vive no estado americano do Kansas e não tem nenhum outro parente por perto. No enterro da mãe ela conhece Moses (Ryan O’Neal), que ela suspeita ser o seu pai biológico. Ao ser questionado pela menina sobre o assunto Moses apenas desconversa, ele é um vigarista que sobrevive aplicando pequenos golpes de cidade em cidade. O malandro usa o morte acidental da mãe da menina, que fora sua amiga, para ganhar uma boa grana. Ele consegue extorquir 200 dólares de um homem que teria sido o responsável pela morte acidental da mulher, na época da grande depressão, período em que a história do filme se passa, aquele valor era uma quantia considerável. Ao perceber o golpe de Moses, Addie reclama o dinheiro que seria dela por direito, com isso ele que já tinha gastado parte da grana, se vê obrigado a cumprir aquilo que prometera durante o enterro, levá-la para a casa de uma tia, sua única parente viva, que morava no Missouri.

Durante a viagem Moses percebe que ter a pequena por perto pode ser um bom facilitador na hora de aplicar seus golpes, pois ninguém desconfia de um homem acompanhado de uma menina com um sorriso tão cativante. De fato eles formam um boa dupla de golpistas. Alindo a lábia dele ao carisma dela eles conseguem tirar dinheiro de pessoas ingênuas com uma enorme facilidade. Dentre os golpes praticados por eles, o mais comum era o da bíblia de luxo, Moses identifica pelo obituário mulheres que tinham perdido os maridos recentemente, ele então ia até a casa da viúva dizendo que fora entregar um exemplar da edição de luxo do livro sagrado, que o falecido encomendara semanas atrás. As mulheres não resistem a aquele poderia ter sido o último presente de seus respectivos maridos, ainda mais quando viam os próprios nomes gravados em ouro (na verdade é uma tinta barata) na capa.

 

Não tem como deixar de notar a influência da época no roteiro do filme, apesar de não poder ser considerado uma obra de cunho autoral, o longa trás consigo algumas das característica que marcaram diversas produções americanas daquele período de efervescência. Ao invés de heróis, tal como em Bonnie and Clyde (1967), Lua de Papel (1973) tem dois contraventores como protagonista, com o agravante de que neste caso um deles é uma criança. O filme aborta qualquer noção de politicamente correto ao mostrar a menina fumando, mentindo e planejando golpes e furtos. Ao contrário do que poderia se esperar, o filme foi muito bem recebido pela crítica, o que elevou Tatum O’Neal ao status de celebridade mirim e rendeu para ela o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, sem dúvidas merecido, ela continua sendo até hoje a atriz mais jovem a ter recebido um Oscar.

 

O mais legal de Lua de Papel, é que ele consegue ser ao mesmo tempo nostálgico, melancólico, alegre e de uma leveza indescritível. Não tem como não se sentir cúmplice dos personagens durante a viagem, pois é, a lábia de Moses e o sorriso de Addie realmente funcionam. Só mesmo o fato de serem pai e filha na vida real para explicar a química entre Ryan e Tatum, ambos estão esplêndidos em seus papéis, principalmente a menina, que consegue encarar tomadas longas e diálogos complexos sem se perder. As carinhas que ela faz também merecem destaque a parte. A decisão ousada de fotografar o filme em preto e branco foi muito bem sucedida. Além de conferir ao longa uma estética que remeta à década de 30, época em que ele se passa, a fotografia ainda reproduz belíssimas imagens, com destaque para o céu enevoado que, devido ao contraste obtido pela lente da câmera, parece estar sempre anunciando uma tempestade.

 

Peter Bogdanovich, que só aceitou dirigir o longa depois uma recusa de John Wayne de protagonizar um faroeste que ele estava escrevendo, não tinha ideia de que Lua de Papel seria lembrado como uma das maiores obras de sua carreira, que não teve muitos pontos altos depois deste filme. No entanto a trajetória posterior mais complicada foi a de Tatum O’Neal, que como frequentemente acontece, não soube lidar com o estrelato que chegou tão cedo. Ela nunca mais experimentaria o estrelato alcançado quando tinha apenas 10 anos. Suas aparições na mídia a partir de então se deveram ao relacionamento que teve com Michael Jackson (ela foi sua primeira namorada), ao seu envolvimento com drogas pesadas e à sua relação conflituosa com o pai. Em sua autobiografia Tatum contou que teria sido molestada por um amigo de sua família e que por diversas vezes o próprio pai teria abusado dela física e psicologicamente.

 

Lua de Papel é uma excelente comédia, inusitada e deliciosa de se assistir. A qualidade visual alcançada graças a ótima fotografia dirigida e à direção de arte, aliada às ótimas atuações e ao roteiro, tornam este filme indispensável. Uma obra despretensiosa a qual o passar do tempo só favoreceu. Recomendo!

Lua de Papel ganhou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante (Tatum o´Neal) e foi indicado também nas categorias de Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Som.

Assistam ao trailer de Lua de Papel
no You Tube, clique AQUI !


sábado, 8 de outubro de 2011

Estômago

Estômago - 2007. Dirigido por Marcos Jorge. Escrito por Fabrizio Donvito, Cláudia da Natividade, Lusa Silvestre e Marcos Jorge. Direção de Fotografia de Toca Seabra. Música Original de Giovanni Venosta. Produzido por Marco Cohen, Cláudia da Natividade e Fabrizio Donvito. Zencrane Filmes e Indiana Production Company / Brasil | Itália.

 

Com ressalvas, acho que posso dizer que Estômago (2007) é um dos melhores filmes nacionais que vi nos últimos tempos. Mas a verdade é que eu não tenho assistido muitos. Antes de começar minha crítica do filme, vamos á algumas considerações: Tenho uma opinião sobre o cinema brasileiro, que até pode ser confundida com preconceito, quando se trata na verdade de um conceito já formado, a nossa produção é pobre, muito pobre. Temos uma carência enorme e ela não é de bons atores, de bons diretores ou de bons técnicos, trata-se de uma necessidade urgente de uma revolução nas formas de produção e distribuição das obras, que quebre alguns paradigmas, subverta algumas regras e torne o circuíto ao menos um pouco mais homogêneo. 

Você pode me contra-argumentar dizendo: “E Tropa de Elite e Cidade de Deus não contam?” Não, eles não contam porque são exceções. O nosso circuíto cinematográfico está dominado por poucos profissionais e produtoras e apenas esta minoria de olimpianos têm acesso aos financiamentos à produção e às leis de incentivo, o que dificulta a chegada de obras produzidas fora deste circuíto às salas de projeção. Além deste, existem muitos outros problemas, não necessariamente menores, como a não diferenciação entre linguagens de TV e cinema (vide produções da Globo Filmes) e o abuso de gêneros e temas já saturados como cinebiografias, favelização e estética da fome (aqui se incluem os filmes protagonizados por nordestinos estereotipados).

 

Estômago não é na minha opinião um filme maravilhoso, mas ele se destaca por estar ao menos um nível acima da maioria das obras geradas pelo cinema tupiniquim e também por se tratar de uma coprodução entre Brasil e Itália, o que o ajudou a conseguir recursos sem depender exclusivamente dos incentivos nacionais, isso possibilitou-o a entrar com firmeza em um meio tão competitivo e dominado por tão poucos. Outro ponto positivo é a ausência de atores consagrados da TV, aqueles que nem sempre conseguem fazer com habilidade a transição de linguagens. João Miguel, que interpreta o personagem principal, traçou o caminho inverso do trilhado pela grande maioria, ele começou no cinema antes de ir para a TV (ele fez parte do elenco da novela Cordel Encantado), quando Estômago foi lançado em 2007, ele já tinha no currículo obras elogiadas como Cinema, Aspirinas e Urubus (2005) e O Céu De Suely (2006).

A trama de Estômago se desenvolve em dois tempos distintos, que estabelescem entre si uma relação de causa e consequência, a história gira em torno de Raimundo Nonato (João Miguel), ele é um retirante nordestino que chega na cidade grande sem dinheiro e sem ter onde ficar. Ele consegue um emprego em um buteco “pé sujo”, onde ajuda fritar salgados e preparar pratos simples em troca de comida e hospedagem, não demora até ele ser descoberto por Giovanni (Carlo Briani), o dono de um restaurante fino, que reconhece seu talento e o leva para trabalhar consigo. Giovanni ensina para Raimundo os segredos da culinária e arte de preparar um bom prato. Neste ponto o filme chega a lembrar Perfume – a História de Um Assassino (2006), pois tal como no longa de Tom Tykwer, em Estômago o personagem principal é oriundo de um meio totalmente hostil, até que descobre ser o portador de um verdadeiro dom. Em ambos os casos a descoberta do talento não os tornam de imediato mais sociáveis ou aceitos pelos outros.

 

O paradigma entre a poesia, a beleza e a imundice remete à estética da fome (aqui começam alguns dos pontos fracos do filme) e transforma o o personagem central em um tipo estereotipado, já reproduzido pelo cinema nacional em dezenas de outros filmes. Ele é o inocente nordestino que vem tentar a vida em um grande centro e acaba caindo nas armadilhas do destino e vivendo suas peripécias. Testemunhamos através de sua trajetória a reconstrução do mito do bom selvagem e da ideia de que o indivíduo é naturalmente bom e que o que o corrompe é o meio onde ele está inserido. No filme o contexto torna o personagem cada vez mais embrutecido e sua simplicidade, ora vista como algo positivo, torna-se então o canal para o desenvolvimento de atitudes brutais e violentas, de alguma forma a ingenuidade do personagem o impede de interpretar suas próprias atitudes pelos seus reais significados.

 

O filme explora ainda o banditismo, outro tema também recorrente em nosso cinema, ao desenvolver a segunda história, que acontece paralelamente à primeira. A construção do roteiro não linear é um ponto positivo para o filme, apesar de que este recurso não traz em si nenhuma novidade e bem ou mal ele foi usado na maioria dos filmes nacionais que tiveram projeção nos últimos anos, o diferencial deste é que nele a montagem colabora e a não linearidade funciona muito bem. O que definitivamente não funciona é a ambientação desta segunda história (melhor não comentar muito sobre ela), os personagem que a povoam são os mesmos tipos que já vimos e revimos em Carandiru (2003), Cidade de Deus (2002), na primeira parte de Tropa de Elite (2007) e em tantos outros que vieram depois, o que convenhamos, já está mais do que saturado!

 

Com tantos aspectos negativos, você deve estar se perguntando o que salva o filme de estar nivelado aos seus similares. Eu diria que é o resultado final, ao serem colocados prós e contras na balança, o lado dos aspectos positivos fica ligeiramente mais pesado. O elenco principal do filme esta muito bem, com destaque para o ator João Miguel e para a atriz Fabiula Nascimento que vive a prostitura Íria, a fotografia é muito bonita, a trilha sonora é muito bem usada e os enquadramento e movimentos de câmera conferem ao filme um ar blasé que chega contrastar com a história contada, mas que também funcioan perfeitamente. O final do filme, apesar de não fugir do que já estava previsto, ainda consegue nos surpreender positivamente. Concluo portanto que Estômago vale a pena e eu o recomendo, apesar de não ser a obra prima que a crítica especializada disse que era... é apenas um bom filme de estreia...


Assistam ao trailer de Estômago
no You Tube, clique AQUI !


quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Farrapo Humano

Farrapo Humano (The Lost Weekend) - 1945. Dirigido por Billy Wilder. Escrito por Billy Wilder e Charles Brackett, baseado no livro de Charles R. Jackson. Direção de Fotografia de John F. Seitz. Música Original de Miklóz Rózsa. Produzido por Charles Brackett. Paramount / EUA.

 

Billy Wilder entraria para a história como um dos maiores diretores de Hollywood, tal reconhecimento que ele conquistou não foi devido apenas à qualidade de suas obras, mas também à sua versatilidade. Wilder transitou com desenvoltura por diversos gêneros cinematográficos dentre eles, o drama, o noir e a comédia, deixando como legado uma das filmografias mais importantes do século XX. Produções como Crepúsculo dos Deuses (1950), A Montanha dos Sete Abutres (1951), Quanto Mais Quente Melhor (1959) e Se Meu Apartamento Falasse (1960) se tornaram alguns dos maiores clássicos da história da sétima arte, sendo ovacionados pelo público e pela crítica. O diretor foi um dentre tantos, que na primeira metade do século passado, deixou a Europa e foi para os Estados Unidos fugindo da guerra, sua mãe e avós maternos foram mortos em Auschwitz.

Ao chegar na América em meados da década de trinta, Wilder firmou uma duradoura parceria com o roteirista e produtor Charles Brackett. Farrapo Humano (1945) foi um dos frutos desta colaboração, dirigido por Wilder e produzido por Brackett, o filme rendeu o Oscar a ambos, respectivamente na categoria de Melhor Direção e Melhor Filme. O filme ainda ganharia o prêmio em duas das outras cinco categorias a que fora indicado. O longa foi o primeiro a tratar o alcoolismo abertamente como um drama, deixando de lado a figura cômica do bêbado, que o cinema explorava até então. O realismo contundente da trama, reforçado pela atuação magistral de Ray Milland, que interpreta o personagem principal, tornariam o longa um dos retratos mais fiéis da degradação de um viciado.

 

Ao narrar o drama de Don Birnam (Milland), Farrapo Humano tocou em uma verdadeira ferida da sociedade americana. Desde o período da recessão econômica e da Lei seca, o alcoolismo já era tido como um dos principais problemas sociais dos Estados Unidos. Durante os anos 30, a proibição do comércio de bebidos alcoólicas, ao contrário do que o Estado esperava, tornara o problema ainda mais  grave, impulsionando ainda mais o consumo (o velho fetiche da proibição: o que é proibido é mais prazeroso) e deixando lotadas as instituições que davam assistência aos viciados. O brilhantismo do longa está em retratar esta realidade sem usar nenhum atenuante, a adaptação nos induz a mergulhar no fundo do poço junto com o personagem principal e provar cada uma das sensações que ele experimenta, iniciando assim um processo que caminha para a catarse. 

 

A história, como o título original do filme sugere, está centrada em um final de semana na vida de Don Birman, mas o recurso de flashback é usado para nos mostrar que a situação vivida por ele teve um início relativamente banal e que pode acontecer com qualquer um. Don era tido como um promissor escritor na época da faculdade, porém ao se formar ele se vê diante de um hiato, ele se convence de que não consegue escrever se não estiver sob o efeito da bebida. Passando a beber cada vez mais, ele já não consegue mais se concentrar e escrever uma linha sequer. A dependência afeta suas relações e a forma com que seus vizinhos e amigos o vêm. Por não tem um emprego, Don passa a viver às custas do irmão, Nick (Phillip Terry), que paga seu aluguel e o dá o que vestir e comer. Além de Nick, a única pessoa que se preocupa com ele e acredita em um recomeço é Helen St. James (Jane Wyman), sua namorada.

 

O estado em que Don se encontra o impede de enxergar o esforço daqueles que tentam o ajudar, o final de semana mostrado no filme começa com otimismo, todos estão acreditando que Don está há uma semana sem beber e Rick pretende levá-lo para uma fazenda, onde ele poderá relaxar e se divertir longe das bebidas. Desnecessário dizer que nada disso acontece, Don não consegue cumprir seus compromissos e para conseguir mais uma dose (sempre mais uma) ele fará qualquer coisa, ele irá mentir, trapacear e até roubar. A situação caminha para um aparente final trágico, que Helen tentará evitar a todo custo. O caminho até o fundo, traçado de bar em bar, mostra o desprezo de todos pelos alcoólatras. A consciência coletiva dos Estados Unidos da época é personificada pelo dono de uma taberna, que se importa apenas em vender os drinques sem se preocupar com estado físico e mental de seu cliente.

 

Além do roteiro excelente, Farrapo Humano se destaca pela fotografia e pela trilha sonora, que dão a noção precisa da forma com que o personagem principal enxerga sua realidade. Ao assistir ao filme, preste atenção na maneira com que as luzes e as sombras são usadas, em alguns momentos o personagem parece que vai ser engolido pela escuridão que o envolve (entendo isso como uma espécie de herança da fase noir do cineasta). As atuações secundárias são fracas e chegam a estar destonantes se comparadas com a verdadeira incorporação feita por Ray Milland, ele fez jus ao Oscar e a tantos outros prêmios que recebeu pela sua atuação. A sequência em que Don tem alucinações causadas pelo delirium tremens (psicose provocada pela abstinência) é uma das mais fortes do filme e um dos melhores exemplos do mergulho assustador que Milland fez em seu personagem. Farrapo humano é um clássico atemporal, que sem dúvidas merece ser visto. Recomendo!


Farrapo Humano ganhou o Oscar nas categorias de Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Roteiro e Melhor Ator (Ray Milland), tendo sido indicado também aos prêmios de Melhor Fotografia, Melhor Edição e Melhor Música. No Globo de Ouro o longa foi o vencedor nas categorias de Melhor Filme - Drama, Melhor Diretor e Melhor Ator - Drama (Ray Milland). Farrapo Humano ainda ganhou o Grande Prêmio do Juri e o prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes. 

Assistam ao trailer de Farrapo Humano
no You Tube, clique AQUI !

.

domingo, 2 de outubro de 2011

A Viagem de Chihiro

A Viagem de Chihiro (Sen to Chihiro no kamikakushi; 千と千尋の神隠し) - 2001. Escrito e Dirigido por Hayao Miyazaki. Direção de Fotografia de Atsushi Okui. Música Original de Joe Hisaishi. Produzido por Toshio Suzuki. Studio Ghibli, NTV, Dentsu, Mitsubishi, Tokuma Shoten, Touhoku Shinsha e Walt Disney Pictures / Japão | EUA.

 

A Teoria do Autor concebida por François Truffaut, Jean-Luc Godard e outros críticos da revista Cahiers du Cinéma fazia a apologia de um cinema mais conceitual, onde a figura do diretor viesse a substituir a do produtor como o principal responsável pela obra. Nesta concepção o filme alcançaria o status de obra de arte, superando a condição inicial de um mero produto industrializado. Através da observação analítica da obra de alguns cineastas como Hitchcock e Howard Hawks, Godard e Truffaut identificaram traços comuns que se repetiam nos filmes, advindos da inevitável influência da personalidade de seus realizadores. Em Hitchcock, por exemplo, eles observaram temas recorrentes como o repúdio á autoridade e a obsessão pela culpabilidade, aspectos estes que funcionavam como uma assinatura nos longas do mestre do suspense.

O cineasta japonês Hayao Miyazaki talvez tenha sido o único a desenvolver uma filmografia totalmente autoral no gênero animação. Lembro de já ter lido em algum lugar, me perdoem mas não lembro onde, que ele seria de fato um diretor único, uma vez que ele não teve influência direta de nenhum outro cineasta que tenha feito o mesmo tipo de filme e dificilmente seu gênero deixará herdeiros. A Viagem de Chihiro (2001) se tornou seu trabalho mais aclamado pela crítica e o deu visibilidade no ocidente, o filme ganhou o Urso de Ouro, prêmio máximo do Festival de Berlim, e o Oscar de Melhor Animação. Neste longa Miyazaki retorna com brilhantismo à temática de Meu Amigo Totoro (1988), o seu quarto longa. Ambos têm seus focos direcionados para a infância e para os sonhos, medos e transformações inerentes à esta fase da vida.

 

A Viagem de Chihiro é considerado por muitos como uma releitura do clássico literário Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll, na história contada pelo filme, Chihiro acaba de mudar com os pais para uma nova cidade, no caminho para a nova casa eles se perdem e vão parar no que parece ser um parque de diversões abandonado. O curioso desta parte do filme, é que são os pais os curiosos para desbravarem o lugar e a menina a detentora da prudência, que a faz temer o desconhecido e ser excessivamente cuidadosa. Em meio a barracas e lojas abandonadas, eles encontram um restaurante em pleno funcionamento, porém sem uma viva alma lá. Os pais de Chihiro se fartam com a comida que está sobre as mesas, mesmo sendo alertados pela menina que se recusa a provar dos alimentos.

 

A noite chega rapidamente e algo muito estranho começa a acontecer, o lugarejo morto começa a ganhar vida, vultos estranhos surgem por toda a parte. Chihiro é então alertada por um garoto estranho que surge do nada e a aconselha a ir embora antes que seja descoberta, amedrontada a menina corre de volta para o restaurante e se depara com os seus pais metamorfoseados em porcos, eles já não a reconhecem mais. Envolta pelo que parece ser uma realidade paralela, Chihiro se recusa a acreditar que tudo aquilo é real, o menino estranho, chamado de Mestre Haku, aparece novamente e desta vez a aconselha a pedir emprego em uma espécie de casa de banhos para espíritos, que funciona no local, ele garante que isso a manteria a salvo das estranhas criaturas que habitam o lugar, que a tratam como um repudiante invasor.

 

Chihiro precisa então lutar contra os seus medos e contra si mesma para conseguir permanecer naquela realidade até que consiga um meio de libertar seus pais e escapar de tudo aquilo. As experiências da garotinha neste mundo novo funcionam como uma alegoria das descobertas da infância e do rito de passagem para uma nova etapa da vida (temas presentes também em Meu Amigo Totoro). Ela precisará tomar decisões, se responsabilizar por seus atos e se virar sem a ajuda de seus pais. A história é repleta de metáforas que simbolizam a arrogância, a ganância e a avareza da humanidade e até mesmo o desrespeito ao meio ambiente.

 

Em uma das sequências mais belas do filme, um espírito fedorento chega a casa de banho, todos empurram a tarefa de conduzi-lo à banheira para Chihiro, ela, com a ajuda de um outro ser misterioso, vence seu medo e encara o árduo serviço. Durante o banho, ela percebe que tem algo prezo no corpo daquele ser asqueroso. Contando agora com a ajuda de todos os outros, ela consegue desprender o objeto e junto com ele o espírito expele uma quantidade enorme de lixo e outros detritos. É então que todos descobrem que aquele não era um espírito do fedor e sim um deus dos rios. Em outra sequência a ganância leva alguns personagens a transformarem algo que era bom em uma força totalmente descontrolada, novamente Chihiro é única que não se deixa levar pelos impulsos que tomam os demais.

 

A sensibilidade e a sofisticação dos filmes de Hayao Miyazaki é algo indescritível, o que eleva seus trabalhos à condição de verdadeiras obras de arte. A predominante escolha pelos desenhos feitos com pincel e tinta, ao invés da computação gráfica, é uma prova disso. O mundo criado pelo realizador em seus filmes, remete às mais belas memórias de nossa infância, à simplicidade e às aventuras além das fronteiras do real, trilhadas pela nossa imaginação. Realmente é uma pena que o ocidente ainda não esteja preparado para suas obras, o que faz com a sensibilidade poética de seus filmes seja por vezes confundida com lentidão, o que leva alguns desentendidos a taxar o filme de chato. Eu acredito que só não é tocado por um filme como este quem não teve infância ou não tem coração! Ao assisti-lo preste atenção na qualidade magistral da animação e na belíssima trilha sonora composta pelo colaborador habitual de Miyazaki, Joe Hisaishi. Ultra recomendado!


A Viagem de Chihiro ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim 
e o Oscar de Melhor Animação.


Assistam ao trailer de A Viagem de Chihiro

no You Tube, clique AQUI !

Confiram também aqui no Sublime Irrealidade a resenha crítica de 
Meu Amigo Totoro, o segundo longa de Hayao Miyazaki

.