sábado, 31 de março de 2012

Milton Nascimento + Ponto de Partida + Meninos de Araçuaí - Ser Minas Tão Gerais

Ser Minas Tão Gerais. Roteiro, pesquisa musical e direção geral de Regina Bertola. Direção de Vídeo de Eder Santos. Direção de Fotografia de Evandro  Roger. Direção Musical e Arranjos de Gilvan de Oliveira.. Figurinos de Alexandre Rousset e Tereza Bruzz. Coreografias de Wagner Moreira e Ponto de Partida. Produção Geral e Realização de Ponto de Partida.


Em algum lugar do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, um povo castigado pela vida espera a chegada de uma espécie de salvador, alguém em quem eles depositam todas as suas esperanças, na expectativa de que um dia ele chegue e transforme suas vidas para melhor. Este é o mote do belíssimo espetáculo Ser Minas Tão Gerais, idealizado pela companhia teatral Ponto de Partida. Este musical é uma homenagem à mineiridade, à cultura popular e ao conjunto de mitos e crendices do estado e mais que isso, ele é uma ode à vida, à esperança e à perseverança em meio à adversidade. A montagem mescla poemas de Carlos Drummond de Andrade à canções selecionadas do repertório de Milton Nascimento e do coral Meninos de Araçuaí. Tanto Milton quanto o coral participam do espetáculo, transformando-o em uma convergência de diferentes expressões artísticas, o que resulta em algo belo e dotado de uma poética que só poderia ter saído da manifestação de uma riquíssima cultura popular.

O espetáculo é sensacional; o casamento entre os poemas de Drummond, as canções do Milton e dos Meninos de Araçuaí e as atuações dos membros do Ponto de Partida é formidável, é incrível a sintonia que o roteiro consegue forjar entre cada uma das obras que cita ou que remonta durante seu desenvolvimento. A peça emociona pelo seu lirismo que nos transporta direto para os tempos de meninice, para as brincadeiras de roda e para as manifestações religiosas características do interior. Contudo, a ambientação onírica da peça não perde de vista os problemas sociais, a dor e o sofrimento que imprimem marcas tão forte em um povo muitas vezes esquecido. A história no entanto contorna esta dura realidade ao apontar para o longe, para além do que vê, se apegando assim a uma fé tão forte que é capaz de poupar e preservar o último fio de esperança. De forma metafórica o roteiro aponta para a cultura como sendo o meio através do qual o povo será liberto de seu sofrimento, o que se configura em uma bela analogia aos projetos que o próprio grupo mantém em uma das regiões mais pobres do estado.


Assisti o espetáculo através do DVD, que fora gravado no ano de 2004 no Cine Teatro Central em Juiz de Fora., reconheço que esta experiência poderia ter sido bem melhor se não fossem alguns problemas técnicos bem primários que prejudicam e muito a apresentação. O principal deles está associado á edição e à montagem do vídeo, explico: A apresentação que vemos no DVD foi gravada na verdade em dois dias, um deles com a presença do público e outro com o teatro vazio, o problema surgiu na hora de juntar  as imagens capturadas nas datas diferentes; provavelmente para que não ficassem “buracos” na edição, os montadores recorreram à técnicas como a aceleração, desaceleração e repetição das imagens (era preciso sincronizar o áudio e o vídeo), o que definitivamente não funcionou. Os efeitos, que são bem toscos, tiram toda a naturalidade da apresentação e a noção de tempo cênico fica totalmente perdida. Em nenhum momento vemos os atores deixando o palco ou como se dá a transição de uma cena para outra, há tão somente algum corte abrupto que nos transporta direto para o próximo ato, intervenção que ao meu ver é simplesmente inconcebível.


Apesar dos problemas citados no parágrafo anterior, o DVD vale muito a pena ser conferido, até porquê o espetáculo não está mais em cartaz, o que faz com que esta seja a única forma de conferi-lo, e deixar de fazê-lo seria um verdadeiro pecado... Milton Nascimento mostrou que tem pouca destreza como ator, no entanto ele não precisa disso para nos encantar, à cada vez que ele solta sua voz inigualável é como se o espetáculo atingisse naquele preciso instante o seu ápice, o maravilhoso é que isso se repete em diversos momentos da encenação, na maioria das vezes em coro com os Meninos de Araçuaí ou com os atores do Ponto de Partida. A montagem tem pouquíssimos objetos cênicos, vemos no palco apenas o necessário para nos situar no contexto do "causo" contado. Os figurinos são muito bem feitos e fazem diversas referências à cultura mineira, aos congados e à arte barroca. A iluminação do palco foi muito bem arquitetada, ela ajuda a valorizar e reforçar os tons de amarelo desbotado dos figurinos, o que de acordo com os extras do DVD seria uma referência àquilo que sobrou da corrida pelo ouro, minério que fora tão abundante nas terras do estado...


O grupo Ponto de Partida foi criado em 1980 na cidade de Barbacena, que se tornou conhecida nacionalmente como a “cidade dos loucos” por já ter abrigado sete hospitais psiquiátricos. De alguma forma a trupe absolveu este aspecto histórico e cultural da cidade e hoje eles reconhecem que a “loucura” sempre fez parte do processo de criação de suas peças e isto pode ser facilmente percebido em Ser Minas Tão Gerais. A trupe tem no currículo 26 espetáculos e diversos prêmios conquistados no Brasil e no exterior, suas peças são caracterizadas pelo flerte constante com a literatura, com a música e com a cultura popular. O Meninos de Araçuaí nasceu através de um dos projetos sociais mantidos pelo Ponto de Partida, o Ser Criança desenvolvido pelo Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento na cidade de Araçuaí no Vale do Jequitinhonha. Eles lançaram o elogiado CD Roda que Rola, que vendeu mais de 35 mil cópias,   já se apresentaram ao lado de Milton Nascimento e Gilberto Gil e em 2003 receberam das mãos de Lula, então presidente da república, a Medalha do Mérito Cultural. Já o Milton, Bituca para os mais chegados,  dispensa qualquer apresentação... 


Ser Minas Tão Gerais é um nutritivo alimento para a alma de qualquer apreciador da MPB, do teatro e das expressões culturais de nossa gente brasileira. Recomendo para todos! 

Confiram no vídeo postado abaixo um trecho do espetáculo:



sexta-feira, 30 de março de 2012

Os Incompreendidos

Os Incompreendidos (Les Quatre Cents Coups) - 1959. Dirigido e produzido por François Truffaut. Escrito por François Truffaut e Marcel Moussy. Música Original de Jean Constantin. Direção de Fotografia de Henri Decaë. Les Films du Carrosse e Sédif Productions / França.


Em 1959, aos 28 anos, François Truffaut já era um dos mais respeitados (e polêmicos) críticos de cinema da França, ele já fazia parte do lendário expediente da revista Cahiers du Cinéma, que também empregava outros futuros cineastas como Claude Chabrol, Eric Rohmer, Jacques Rivette e Jean-Luc Godard. Truffaut foi o primeiro a conceituar e defender, através de seus escritos, a politique des auteurs (a teoria autoral), que defendia que cada filme, tal como uma obra de arte, deveria trazer a “assinatura” de seu diretor e expressar os sentimentos, reflexões e visões de mundo que o tornavam singular, diferente dos demais. Naquela ocasião o radicalismo do discurso do jovem acendeu os ânimos do circuíto cinematográfico francês, afinal ele, tomado pela fúria juvenil que lhe era característica, disparava farpas contra toda a indústria fílmica mainstrean de seu país, que estava, segundo ele, até então ancorada em velhas concepções, que prejudicavam o experimentalismo e a inovação.

Truffaut contrariou aquela falsa premissa que diz que todo crítico de cinema é um cineasta frustrado, ele seguiu o caminho inverso. Os Incompreendidos (1959), seu primeiro trabalho como diretor, foi recebido de forma calorosa na 8° edição do Festival de Cannes, onde estreou e conquistou o prêmio de Melhor Direção. O filme foi visto como a manifestação prática daquilo que Truffaut já tinha teorizado como estudioso e crítico, a marca autoral, que ele tanto defendia, pode ser observada em seu roteiro, que ganha ares autobiográficos ao lembrar a turbulenta adolescência do próprio cineasta. Seguindo a escola realista de André Bazin, seu mentor e um dos fundadores da Cahiers du Cinéma, o cineasta desenvolveu através de seu filme a ideia de que o mundo não é mal ou ruim, ele apenas "é como é", tal concepção favorece a criação de personagens não maniqueístas, cujas atitudes não podem ser compreendidas à luz da moral vigente...


Em Os Incompreendidos, o garoto Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud), uma espécie de alter-ego do diretor, se vê obrigado a conviver com a repressão imposta pelo professor na escola e em casa com a negligência dos pais, que não se importam tanto com ele e não conseguem enxergar e compreender suas carências e necessidades. Sua situação o leva a cometer atos condenáveis e o empurram para a delinquência, apesar disso, em diversos momentos, a sua postura é mostrada como a mais coerente, uma vez que tantos os seus pais, quanto as outras pessoas com quem ele convive, demonstram em diversos momentos que não conseguem lidar com os próprios problemas, o que os leva a comportamentos por vezes impulsivos e irascíveis, reações estas que os tornam tão ou mais reprováveis que ele, contudo eles estão na maioria das vezes em conformidade com a moral estabelecida, o que os garante uma imunidade diante do olhos da sociedade.


Em uma das sequências do longa, a mãe de Antonie parece querer se vingar dele por considerá-lo responsável pela descoberta de uma de suas imoralidades, tal situação exemplifica na história a fragilidade dos valores defendidos pela sociedade e a hipocrisia sob a qual eles se sustentam, este aspecto do filme no entanto não se configura como uma crítica social, mas sim como uma mera constatação do que seria o real, o que nos remete à já mencionada ideia de que os fatos sociais são o que são e estariam por isso acima das indagação morais. Este tipo de observação que Truffaut faz da realidade, que pouco incita o engajamento e a revolução, o distancia da politização defendida por Godard e torna seu cinema menos combativo e intelectualizado, o que consequentemente faz de seus filmes mais fáceis de cair no gosto popular e de serem  digeridos pelo espectador médio (boa parte de seus filmes foram sucesso de bilheteria na França).



O fato de não ser engajada politicamente não tira de forma alguma o mérito da obra de Truffaut, reconheço que analisá-la tão somente através de uma simples comparação com a filmografia de Godard seria uma grande injustiça, pois apesar de se assemelharem no experimentalismo técnico e no repúdio ao "cinemão" francês da época, seus estilos e suas respectivas marcas autorais são bem diferentes. A excelência do realizador de Os Incompreendidos não está em seu discurso, mas sim na sensibilidade do seu olhar, na forma com que ele captura as imagens e em seu jeito de narrar através delas a sua história. Neste filme estão presentes algumas das cenas mais memoráveis e emblemáticas da Nouvelle Vague francesa, como a aquela que mostra Antoine Doinel em um brinquedo num parque de diversões e a última sequência (que não pretendo contar), que é simplesmente perfeita... 


Os Incompreendidos marcou o início de uma duradoura parceria entre Truffaut e Jean-Pierre Léaud, eles trabalhariam juntos em diversos outros filmes e o personagem Antoine Doinel seria revisitado também em Beijos Proibidos (1968), Domicílio Conjugal (1970) e O Amor em Fuga (1979). A atuação de Léaud neste primeiro filme de Truffaut é ótima, ele, que era ainda um pre-adolescente, esbanja talento e maturidade para encenar cenas de grande complexidade dramática. O cineasta não cansava de elogiar a destreza da atuação do garoto, que conforme ele contou em diversas entrevistas, tinha segurança suficiente para ousar e improvisar durante as filmagens. Muitos vêm nesta relação profissional um pouco daquilo que o diretor já tinha vivido junto com o crítico e teórico André Bazin, em ambos os casos era uma relação entre mestre e discípulo, o mais experiente passando para o outro o seu conhecimento e o amor à sétima arte. Outro aspecto do longa que merece ser ao menos citado é a fotografia dirigida por Henri Decaë, ela confere ao filme uma beleza estética indescritível da primeira à última sequência... 


Com o perdão do trocadilho, Os Incompreendidos é um clássico obrigatório para qualquer um que se dedique a compreender a sétima arte, é um filme impregnado de beleza estética e de um sentimento vivo e pulsante, que não o deixam se tornar obsoleto. Esta obra-prima pode ser vista também como o marco inicial de intensas transformações que o cinema viveria nos seguintes em todo o mundo, aspecto este que por si só já seria suficiente para torná-lo indispensável. Ultra recomendado!


Os Incompreendidos ganhou o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes e recebeu uma indicação ao Oscar na categoria de Melhor Roteiro.

Assistam ao trailer de Os Incompreendidos no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra, 

segunda-feira, 26 de março de 2012

Vidas em Jogo

Vidas em Jogo (The Game) - 1997. Dirigido por David Fincher. Escrito por John D. Brancato e Michael Ferris. Música Original de Howard Shore. Direção de Fotografia de Harris Savides. Produzido por Ceán Chaffin e Steve Golin. Polygram Filmed Entertainment / USA.


Tire de um homem a ilusão de segurança que seu dinheiro e seu poder podem lhe oferecer e toda sua vida se transformará da noite para o dia; esta é a premissa que sustenta o roteiro de Vidas em Jogo (1997), filme que está cronologicamente situado entre duas das obra primas que ajudaram a consolidar o estilo e a marca autoral do cineasta David Fincher, a saber Se7en (1995) e Clube da Luta (1999). Falar sobre este filme não é uma tarefa fácil, uma vez que a menor revelação sobre seu roteiro pode estragar por completo e efeito dele sobre nós espectadores. Sua trama é similar a um carrinho de montanha russa, que após chegar ao cume, despenca em uma sequência enlouquecedora de loopings e reviravoltas, a partir das quais os trilhos parecem desaparecer deixando-nos totalmente à mercê, sem qualquer amenização que possa reavivar em nós a ilusão de estar seguro, que fora então perdida.

No epicentro da trama está o banqueiro Nicholas Van Orton (Michael Douglas), um homem solitário, arrogante e seco, que está completando 48 anos. O peso que o envelhecimento imputa sobre si é acentuado pelo fato de que nesta mesma idade o seu pai se jogou do telhado da mansão pertencente à família, a mesma onde ele continua morando. A chegada de seu aniversário o leva uma série de reflexões acerca de sua própria vida, ele começa então a se questionar o quanto estaria se tornado parecido com o pai suicida. A solidão e a melancolia o oprimem, contudo ele mantém a postura inflexível diante de seus empregados e subordinados. Nicholas continua confiante naquilo que suas posses e posição podem lhe dar, contudo um telefonema de seu irmão caçula, Conrad Van Orton (Sean Penn), a ovelha negra da família, anuncia a aproximação do topo da montanha russa e a queda que se seguirá...


A marca autoral de David Fincher está presente em toda a história, é perceptível a crítica que ele faz à alienação afetiva autoimposta por pessoas como o personagem central, que perderam completamente a noção do valor das coisas... Esta angulação que o roteiro dá ao filme pode ser interpretada como uma espécie de embrião da temática explorada em Clube da Luta, adaptação que o cineasta levaria às telas dois anos mais tarde. O que Vidas em Jogo propõe, ao nos induzir à uma reflexão a respeito da inércia de nossas próprias vidas, é uma desconstrução de todas as concepções que temos nós mesmos, ao fazer isso ele deixa algumas questão no ar: O que seria de nós se não fosse cada uma das coisas às quais nos amparamos em nossa busca pela realização e pela felicidade? Sem elas estaríamos condenados ao sofrimento ou isso acabaria abrindo os nossos olhos, possibilitando-nos descobrir assim o que fato é importante e essencial para nós?


Vidas em Jogo tem ótimas sequências de ação, contudo é o suspense angustiante de sua trama que o torna um filme imperdível e digno de ser colocado entre as obras primas de seu realizador. Com uma habilidade tamanha Fincher expande a tensão progressivamente, enquanto que o personagem principal é conduzido para aquele tipo de cenário tão característico de seus filmes, o submundo. A excelente fotografia dirigida pelo premiado Howard Shore ajuda a compor tal ambientação, à medida que a história avança, os cenários vão sendo tomados pelas sombras, que se tornam uma alegoria perfeita do estado psicológico do personagem... Algumas situações do filme (que obviamente não pretendo descrever) chegam a parecer absurdas, mas ainda assim elas acabam funcionam bem, não diminuindo em nada a grandiosidade da obra como um todo. Michael Douglas e Sean Penn estão ótimos, em atuações competentes e precisas; Douglas apoiado pelo elenco secundário, que também é bom, não deixa a peteca cair em nenhum momento.


Injustamente, Vidas em Jogo parece ter se tornado uma obra esquecida e deslocada na filmografia de David Fincher, um fenômeno estranho dada a sua excelente qualidade. Curiosamente ele demorou quase dois anos (isso mesmo, dois anos) para estrear nos cinemas nacionais e mais um bom tempo para ser lançado em DVD e hoje ele está praticamente esquecido por boa parte do público (a dificuldade de achar fotos dele na rede é uma clara evidência disso). Se você ainda não o viu, saiba que está perdendo um excelente filme, que certamente lhe impactará com seu suspense e suas reviravoltas. Ao assisti-lo tente não prestar atenção tão somente nas cenas de ação ou no drama do personagem principal, procure enxergar também as críticas sociais e as reflexões propostas pelo seu roteiro, pois são elas que o tornam digno de ser chamado de um verdadeiro filme de Fincher, um de seus melhores na minha opinião! Ultra recomendado!


Assistam ao trailer de Vidas em Jogo no You Tube, clique AQUI !

Confiram também aqui no Sublime Irrealidade as críticas de A Rede Social e de Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres, também dirigidos por David Fincher! 

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra, 
portanto não devem ser consideradas spoilers!

sábado, 24 de março de 2012

Deus da Carnificina

Deus da Carnificina (Carnage) - 2011. Dirigido por Roman Polanski. Escrito por Yasmina Reza e Roman Polanski, baseado na peça Le Dieu du carnage de Yasmina Reza. Música Original de Alexandre Desplat. Direção de Fotografia de Pawel Edelman. Produzido por Saïd Ben Saïd. Constantin Film Produktion, SBS Productions e SPI Poland / França |Alemanha | Polónia | Espanha.


Deus da Carnificina começa com um plano aberto que mostra o pátio de uma escola. De longe, como que para não induzir á parcialidade, alguns garotos são mostrado;, um conflito começa entre alguns deles, a câmera faz uma leva aproximação e mostra quando um dos meninos ataca outro com uma vara, atingindo-o no rosto... Toda esta sequência é conduzida pela trilha sonora de Alexandre Desplat, que já dá nestes primeiros minutos o tom aflitivo e ao mesmo tempo cômico, que o filme adotará em seu desenvolvimento. Terminados os créditos de abertura, que acontecem simultaneamente à esta sequência, somos levados para a residência de Penelope (Jodie Foster) e Michael Longstreet (John C. Reilly), os pais do garoto que fora ferido na briga. Nancy (Kate Winslet) e Alan Cowan (Christoph Waltz), os pais do garoto agressor, vão até lá para tentar resolver o problema da maneira mais civilizada possível, através do diálogo, no entanto não é isso que acontece... À medida que o roteiro avança, numa tempestade verborrágica, que só se faz intensificar, as máscaras socais de cada um dos personagens vão caindo e eles são desnudados, para serem assim compreendidos ou ao menos analisados.

A casa dos Longstreet é o cenário onde todo o filme se desenvolverá, a sala de estar se torna, tal como no teatro, um palco para a exploração dos conflitos que se dão entre os personagens, conflito este motivado pelo atrito entre as diferenças de suas respectivas visões de mundo e da intolerância nutrida por cada um deles. A dificuldade de perdoar e de compreender a posição do outro e o pré-julgamento que fazem, expõem um lado obscuro e animalesco do ser humano. Em um diálogo, na tentativa de justificar o próprio comportamento, um dos personagens diz: “eu acredito no Deus da carnificina, que reinou sobre todos nós há milhares de anos...”; vem desta declaração o título da obra, ela, dado o contexto no qual é dita, não poderia ser mais pertinente, uma vez que a mesma intolerância e egocentrismo que gera o conflito entre os personagens, é também aquela tem gerado conflitos de proporções e conseqüências bem maiores desde os primórdios da história da humanidade. No decorrer do filme, o comportamento e a racionalidade dos personagens se definham, passando pela infantilidade (o que nos remete à cena inicial do filme) até chegar à animalização, status no qual eles passam a reagir, não mais pela razão, mas tão somente pelos seus instintos, expondo assim uma natureza que chega a ser assustadora.


Roman Polanski não nos permite perder a noção de que estamos diante de uma encenação, uma alegoria, e não de algo que busque ser uma remontagem perfeita do real. O foco narrativo do filme, não é o caso envolvendo as crianças, nem os sentimentos dos quatro personagens centrais, mas sim a forma com que seus comportamentos, quando reunidos sob um mesmo teto, servem de metáfora para o comportamento social, com seus vícios de caráter e desvios morais. Ao analisarmos a obra por esta perspectiva, percebemos o quanto há de crítica social nela, tal viés se manifesta na abordagem de temas como a desestruturação familiar e a criação de filhos, onde se salientam os preconceitos e o egocentrismo... Em uma passagem um dos personagens se gaba de morar em Nova Iorque e de ter valores ocidentais, este comentário carregado de xenofobia é uma clara alfinetada em nós como sociedade, afinal tal como ele, achamos que somos mais civilizados, racionais e coerentes, que os demais quando na verdade às vezes basta um pequeno impulso pare que exibamos um comportamento digno de vergonha.


A convergência entre teatro e cinema, que o roteiro proporciona, não chega a ser um problema, como já o foi em diversas outras produções que tentaram seguir a mesma linha. O encontro entre as linguagens funciona bem na maior parte do filme, e mais que isso, ele serve ao propósito principal do longa, o de ser uma sátira social, esta conotação confere a Deus da Carnificina uma roupagem que nos remete à comédia de costumes como gênero, no entanto a acidez da trama não nos induz à gargalhadas e o absurdo que presenciamos causa mais estranhez do que risos. Este entrelaçamento entre linguagens diferentes influenciam diretamente nas atuações, Kate, Judie, Christoph e John esbanjam talento em seus respectivos papéis, suas atuações são inspiradas e cheias de técnica, porém vazias de sentimento (não confundir com o sentimento dos personagens), isto que poderia um problema também acaba funcionando a favor do filme, uma vez que o foco, como eu já disse, não está nos sentimentos nem na "verdade" das atuações, mas sim nos comportamentos dos personagens e em suas reações às atitudes alheias. 


A situação em torno da qual o filme gira, dois casais em conflito, nos faz lembrar do formato adotado por Quem Tem Medo de Virginia Woolf? (1967) de Mike Nichols, outro que saiu dos teatros para ganhar as telas. Apesar de sus histórias se firmarem sob circunstâncias diferentes, a semelhança transcende o formato e pode ser observada também na acidez de suas tramas, na verborragia e situações absurdas de seus roteiros e obviamente na crítica que ambos tecem à família como instituição e às máscaras sociais, atrás das quais muitos se escondem. Ambos quebram a camada de verniz social para assim descobrir o quão repugnante é o que existe por baixo, aquilo que tentamos manter oculto à vista dos outros.


Um dos aspectos que salvam Deus da Carnificina de se tornar mais uma obra falha na pretensão de aproximar a linguagem teatral da cinematográfica, é, sem dúvidas, a direção de Roman Polanski, a habilidade do cineasta de captar o essencial de situação e de manter um ritmo crescente durante todo o filme contam muito para o resultado final. Os enquadramentos, por vezes inusitados, ajudam a formar em nós espectadores a impressão de se estar invadindo aquele lar e explorando cada um dos personagens como animais presos em uma jaula. São percepções e detalhes como estes que comprovam que o filme é mais que uma mera transposição de um texto teatral, ele é cinema e cinema de ótima qualidade!


Acredito que assistir à peça seja uma experiência fantástica e talvez ainda mais forte que esta proporcionada pelo filme, mas a verdade é que Deus da Carnificina cumpre muito bem seu papel de adaptação, ele pode não ser a melhor obra do diretor, nem dos atores envolvidos, contudo é um filme que merece muito ser conferido, talvez até mais de uma vez, para que possamos assim compreendê-lo da melhor maneira possível...  Ao assisti-lo, preste atenção no timing preciso desenvolvido pelos atores nos diálogos, que se dão numa espécie de ping-pong, na trilha composta por Desplat, que marca cada uma das passagens em que ganha destaque e nas entrelinhas dos diálogos, pois são elas que fazem toda a diferença...  Não espere desta produção uma comédia pastelão, nem tão pouco um dramalhão, ela é apenas uma encenação satírica do lado mais feio e reprovável da natureza humana... Eu o recomendo para todos!


Deus da Carnificina estreou no Festival de Veneza, onde recebeu o Prêmio Pequeno Leão de Ouro. O filme recebeu duas indicações no Globo de Ouro na categoria de Melhor Atriz de Comédia ou Musical (Jodie Foster e Kate Winslet).

Assistam ao trailer de Deus da Carnificina no You Tube, clique AQUI

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra, 
portanto não devem ser consideradas spoilers!

terça-feira, 20 de março de 2012

Alien, o Oitavo Passageiro

Alien, o Oitavo Passageiro (Alien) - 1979. Dirigido por Ridley Scott. Escrito por Dan O'Bannon e Ronald Shusett, baseado no livro de Dan O'Bannon. Música Original de Jerry Goldsmith. Direção de Fotografia de Derek Vanlint. Produzido por Gordon Carroll, David Giler e Walter Hill. Brandywine Productions e Twentieth Century-Fox Productions / USA | UK.


São pouquíssimos os filmes de ficção científica que conseguem ultrapassar décadas sem se tornarem datados e consequentemente obsoletos, Alien, o Oitavo Passageiro (1979) de Ridley Scott é um destes, se por um lado o impacto dos sustos que ele provoca foi diminuído com o tempo, uma vez que algumas sequências hoje beiram o grotesco, por outro o suspense que conduz o seu ritmo permanece intacto, assim como a direção de arte, que mais de 30 anos depois, ainda consegue nos convencer de que a trama se passa de fato dentro de uma nave espacial, sem que esta se pareça com uma barca iluminada por pisca-piscas de natal. Apenas com algumas ressalvas, no que tange o visual dos personagens e o monstro propriamente dito, que nos remetem de imediato à época na qual o filme foi produzido, todos os outros aspectos fazem com que sejamos facilmente convencidos de que ele poderia ter sido filmado nos dias de hoje.

Alien realizou o elogiável feito de transpor os limites dos gêneros sob os quais sua trama está firmada, o terror e a  sci-fi., se tornando assim um venerado clássico cultque rendeu três continuações e mais alguns spin-offs caça niqueis. Todo o alarde em torno dele não é de todo injustificável, uma vez que ele vale a pena ser visto não só pelo fato de ter envelhecido bem, mas também pela sua inegável qualidade técnica e estética, pelos nomes envolvidos e pela excelente condução de seu suspense. 


Quase toda a trama de Alien se desenrola dentro da nave espacial Nostromo, que realiza uma espécia de arqueologia espacial, a embarcação é tripulada por 7 astronautas, figuras peculiares, cada um deles tem uma função específica na missão, da qual já estão de retorno. Eles estão já na rota de volta para a Terra, quando recebem uma mensagem, que não conseguem decifrar, vinda de um outro planeta, eles decidem pousar e investigar. Durante a missão de reconhecimento um dos astronautas é atacado por uma criatura que se gruda ao seu rosto, seus companheiros o socorrem e o levam de volta para a nave, deixando para trás o planeta desconhecido. Já na nave, após algumas tentativas frustradas da equipe, a criatura se desprende da face do homem e morre logo em seguida. Todos acreditam que a história está acabada e decidem continuar a viagem de volta, sem saberem que um novo tripulante está a bordo: o oitavo passageiro...


Em minha opinião, os melhores aspectos do filme continuam sendo a o peso da regência de Ridley Scott, a direção de arte e os efeitos visuais. Ridley é o responsável pelo filme não ter se tornado uma espécie de horror cômico, daqueles que chamam atenção mais pela sua falta de destreza em tentar nos assustar do que pelos seus atributos dramáticos e técnicos. A direção de arte e os efeitos visuais auxiliam à direção no árduo trabalho de fazer o longa se tornar aquilo que ele se tornou com o tempo: um clássico cultuado por diversas gerações de críticos e cinéfilos. Alien aproveitou da melhor forma possível a influência dos filmes de monstro e produções “B” das décadas anteriores, buscando nelas a temática, que seu roteiro sabiamente transformaria não tão somente em um terror convencional, mas em um intenso suspense psicológico...


A sensação de claustrofobia nos dutos e corredores escuros da Nostromo é indescritível, a ambientação neste caso causa mais apreensão que o próprio monstro. O alienígena raramente aparece em cena, o que torna menos risível sua imagem meio tosca (dada a tecnologia da época) e ainda aumenta o temor acerca de como e quando ele aparecerá novamente, fomentando desta forma o suspense da trama... Outro aspecto legal do filme é podermos através dele conferir o desempenho de atores, como John Hurt e Sigourney Weaver nos primórdios de suas carreiras; Hurt protagoniza uma das sequências mais memoráveis do filme e da história do cinema (a clássica cena do café da manhã), a Weaver interpreta aquela que é no mínimo uma das personagens mais importantes de toda a franquia... Contudo, as atuações em si não trazem praticamente nada de tão extraordinário.


Está prevista para 8 de junho deste ano, a estreia de Prometheus, obra mais recente de Ridley Scott, que promete ser uma espécie de prelúdio da franquia de Alien, este lançamente provavelmente provocará uma onda de revisitação à esta que foi a primeira obra a levar o monstrengo alienígena para as telas do cinema; aquele que embarcar nesta viagem espacial pela primeira vez irá se deparar com um dos filmes mais importantes e influentes do final dos anos 70, época prolífera de Hollywood, com um clássico bem envelhecido que continua funcionando maravilhosamente bem... Recomendo!


Alien ganhou o Oscar na categoria de Melhores Efeitos Visuais e recebeu 
uma indicação na de Melhor Direção de Arte.

Assistam ao trailer de Alien no You Tube, clique AQUI ! 

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra, 
portanto não devem ser consideradas spoilers!

sábado, 17 de março de 2012

O Capitão Saiu para o Almoço e os Marinheiros Tomaram Conta do Navio - Charles Bukowski

O Capitão Saiu para o Almoço e os Marinheiros Tomaram Conta do Navio de Charles Bukowski. Lançado postumamente em 1998. Com ilustrações de Robert Crumb.Tradução de Bettina Gertum Becker. Porto Alegre. L&PM Pocket, 1999.


Charles Bukowski nasceu e 1920 na Alemanha, filho de um soldado americano e de uma jovem alemã, aos três anos de idade ele foi levado pelos seus pais para viver nos Estados Unidos. Ele cresceu e passou a maior parte de sua vida na cidade de Los Angeles, convivendo desde cedo com a pobreza e com os marginalizados. Dos primeiros anos de sua vida no novo continente, ficariam as marcas da violência doméstica protagonizada pelo seu pai e a exclusão experimentada na escola e nos outros meios sociais que frequentava. Uma doença, que lhe causava inflamações na pele, lhe deixara com o rosto todo deformado, o que dificultava ainda mais a sua aceitação nos círculos, com os quais ele tentava interagir. Bukowski começou a escrever poesias quando ainda era um adolescente, por volta dos 15 anos, porém o reconhecimento só viria bastante tempo depois, já na década de 50, quando ele já estava beirando a casa dos quarenta. O sucesso seria o atalho para uma vida desregrada de intermináveis bebedeiras, jogatinas e frequentes orgias sexuais...

A obra de Bukowski tem sido frequentemente associada ao movimento beat, no entanto ele fazia questão de negar veementemente tal associação, ele se manteve suficientemente afastado daqueles que foram os principais nomes daquela corrente artístico-literária: Jack Kerouac (autor do clássico On The Road) e Allen Ginsberg. Contudo, tanto ele quanto os beatniks se tornariam parte de algo muito maior que ainda estava em fase de germinação: a contra-cultura. Bukowski, o último "escritor maldito" seria um dos precursores do desbunde cultural que ganharia ainda mais força durante a década seguinte. A crítica social, o desapego, o ideal do amor livre e a subversão, aspectos recorrentes de sua obra, estavam em perfeita sintonia com a ebulição do cenário político e cultural de sua época e não é exagero nenhum dizer que ele é parte da geração que ajudou a mudar o mundo - ainda que esta mudança não tenha sido aquela com a qual boa parte de seus contemporâneos sonharam...


"Talvez haja um inferno, será? Se houver, lá estarei e sabem o que mais? Todos os petas estarão lá, lendo seus trabalhos e eu vou ter que ouvir. Serei afogado por sua elegante vaidade, por sua transbordante autoestima. Se houver um inferno, este será o meu: um poeta atrás do outro lendo sem parar..."

O Capitão Saiu para o Almoço e os Marinheiros Tomaram Conta do Navio reúne escritos do diário de Bukowski, que compreendem um período que vai de agosto de 1991 a fevereiro de 1993. Em cada um dos breves relatos de seu cotiano, ele expõe de forma seca e bem direta a sua frustração com a própria vida, o desgosto em relação ao mundo à sua volta, a sua birra com os demais artistas e intelectuais e a "marginalidade", que sempre lhe foi tão característica. De acordo com os relatos publicados, a vida do escritor, que fora tão agitada, se resumia agora em visitas diárias ao hipódromo de sua cidade durante o dia  (as apostas continuavam sendo um de seus vícios) e em escrever, como se aquele dia fosse o último, durante a noite. Os depoimentos deixam claro que o que ainda o mantinha vivo era a sua compulsão pela produção literária e a companhia da esposa Linda, que ele cita em quase todos os fragmentos.


"Ficar velho é muito estranho. A coisa principal é que você tem que ficar constantemente dizendo a si mesmo estou velho, estou velho. Você se vê no espelho quando desce no elevador, mas não olha diretamente para o espelho, dá uma olhada de lado, um sorriso amarelo... Você já deveria estar morto há 35 anos. isto é uma cena a mais, mais uma olhada no show de horror..."

Talvez este não seja a melhor obra para uma iniciação na literatura de Bukowski, contudo ele funciona perfeitamente como um caminho para a mente do escritor, onde se encontram todo o peso de uma intensa vida de excessos e imoralidades, que só então cobrava o seu alto preço... O aspecto que mais me chamou a atenção durante a leitura do livro, foi a forma com que o escritor abre algumas de suas feridas não cicatrizadas e mostra a nós leitores o sangue que escorre ainda fresco. Ele fala abertamente de sua senilidade e dos inúmeros problemas inerentes à ela, tais como a falta de destreza física, a perda progressiva da visão e até da incontinência urinária. "Buk" comenta ainda a sua falta de paciência com fãs e jornalistas e principalmente o seu desapontamento com o  sucesso conquistado, que fora para si uma espécie de "ouro de tolo". De cada um de seus relatos emanam raiva, angústia e ressentimento, sentimentos estes que ora se levantam contra o mundo, ora contra os outros escritores, ora contra ele mesmo...


Curiosa, foi a forma com que acabei me identificando com boa parte de seus escritos. Eu enxerguei a minha atual realidade em seus relatos sobre a vida que já não era mais vivida, os dias que eram tão somente "empurrados" e a angustiante repetição da rotina. Em alguns momentos da leitura eu me via, tal como ele, como um velho rabugento que não suporta mais o peso de sua própria existência... No entanto após um pouco de reflexão percebi, que o sentimento emanado de seus depoimentos, não eram assim tão exclusivos da dita "melhor idade", mas sim algo passível de ser experimentado por todos que são obrigados pelas circunstâncias a se enquadrarem em uma vida mesquinha, que parece não ter sido feita para eles... 


O Capitão Saiu para o Almoço e os Marinheiros Tomaram Conta do Navio foi publicado quase quatro anos após a morte de Charles Bukowski, os fragmentos foram selecionados por ele mesmo pouco tempo antes de sua morte.

A edição do livro conta ainda com diversas ilustrações de Robert Crumb, que intentam retratar algumas das passagens contadas pelo escritor (vide imagem acima). 

O livro o é uma obra prima literária, mas ainda assim merece ser lido, creio que principalmente por aqueles que já estão familiarizados  com a obra do "velho safado" e que queiram embarcar nesta viagem pela sua mente atormentada e em constante ebulição!

Post dedicado à amiga Joicy Sorcière, pois foi por causa do artigo "Bukowski... cheio de estilo!", publicado por ela em seu blog, o Umas e Outras, que eu decidi comprar o livro... 


quarta-feira, 14 de março de 2012

Viver a Vida

Viver a Vida (Vivre sa Vie) - 1962. Escrito e Dirigido por Jean-Luc Godard, inspirado pelo livro Où en est la prostitution de Marcel Sacotte. Música Original de Michel Legrand. Direção de Fotografia de Raoul Coutard. Produzido por Pierre Braunberger. Les Films de la Pléiade e Pathé Consortium Cinéma / França.


Assistir a um filme de Godard é uma experiência única ao meu ver, é vivenciar, não tão somente o drama ou a ventura de seus personagens, mas a arte cinematográfica como um todo, que pode ser sentida como uma máquina pulsante, que trabalha à todo vapor, sendo desmontada e em seguida reconstruída, ciclicamente, sem que para isso seja necessário interromper seu pleno funcionamento. Por isso em seus filmes qualquer olhar reducionista e limitado pode prejudicar toda apreciação e todo o entendimento. Suas obras  geralmente trazem consigo uma gama de significados e conceitos, alguns aparentes e outros nem tanto, mas todos de extrema importância para uma plena compreensão de sua genialidade. Em seus filmes, entrelaçadas à trama e tão importantes quanto ela, estão a experimentação e a reinvenção constante do cinema como expressão artística e da forma com que se dá o "diálogo" com nós espectadores.

Tal como no modelo do Teatro Épico, proposto por Bertolt Brecht, nas obras de Godard o ser humano é apresentado como obejeto de investigação, passível de constantes transformações, e não como algo previamente conhecido e imutável, é justamente nesta característica que se encontra um dos principais vieses da reconhecida politização do cineasta. De acordo com tal visão, se o homem é um ser “inacabado”, ele pode ser instigado à permanente transformação, sendo que esta viria através da reflexão consciente, que é geralmente proposta pelo diretor/autor em seus roteiros. Este aspecto pode ser facilmente percebido na história e na montagem do excelente Viver a Vida (1962), uma de suas obras mais cultuadas.


Vivre sa Vie” (Viver a Vida) é uma uma gíria francesa usada como referência à prostituição, mas no filme, que narra as peripécias de Nana Kleinfrankenheim (Anna Karina), uma garota de programa, tal expressão ganha ainda uma outra conotação, falarei dela mais adiante, vamos primeiro à trama: Nana é uma linda jovem de 22 anos que deixou o marido e o filho, ainda bebê, para perseguir o sonho de ser atriz de cinema, o que ela não esperava é que a nova vida não seria nada fácil. Sem conseguir realizar suas pretensões, ela se vê compelida a se prostituir para se sustentar. O mote já trás explicita a conotação original da gíria, porém há a outra, que não está assim tão aparente, Vivre sa Vie” é também na trama uma referência à nossa existência, á condição que experimentamos quando tomamos ciência de quem realmente somos... No filme Godard brinca com a noção da realidade, criando assim uma alegoria do próprio cinema; em tons de metalinguagem ele propõe uma reflexão existencialista acerca de nossa percepção de nós mesmos, enquanto indivíduos, e da realidade à nossa volta.


Eu acho que sempre somos responsáveis pelo que fazemos, somos livres! Se eu levanto minha mão, sou responsável; se viro a cabeça para direita, sou responsável; se estou infeliz, sou responsável; se fumo um cigarro, sou responsável; se fecho os meus olhos, sou responsável... Eu esqueço que sou responsável, mas eu o sou...

Nana em um determinado momento do filme expõe seu desapontamento em perceber que por vezes suas palavras são vazias e mentirosas, mas a verdade é que elas não são assim por sua culpa, mas pelo simples fato de não pertencerem à ela, afinal ela é tão somente uma personagem (fato que o roteiro não faz questão de dissimular) e por mais que ela se afirme como responsável pelos seus atos, ela não o é... Ao se encontrar imersa em uma reflexão que lhe gera dúvidas profundas, Nana direciona seu olhar para a câmera, como se descobrisse pela primeira vez sua real condição, contudo, ela logo desvia o olhar e dá sequência ao diálogo, como se negasse aquilo que realmente é, penso que isto pode ser também compreendido como uma espécie de releitura da alegoria da caverna de Platão. 


Godard recorre ao modele de Brecht ao desconstruir a narrativa fílmica clássica, visando provocar com isso um desconforto em nós expectadores, que somos tirados da condição de público passivo e induzidos à reflexão e à tomada de decisões; isto pode ser observado em uma outra passagem, na qual um personagem recita um trecho de um livro de Edgar Allan Poe, que narra a história de um pintor que produzia um retrato de sua esposa, ele mergulha em sua arte de tal forma que a tela passa a ser sua realidade, só após termina-la e desprender-se dela, ele descobre que a sua esposa jazia morta atrás dele... Com esta história, por exemplo, somos instigados a questionar a nossa própria realidade; será que ela é de fato verdadeira, ou será que não passa de uma ilusão, assim como o quadro do conto, ou as sombras na caverna de Platão? A personagem central do filme se vê diante da mesma reflexão, ela no entanto é incapaz de responder por si, dada sua condição, mas nós não o somos, ao percebermos isso, abre-se uma porta para mudanças e transformações em nossa maneira de interpretar e de interagir com o mundo à nossa volta.


A inegável influência de Bertolt Brecht está também na montagem do filme, que faz com que cada sequência exista por si mesma, independente das demais. A trama é dividida em 12 partes e cada uma destas em "subtítulos" que anunciam de forma literal alguns dos acontecimentos daquela secção... A tensão é desenvolvida pelo andamento da trama e não pela prenunciação da solução dos conflitos dramáticos, aspecto também característico do Teatro Épico; esta constatação explica a forma seca com que Godard conclui o longa, sem catarse nem qualquer tipo de redenção, nem para a personagem, nem para nós nós expectadores... É interessante também a forma com a câmera relata a ação, capturando as imagens ora por ângulos improváveis, como na primeira sequência em que os personagens são focados pelas costas, ora de forma ensandecida, como na cena memorável em que Nana dança em um bar, se insinuando de forma sensual para os presentes.


Anna Karina é como sempre um destaque à parte no filme, sou meio suspeito para falar, pois para mim ela é uma das mais belas atrizes de todos os tempos, não tem como não se apaixonar por aquele olhar cheio de expressão e embebecido de sentimentos diversos... Acreditem ou não, ela chegou a acusar Godard, seu marido na época, de tê-la enfeiado no filme, acusação que, convenhamos, é simplesmente absurda! Ela, que atua durante quase todo o tempo com um cigarro entre os dedos e mantém uma postura constantemente sedutora, nos faz lembrar o estereótipo das femme fatales dos films noir da década de 40, porém a melancolia de seu olhar surge como um contraponto à tal imagem, tornando-a visivelmente sensível e angustiada.


Mas, não só de sua trama filosófica e de Anna Karina, vive o filme, dentre seus méritos estão também a bela fotografia em preto e branco dirigida por Raoul Coutard, contumaz parceiro de Godard e a áurea mágica dos anos 60, que ele exala junto o ranço característico das produções da Nouvelle Vague francesa, o que, resumindo, o torna praticamente perfeito em sua proposta. Este é um clássico obrigatório para todos os amantes da sétima arte! Dica: Ao assisti-lo preste atenção na passagem em que Nana assiste A Paixão de Joana D’Arc (1928) de Carl Dreyer e na memorável sequência em que ela contracena com o filósofo e ensaísta francês Brice Parain, que interpreta a si mesmo... Sim, é uma obra prima!


Assistam ao trailer de Viver a Vida no You Tube, clique AQUI !

Confiram também aqui no Sublime Irrealidade as resenhas de outros filmes de Jean-Luc Godard: Tempo de Guerra (1963)Bande à Part (1964)Alphaville (1965)!

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra, 
portanto não devem ser consideradas spoilers!

domingo, 11 de março de 2012

Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres

Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres (The Girl with the Dragon Tattoo) - 2011. Dirigido por David Fincher . Escrito por Steven Zaillian, baseado no livro de Stieg Larsson. Música Original de Trent Reznor e Atticus Ross. Direção de Fotografia de Jeff Cronenweth. Produzido por Ceán Chaffin, Scott Rudin, Søren Stærmose e Ole Søndberg. Columbia Pictures / USA | UK | Alemanha | Suécia.


Reconheço que um cineasta tem alguma marca autoral, quando suas obras, por mais diferentes que sejam entre si, trazem consigo algo que remete às demais e as interligam em algo maior, capaz de evocar um significado mais amplo que aquele observado individualmente em cada uma de suas produções. David Fincher é um exemplo perfeito disso e esta sua característica pode ser mais uma vez observada em Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres (2011). Esta que é seu mais recente trabalho transcende sua condição original de adaptação para se tornar uma obra pessoal impregnada com o toque autoral de seu realizador. Fincher parece fascinado com histórias vindas do “underground”, de um circuíto que está além da vida convencional cotidiana, tal aspecto pode ser observado em Se7en (1995), em Clube da Luta (1999), na alienação social do personagem principal de A Rede Social (2010) e no mergulho do personagem central de Zodíaco (2006) no caso que ele investiga; todos estes personagens adentram em mundo de imundícia e degradação moral, que serve, ora como metáfora daquilo que geralmente tentamos esconder em nossa própria realidade, ora como encenação verossimilhante da realidade tal como ela é.

Millennium segue este mesmo caminho, sua trama também nos conduz à uma incursão em submundo de perversão, ressentimentos e preconceitos. O desenrolar de sua história, que se passa na gélida Suécia, começa quando o jornalista investigativo Mikael Blomkvist (Daniel Craig) aceita a proposta do poderoso industrial Henrik Vanger (Christopher Plummer) de investigar o desaparecimento de sua sobrinha, que ocorrera há mais de 40 anos. Mikael fora desacreditado e teve a sua carreira arruinada após uma denuncia que escreveu e não conseguiu comprovar, ele foi processado e a sentença judicial lhe custou todas as suas economias. Sem outra alternativa e confiando na promessa de Henrik, que lhe garantiu que o ajudaria a reaver sua credibilidade, o jornalista parte para uma ilha, que fica no norte do país, onde o empresário e boa parte de sua família moram. Aquele lugar quase inóspito tinha sido provavelmente o cenário do crime que acontecera nos anos 60. Todos os caminhos possíveis para a investigação aparentam já terem sido percorridos por Henrik, mas este confia no tino investigativo do jornalista e o escolhe para a empreitada, na esperança de que ele possa perceber, ao revirar o passado, algum detalhe que lhe tenha passado despercebido... Dispensável dizer que os principais suspeitos são os próprios membros do clã desestruturado e desunido do empresário.


Mikael pede que tenha mais alguém à sua disposição, para lhe ajudar no processo de investigação, é então que lhe apresentam Lisbeth Salander (Rooney Mara), uma cyber punk sociopata que vive sob a tutela do Estado, foi ela quem traçou o perfil dele antes de ele ter sido escolhido por Henrik. O auto poder de dedução e de memorização que ela tem e o seu profundo conhecimento de informática, serão uma arma fundamental para que o mergulho no passado traga algum resultado relevante que possa levar ao responsável pelo desaparecimento misterioso da sobrinha do empresário. Lisbeth é uma das personagens através da qual o roteiro trabalha algumas de suas questões mais importantes, como as consequências da desestruturação moral e familiar e da convivência com o preconceito e a frieza da sociedade. Tanto o comportamento, quanto as habilidades da hacker parecem fazer parte de um mecanismo de auto-defesa criado como forma de adaptação à uma realidade machista e opressiva.


A trama que nos remete às história de Se7en e Zodíaco possuim sim algumas irregularidades, alguns aspectos quer não funcionam tão bem, mas creio que estes tenham sido herdados da obra literária e não concebidos pelo roteiro, contudo eles são irrelevantes diante dos fatores positivos do filme. A edição muito bem feita colabora com o a manutenção do suspense que vais crescendo à cada cena até chegar ao primeiro clímax, que acontece bem antes do final do filme, para depois ser remontado até chegar ao segundo clímax, que vem com desfecho, que por sua vez foi propositalmente concebido diferente do final do livro e do da primeira adaptação. A longa duração do filme (cerca de 2:40) parece passar em um piscar de olhos, se bem que é difícil piscar durante o filme, a fluidez da trama é excelente, o que seria um contraponto à produção sueca, que conforme dizem tem uma desenrolar mais lento e contemplativo.


Daniel Craig está muito bem em seu personagem, mas é Rooney Mara quem rouba cada uma das ceas em que aparece, ela está fantástica e seu mergulho no personagem vai muito além da maquiagem carregada, do figurino punk e dos inúmeros piercings que ela usa, ela protagoniza algumas das cenas mais fortes e marcantes do filme, que certamente permanecerão em nossa memória bastante tempo após o final da exibição... Fincher nos provou que tomou a decisão correta em tê-la escolhido para o papel, uma atriz sem tanto renome, ao invés de outras, já conceituadas, que estiveram cotadas ou que chegaram até a manifestar algum interesse, como Ellen Page, Mia Wasikowska,  Kristen Stewart, Anne Hathaway e Natalie Portman (se bem que eu ainda tinha um curiosidade enorme de ver a Natalie  papel, mas estou certo de que ele ficou em boas mãos).


Cheguei a questionar em alguns momentos, antes de assistir o filme, o porquê da história ter sido mantida na Suécia e não transportada, por exemplo, para algum ponto dos Estados Unidos, não que eu preferisse isso, mas teria sido o mais natural de acontecer, tendo-se em vista o histórico de adaptações cinematográficas e remakes que fizeram o mesmo. A resposta para esta minha dúvida surge já nas primeiras sequências do filme: A paisagem predominantemente branca e mórbida, que nos remete à frieza dos personagens, é de extrema importância para a composição do clima de frieza emocional que permeia o desenrolar da trama. Penso que nem nas regiões mais frias da América do Norte, o efeito poderia ser reproduzido com tamanho impacto. Tais quadros são capturados através de uma fotografia exuberante que acentua ainda mais a melancolia das locações escolhidas. O único lado negativo de terem mantido a história na Suécia é a estranheza provocada pelo idioma inglês, que parece quebrar um pouco da "verdade" da narrativa do filme. A trilha sonora composta por Trent Reznor e Atticus Ross casa perfeitamente com o suspense e a tensão da  história e é sem dúvidas outro aspecto elogiável do longa.


Ainda não assisti nenhum dos filmes que compõem a trilogia sueca, contudo acredito que seja uma injustiça considerar Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres (2011) um remake, uma vez que ele não parte da obra cinematográfica que o antecedeu, mas sim do texto original, o literário. Sem dúvidas ele merece ser lembrado mais como um filme de David Fincher, do que como mais uma adaptação de um best seller. Tê-lo assistido, despertou ainda mais a minha curiosidade de ver a obra sueca dirigida por Niels Arden Opley, contudo o mais curioso é que eu, leitor inveterado que sou, tenho ainda pouca curiosidade de ler os livros que compõem a trilogia escrita por Stieg Larsson... A minha recomendação é que você desconsidere alguns dos pequenos problemas da trama e mergulhe junto com os personagens no suspense provocado pelo mistério que eles tentam solucionar, estou certo de que a sessão valerá a pena! Ao assisti-lo se prepare para algumas cenas fortes, que definitivamente não são recomendadas para crianças, ou para aqueles que são mais sensíveis à violência nos filmes... para os demais ele é ultra recomendado!


Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres ganhou o Oscar na categoria de Melhor Montagem, tendo sido indicado também nas categorias de Melhor Atriz (Rooney Mara), Fotografia, Edição de Som e Mixagem de Som. No Globo de Ouro ele foi indicado nas categorias de Melhor atriz (Rooney Mara) e Melhor Trilha Sonora.

Assistam ao trailer de  Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres  no You Tube, clique AQUI !

Confiram também aqui no Sublime Irrealidade a crítica de A Rede Social, também dirigido por David Fincher!

Esta resenha não traz revelação da trama que não estejam já presentes  na sinopse ou
no trailer do filme!