quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Vivendo e Aprendendo

Vivendo e Aprendendo (Smart People) - 2008. Dirigido por Noam Murro. Escrito por Mark Poirier. Direção de Fotografia de Toby Irwin. Música Original de Nuno Bettencourt. Produzido por Michael Costigan, Bridget Johnson, Michael London e Bruna Papandrea. Miramax Films e Groundswell Productions / USA.


Eu sou um fã confesso do cinema indie americano e gosto muito das produções simplicistas e despretensiosas, nas quais ele aparenta ter se especializado, mas, ao contrário do que alguns cineastas pensam, não basta um drama leve, com ares de comédia de costume, e personagens desajustados para se fazer um bom filme neste estilo. Acreditar nisso parece ter sido o maior erro do diretor israelense radicado nos Estados Unidos Noam Murro, Vivendo e Aprendendo (2008), seu primeiro longa metragem, não é um filme ruim, ele é apenas tão desajustado quanto seus personagens. Falta nele uma melhor condução dramática e uma sutileza maior no trato com o desenvolvimento da história (abordarei melhor cada um destes pequenos problemas mais adiante), todavia, se ele peca em alguns aspectos, que são em sua maior parte técnicos, em outros ele até nos surpreende positivamente, dentre estes estão as atuações e a abordagem daquele que seria seu tema central, a carência de inteligência emocional.

A trama gira em torno de uma família desfuncional, composta por um pai, Lawrence Wetherhold (Dennis Quaid) e dois filhos, Vanessa (Ellen Page) e James (Ashton Holmes). Apesar de viverem debaixo de um mesmo teto, estes personagens estão afetivamente bem distantes um do outro. Lawrence, que não conseguiu superar a morte da esposa, se tornou um homem arredio e melancólico, ele, que é professor universitário, também se sente frustrado e injustiçado por ter um livro que escreveu recusado por diversos editores. Como era de se esperar o comportamento dele acaba afetando também o dos seus filhos. Vanessa é quase um espelho do pai, ela, crente de que é mais inteligente e esforçada que todos à sua volta, prefere se refugiar nos estudos do que se relacionar com seus colegas de escola e com seus familiares. Já James prefere curtir os prazeres da vida o mais longe possível de casa. 


Uma oportunidade da família se reaproximar surge quando Lawrence sofre um acidente e se vê impedido de dirigir por alguns meses, neste meio tempo seu irmão adotivo, Chuck (Thomas Haden Church), reaparecera em busca de ajuda financeira. Mesmo sabendo que Chuck não é confiável, Lawrence aceita lhe dar abrigo em troca de seus serviços (mal prestados, diga-se de passagem) de motorista. 

No hospital, Lawrence reencontrou Janet Hartigan (Sarah Jessica Parker), uma ex-aluna que nutrira uma paixão platônica por ele na época da faculdade e que hoje é médica. Revê-la o faz vislumbrar a possibilidade de recomeçar a vida, porém para isso ele precisará vencer diversos obstáculos, sendo que a maioria destes ele mesmo colocou em seu próprio caminho. 

Chuck e Janet apresentam uma nova visão de mundo para o professor e sua filha, Lawrence e Vanessa são levados a repensar suas próprias vidas e os malefícios resultantes da reclusão que eles se autoimpuseram.


Tanto o pai quanto a filha são muito inteligentes, porém ambos carecem de inteligência emocional, aquela que nos permite responder da melhor forma possível aos estímulos positivos e negativos que a vida nos impõe. Diversas cenas do filme mostram o quão desestruturada é a forma com que ambos reagem quando se veem diante de situações inesperadas e de adversidades. O filme trabalha muito bem esta temática, é legal ver o processo de auto descoberta e de abertura pelo qual os personagens passam e isso torna a história muito interessante. 

A trama nos leva a fazer o seguinte questionamento: Até que ponto o ar de superioridade que adotamos em determinadas situações não é tão somente medo de nos despirmos psicologicamente diante dos outros e de mostrar com isso que somos tão vulneráveis quanto qualquer um. No filme os personagens se refugiam por de trás de seus intelectos e nós, temos nos refugiado por detrás de que? 


Mesmo em meio a atores experientes, quem mais se destaca é a Ellen Page, ela está muito bem e seu desempenho comprovou mais uma vez aquilo que eu já venho dizendo a bastante tempo, ela é uma excelente atriz, que, se continuar fazendo as escolhas certas, trilhará uma carreira digna de todo o respeito. Dennis Quaid, Thomas Haden Church e Sarah Jessica Parker também estão bem, eles dão credibilidade e consistência aos seus respectivos personagens.

Penso que o grande problema do filme está na montagem, ela confere a ele um ritmo que não condiz com a sutileza da história contada; aparentemente não há um cuidado com a transição de uma sequência para outra e isso passa em alguns momentos a sensação de que os acontecimentos estão se atropelando, o que prejudica a percepção de que os personagens estão sendo transformados pouco a pouco.


Mesmo com os problemas na montagem e na narrativa Vivendo e Aprendendo merece ser conferido. Evidentemente não é o tipo de produção que agradará a todos, afinal o grande público geralmente não gosta de ver retratado na tela o drama de pessoas normais, nem da ausência de glamour e de heroísmo, mas para quem, como eu, curte este tipo de história certamente o saldo final será positivo... 


Assistam ao trailer de Vivendo e Aprendendo no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra,

Postagem dedicada à amiga Joyce Pretah, que me indicou o filme!

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Missão: Impossível - Protocolo Fantasma

Missão: Impossível - Protocolo Fantasma (Mission: Impossible - Ghost Protocol) - 2011. Dirigido por Brad Bird. Escrito por Josh Appelbaum e André Nemec. Direção de Fotografia de Robert Elswit. Música Original de Michael Giacchino. Produzido por J.J. Abrams, Bryan Burk e Tom Cruise. Paramount Pictures e Skydance Productions / USA | Emirados Árabes Unidos.


Ninguém que tenha visto os três primeiros filmes da franquia de Missão: Impossível e que esteja em sã consciência pode dizer que Protocolo Fantasma (2011), o quarto filme da série, é decepcionante, afinal ele repete a mesma fórmula que foi usada nos primeiros, com a excelente execução técnica que já é característica da franquia. Neste caso, repetição não pode, por si só, ser considerada um fator de frustração, uma vez que o público já sabe o que esperar do filme. Por mais absurdo que isto possa  parecer, o fato de o filme ser apenas mais do mesmo é o que o torna tão interessante e isso se deve ao fato de que não se espera dele nada de extraordinário no tocante à trama, atuações e demais aspectos artísticos. O público que curtiu os primeiros longas protagonizados pelo agente Ethan Hunt (Tom Cruise) quer apenas vê-lo salvar o mundo mais uma vez, de preferência em uma história que ofereça tão somente entretenimento leve e de fácil digestão.

Aceitando-se que a proposta de Missão: Impossível - Protocolo Fantasma não é a de ser uma obra de arte, ou a de alcançar uma significativa profundidade dramática, fica mais fácil enxergá-lo como um bom filme, o que de fato ele é. Brad Bird, diretor que tem no currículo duas animações vencedoras do Oscar  - Os Incríveis (2004) e Ratatouille (2007) - assumiu a direção do longa e realizou um excelente trabalho, digno dos mais sinceros elogios. Neste, que foi seu primeiro filme em live action, Bird demonstrou uma grande habilidade para conduzir cenas de ação e para manter uma tensão sempre crescente. Desde a primeira sequência o filme adquire um ritmo rápido, que mal dá tampo para o espectador respirar, uma cena de tirar o fôlego é sempre sucedida por outra tão impressionante quanto e esta enxurrada de ação é conduzida de uma forma que não permite que a história perca o sentido e a continuidade.


Não há nada de novo no roteiro escrito por por Josh Appelbaum e André Nemec, pode-se dizer que ela apenas remonta o mesmo tipo de situação que já fora vista nas outras produções da franquia. Como é comum acontecer em películas do gênero, a história busca seus fundamentos naquele que teria sido o período clássico da espionagem como a conhecemos, a guerra fria. O que vemos no filme é ainda um resquício do mundo bipolarizado e do embate entre os Estados Unidos e a antiga União Soviética. 

Em Missão: Impossível - Protocolo Fantasma estão presentes todos os elementos característicos dos filmes de agentes secretos, lá estão as perseguições, a corrida contra o tempo, os planos de fuga e os disfarces. Mesmo não sendo originais, estes elementos são muito bem explorados pela narrativa, que transita por questões complexas, mas sem se aprofundar nos temas políticos em que toca. 


No início do filme, o agente Ethan Hunt se encontra encarcerado em uma prisão russa, uma missão de resgate é enviada ao locar para libertá-lo, após escapar de lá ele recebe uma nova missão, ele deverá se infiltrar no  Kremlin (fortaleza russa) e roubar códigos secretos que serviriam para ativar um arsenal nuclear. Algo dá errado durante a execução da missão e o presidente dos Estados Unidos declara o Protocolo Fantasma, através do qual ele desativa a IMF (Impossible Missions Force), agência para a qual Ethan trabalha,  e este passa a ser considerado um extremista perigoso e se torna um foragido. Sem o apoio e os recursos oferecidos pela agência, o espião se junta aos remanescente de sua equipe, Brandt (Jeremy Renner), Benji (Simon Pegg) e Jane Carter (Paula Patton), para impedir que uma provável devastação nuclear  aconteça.


É inegável que a presença de Tom Cruise no elenco é um ponto positivo, eu sinceramente não consigo imaginar a franquia sem ele e sem o carisma de seu personagem, contudo sua atuação não tem nada de extraordinária, sua interpretação é pautada apenas pelo básico, o feijão com arroz, o que não é de todo uma problema, uma vez que o filme não lhe pede nada além disso. Vale a pena destacar o fato de ele mesmo, no auge de seus quase 50 anos, ter gravado algumas das sequências mais arriscadas do longa, feito que à primeira vista teríamos facilmente atribuído aos dublês. Jeremy Renner, Simon Pegg e Paula Patton embarcam no mesmo tipo de atuação automatizada e maniqueísta, o que, reforço, não é um problema tendo-se em vista a superficialidade da trama.


Como tem sido comum em boa parte dos filmes hollywoodianos, Missão: Impossível - Protocolo Fantasma realiza uma espécia de convergência entre gêneros, sem com isso perder seu rótulo principal que é o de filme de ação, ele flerta com a comédia, através de gags físicas e de tiradas feitas pelos personagens, e com o drama, trabalhado na história através da culpa e do ressentimento que dois dos personagens sentem, sendo que em um deles tais sentimentos são provocados pela morte de uma pessoa querida e no outro pelo fracasso na realização de um trabalho que lhe foi confiado. Em diversas produções tal tipo de flerte com gêneros distintos chega a ser um incômodo, por não ser feito na medida certa, porém, neste, apesar de totalmente dispensável, esta convergência é feita de uma forma sutil, que não chega a incomodar. As pitadas de humor presentes na trama é um dos diferenciais em relação aos outros filmes da franquia e se mostra como um viés a ser explorado em outros longas que provavelmente ela ainda renderá.


Missão: Impossível - Protocolo Fantasma é um ótimo filme pipoca, que funciona muito bem como entretenimento. Ao assisti-lo, preste atenção na excelente escolha das locações (o filme começa em Budapeste, passa por Moscou, Dubai, Bombaim e termina nos Estados unidos) e na sequência que se passa no Burj Khalifa, considerado o prédio mais alto do mundo... 

Este filme é uma boa pedida para uma sessão escapista após uma dia de elevado estresse, situação na qual posso garantir, por experiência própria, que ele funcionará muito bem. Recomendo!


Assistam ao trailer de Missão: Impossível - Protocolo Fantasma no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra,

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Monty Python em Busca do Cálice Sagrado

Monty Python em Busca do Cálice Sagrado (Monty Python and the Holy Grail) - 1975. Dirigido por Terry Gilliam e Terry Jones. Escrito por Graham Chapman, John Cleese, Eric Idle, Terry Gilliam, Terry Jones e Michael Palin. Direção de Fotografia de Terry Bedford . Produzido por Mark Forstater e Michael White. Michael White Productions, National Film Trustee Company e Python (Monty) Pictures / UK.


Monty Python em Busca do Cálice Sagrado é até hoje apontado como uma das melhores comédias já produzidas e isso não é nenhum exagero. Diferente da grande maioria dos filmes do gênero que são rodados hoje em dia, o longa, que fora dirigido, escrito e estrelado pelos então integrantes do elenco da série inglesa Flying Circus, explora um humor inteligente e visceral, que não subestima a capacidade intelectual do espectador. As piadas encenadas pela trupe remetem ao absurdo kafkiano e ao surrealismo, por serem desapegadas de qualquer noção de realidade e de coerência; elas são montadas geralmente em torno de assuntos sérios, que são desconstruídos de uma forma sarcástica e despudorada. Questões religiosas e políticas e temas tabus são abordados sem qualquer cerimônia, o que constitui um outro diferencial em relação ao humor produzido atualmente, que se encontra na maioria das vezes castrado pela imposição do 'politicamente correto'.

O caráter anárquico e libertário que pode ser percebido em toda a obra do Monty Python, surgido da transgressão de limites estéticos e temáticos, chamou a atenção de artistas e de intelectuais ligados à contra-cultura e à movimentos de contestação, com isso o grupo ganhou o respeito e a admiração da classe artística do Redino Unido e o mesmo aconteceu nos Estados Unidos depois do Flying Circus estrear na TV americana. Esta admiração que conquistaram ajudou a trupe em diversos momentos e um deles foi durante a produção de Monty Python em Busca do Cálice Sagrado, quando integrantes de bandas como Led Zeppelin e Pink Floyd se juntaram para investir no projeto. O mesmo aconteceria quatro anos depois, quando o filme A Vida de Brian (1979), que fora recusado por uma produtora por tocar em temas religiosos, pode ser rodado graças a ajuda financeira do ex-Beatle George Harrison.


Em Monty Python em Busca do Cálice Sagrado, os comediantes Graham Chapman, John Cleese, Eric Idle, Terry Gilliam, Terry Jones e Michael Palin constroem uma hilária sátira da história do Rei Artur, que se vale das  lendas da idade média para debochar da sociedade inglesa da década de setenta. A história do filme se desenvolve supostamente no ano de 932 e começa com a busca do monarca por homens corajosos que estejam dispostos a integrar o grupo dos Cavaleiros da Távola Redonda. Após formada a equipe, o rei dos bretões e seus novos seguidores, Sir Lancelot, Sir Robin, Sir Galahad e Sir Bedevere, recebem a missão divina (dada pelo próprio criador) de buscar o Santo Graal, o cálice sagrado que estaria em algum lugar do reino. A partir daí, cada um parte em uma direção, com sua respectiva comitiva, para tentar encontrar a relíquia.


O Rei Artur e cada um dos seus cavaleiros vivenciam situações absurdas na busca pelo cálice e estas situações são mostradas em esquetes, que remetem ao formato do programa televisivo da trupe, dentre as  mais engraçadas estão aquela na qual Artur se encontra com os cavaleiros que dizem 'ni' e a que mostra o Sir Lancelot invadindo um castelo para salvar um príncipe afeminado. Outras sequências, como a da batalha contra o cavaleiro negro e da passagem do Rei por um vilarejo que adota o anarco sindicalismo, também são memoráveis. 

Um fato curioso, que pode passar despercebido, é que uma das sequências, a que se passa em castelo repleto de mulheres sedutoras, foi refilmada em 1999, quando o filme foi relançado em DVD, a passagem original tinham cenas de nudismo e por isso a própria trupe decidiu tirá-la para baixar a classificação etária do filme. O desfecho da história, que obviamente não contarei aqui, revela algo que torna toda a trama ainda mais engraçada.


O enorme talento dos membros do Monty Python fica evidente em cada uma das caracterizações que eles dão para os diversos personagens que interpretam no longa, o timing cômico de cada um deles pontua e encerra no momento certo cada uma piadas, dando assim a deixa para a tirada que virá em seguida, sem que em momento algum a peteca caia. 

O legal é que tudo no filme é motivo para uma tirada, desde os créditos de abertura até a direção de arte e os efeitos visuais, os comediantes debocham de si mesmos e isto torna até a precariedade do filme engraçada. Em dado momento, por exemplo, um dos personagens revela que um castelo, que eles vêm admirados, trata-se na verdade de uma maquete. Este tipo de piada, feita com o próprio filme, é a saída encontrada para tornar a restrição orçamentária um ponto a favor e não contra, o que funciona perfeitamente. 


As filmagens de Monty Python em Busca do Cálice Sagrado foram bastante tumultuadas e não só pela escassez de recursos, Gilliam e Jones, que co-dirigiram o filme, tiveram que superar várias divergências que surgiram durante o processo criativo e Grahan Chapman, que interpretou o Rei Artur, foi por si só um dos maiores problemas a serem enfrentados, ele, segundo o que contam, esteve bêbado durante quase todo o tempo de gravação e por diversas vezes esqueceu as próprias falas e foi incapaz de encenar gags físicas (Chapman morreu em 1989 em decorrência de complicações provocadas pelo alcoolismo). 

Apesar de todos os percalços, o resultado final foi melhor do que o esperado; depois deste, o grupo ainda produziria como sua formação original mais dois longa-metragens, o já citado A Vida de Brian e o excelente O Sentido da Vida (1983), ambos clássicos do gênero.


O formato criado pelo Monty Python influenciou comediantes do mundo inteiro e tal influência pode ser percebida em programas que vão do Saturday Night Live ao Casseta e Planeta, e ainda em boa parte dos besteiróis que chegam às salas de cinema todos os anos. Uma pena que esta influência se deia, na maior parte das vezes, tão somente em relação ao formato e não ao conteúdo. Poucas comédias de hoje conseguem atingir o mesmo nível de sofisticação intelectual, o que é lastimável.  

Monty Python em Busca do Cálice Sagrado é uma obra-prima, reafirmo que se trata de uma das melhores comédias já realizadas, todavia, há que se reconhecer que ele explora um tipo de humor ao qual nem todos estão acostumados, suas tiradas nonsense podem causar algum estranhamento, principalmente na parcela do público que esperar encontrar nele os mesmos atrativo das comédias atuais. Por outro lado, para os que curtem um humor inteligente e ácido, este clássico continua sendo um verdadeiro deleite! 


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A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra,

sábado, 18 de agosto de 2012

Bonequinha de Luxo

Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany's) - 1961. Dirigido por Blake Edwards. Escrito por George Axelrod, baseado na obra literária de Truman Capote. Direção de Fotografia de Franz Planer e Philip H. Lathrop. Trilha Sonora Original de Henry Mancini. Produzido por Martin Jurow e Richard Shepherd. Jurow-Shepherd / EUA.


Alguns filmes se tornam clássicos pelas suas incursões dramáticas em territórios até então pouco visitados, outros pela inovação ou pelo experimentalismo técnico. Estes acabam de alguma forma marcando a produção cinematográfica de suas épocas e influenciando direta ou indiretamente aquilo que viria a ser produzido a partir de então. Bonequinha de Luxo (1961) se tornou um clássico sem se enquadrar em nenhuma destas duas categorias, sua trama chega a parecer inocente de tão despretensiosa e tecnicamente ele não traz nada de novo, todavia ele conseguiu se tornar um marco do período em que foi lançado e ainda quebrar a barreira do tempo, ao permanecer quase imaculado depois de passadas cinco décadas de seu lançamento.

Atribuo tal longevidade principalmente à presença de Audrey Hepburn, ela está radiante e não é exagero nenhum dizer que o filme é dela. A atriz está absurdamente cativante na pele de uma personagem que carrega consigo quase todo o encanto que emana do longa. Bonequinha de Luxo traz em sua história alguns elementos que se tornariam emblemáticos durante o restante da década de 60, dentre eles o desapego, o amor livre e a libertação sexual. Estes temas são tocados apenas de um forma superficial pelo roteiro, o que é uma evidente influência da época em que o filme foi lançado, na qual o conservadorismo ainda impunha limites à abordagem de determinados assuntos.


A personagem central do filme é Holly Golightly (Audrey Hepburn), uma garota que tenta a qualquer custo fisgar um homem rico e se tornar uma atriz de cinema, ela prega o desapego e seu único amigo é um gato, a quem ela se recusa a dar um nome. Suas convicções sobre os relacionamentos são postas em cheque a partir do momento que ela conhece o escritor Paul Varjak (George Peppard), que se muda para um apartamento vizinho ao dela. 

Paul vive às custas de uma amante, uma decoradora de interiores, que o sustenta enquanto ele tenta escrever seu primeiro romance. Holly e Paul acabam se conhecendo meio que por acaso e logo se tornam bons amigos. Ele no entanto sente algo mais forte por ela, mas quanto mais eles se aproximam, mais ele percebe o quanto ela é complicada e problemática, o que não ficara tão evidente no primeiro encontro. 


Mesmo tendo um comportamento na maior parte das vezes repreensível, Holly é uma personagem extremamente cativante, o que faz com que nos rendamos tão facilmente aos seus encantos, nos tornando assim incapazes de culpá-la por aquilo que ela faz. A inocência e a ingenuidade que lhe caracterizam provam que ela não é má, mas apenas alguém que não sabe o que quer e que é imatura demais para medir as consequências de suas ações. Suas atitudes se tornam mais compreensíveis para nós à medida que a conhecemos melhor e compreendemos a origem de seu drama


A Audrey Hepburn consegue, numa de suas melhores interpretações, dar credibilidade ao drama e aos momentos de felicidade vividos por Holly, ela consegue provar que o que tornou sua personagem um dos símbolos de uma época e uma das figuras mais lembradas do cinema, não foi tão somente sua beleza, mas também sua excelente atuação. 

George Peppard está bem, apesar de não ter o mesmo carisma de Audrey, ele consegue com seu desempenho criar um bom contraponto para a personagem dela, emprestando a Paul uma postura compassiva, quase paternal. O elenco secundário também é bom e muito bem utilizado, principalmente nas sequências de viés cômico. Na parte técnica, o destaque fica por conta da excelente trilha sonora composta por Henry Mancini, que é tão bela e singela quanto o próprio filme.


Bonequinha de Luxo transita pelo drama e pela comédia, mas sem jamais perder a leveza e é isso que o torna um filme tão delicioso de ser assistido, uma obra que encanta e comove pela simplicidade e pela delicadeza com que toca em temas bastante complexos, realmente uma clássico atemporal. Ultra recomendado!


Bonequinha de Luxo ganhou o Oscar nas categorias de Melhor Trilha Sonora Original e Melhor Canção (Moon River) e recebeu indicações também aos prêmios de Melhor Atriz (Audrey Hepburn), Roteiro Adaptado e Direção de Arte. No Globo de Ouro, ele recebeu indicações nas categorias de Melhor Filme de Comédia ou Musical e Atriz em Comédia ou Musical (Audrey Hepburn).

Assistam ao trailer de Bonequinha de Luxo no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra,

Confiram também, aqui no Sublime Irrealidade, a crítica de  Um Convidado Bem Trapalhão (1968), também dirigido por Blake Edwards!

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Pacto de Sangue

Pacto de Sangue (Double Indemnity) - 1944. Dirigido Billy Wilder. Escrito por Billy Wilder e Raymond Chandler, baseado na obra literária de James M. Cain. Direção de Fotografia de John F. Seitz. Trilha Sonora Original de Miklós Rózsa. Produzido por Joseph Sistrom e Buddy G. DeSylva. Paramount Pictures / EUA.


A expressão film noir foi usada pela primeira vez na França, em 1946, pelo crítico Nino Frank, a partir de  então ela seria empregada para classificar alguns filmes produzidos nos Estados Unidos, a grande maioria durante a década de 40, que traziam características em comum em sua trama e em seu aparato técnico. Os elementos que tornavam estes filmes semelhantes entre si foram vistos pelos franceses como um reflexo da ansiedade e do pessimismo, que eram sentidos pela sociedade durante a segunda grande guerra. Billy Wilder, cineasta que transitou com maestria por diversos gêneros cinematográficos, concebeu aquele que é considerado até hoje um dos primeiros e mais clássicos films noir já produzidos, o sombrio Pacto de Sangue (1944). Neste longa o diretor conseguiu reunir cada uma das características que mais tarde seriam atribuídas ao gênero, dentre elas a narração em off, as idas e vindas no tempo, o uso do contraste em luz e sombra e a trama cheia de mistérios, reviravoltas e traições. 

O personagem central de Pacto de Sangue é o vendedor de seguros Walter Neff (Fred MacMurray), já na primeira sequência do filme ele revela parte do desfecho da história, ele participara de um assassinato, um crime que envolvia um dos clientes da corretora onde ele trabalhava e que fora motivado pela sua ganância e pela sua paixão por uma perigosa mulher. Neff narra os trágicos acontecimentos que antecederam aquela noite, registrando tudo em um gravador, numa espécie de confissão direcionada ao seu chefe, Barton Keyes (Edward G. Robinson), antes de começar seu relato ele confessa: Fiz por dinheiro e por uma mulher. Fiquei sem o dinheiro e também sem a mulher.”. O filme volta alguns meses no tempo e ficamos sabendo como tudo começou; Neff fora visitar um cliente para renovar alguns seguros de automóveis, no entanto ao chegar na casa do homem, este não estava e o vendedor foi recebido pela esposa dele, a bela e sedutora Phyllis Dietrichson (Barbara Stanwyck).


Durante a conversa, Phyllis questiona Neff sobre a possibilidade de contratar um seguro de acidentes para o marido sem que ele saiba, o vendedor logo percebe qual é a real intensão dela, no entanto nenhum deles tocam abertamente no assunto. Dias depois ela vai até a casa dele e lhe conta sobre o seu plano malicioso. Ela pretende contratar o seguro em segredo e matar o marido logo em seguida, de forma que pareça para todos que a morte foi apenas um acidente. Completamente seduzido pela mulher, o vendedor de seguros decide participar do assassinato, da idealização à consumação. Concluído o plano, ele espera poder assumir sua relação com a viúva e dividir com ela o capital que fora segurado... Mas, como não existe crime perfeito, peripécias acontecerão e levarão o personagem principal ao estado no qual o vemos na primeira sequência do filme.


Phyllis Dietrichson personifina outro elemento de grande importância, presente na trama de praticamente todos os films noir, a femme fatale, personagem feminino geralmente caracterizado pelo alto poder sedução, pelo caráter dúbio e pela periculosidade que representa. Já Neff, personifica o anti-herói e, numa análise mais profunda, a própria falta de esperança característica do período.

O pessimismo que emana da trama pode ser percebido também na forma com que a indústria dos seguros é retratada, de um lado temos clientes tentando fraudá-la a qualquer custo e de outro temos a resistência dela em indenizar os sinistros, tentando, também a qualquer custo, provar que eles são frutos de ações ilícitas tramadas pelos segurados. A desconfiança que paira no ar, acentua o clima sombrio do filme e nos dá uma noção do contexto no qual os personagens estão inseridos.


A importância de Pacto de Sangue pode ser medida pela influência que ele exerceu e continua exercendo em outros filmes e na cultura pop, ele, como poucas outras produções, conseguiu reunir cada um dos elementos que caracterizam o gênero ao qual ele pertence, sem contudo parecer forçado, ele tem a seu favor a naturalidade de ter sido um noir rodado antes da existência do rótulo. 

Aquilo que fora tido com estranho na época de seu lançamento, como o roteiro não linear e a ausência de heróis, se tornaria uma fórmula batida com o tempo, no entanto, nele tudo funciona de uma forma surpreendente espetacular, o que não deixa dúvidas de que ele tenha envelhecido muito bem. Além da aura de clássico que ele possui, continua contando a seu favor o fato de ele possuir diversos diferenciais em relação à produção hollywoodiana de sua época, o que o torna interessante tanto como entretenimento, quanto como objeto de estudo sobre a evolução da linguagem cinematográfica.


Fred MacMurray e Barbara Stanwyck estão muito bem em seus respectivos personagens; as trocas de olhares entre eles durante o desenrolar da trama dizem muito a respeito de seus personagens e daquilo que roteiro deixa subliminar. Edward G. Robinson consegue com sua interpretação ser ao mesmo um alívio cômico e um atenuante do suspense, é de seu personagem algumas das falas mais memoráveis do filme.

Se no tocante à narrativa Pacto de Sangue aponta para uma nova forma de fazer cinema, no que se refere à técnica ele flerta é com o passado. Ele busca referências em um modelo clássico, o expressionismo alemão, para criar ambientações condizentes com sua trama. John F. Seitz, o diretor de fotografia, usa muito bem o contraste entre luz e sombra, o que confere ao filme um visual carregado, opressivo e claustrofóbico,  que reforça a composição de uma mise-en-scène que reflete o tormento psicológico do personagem central.


Não é por acaso que este clássico de Billy Wilder esteja presente hoje em diversas listas dos filmes mais importantes de todos os tempos. Ele é, inquestionavelmente, um clássico que merece e muito ser conferido. Recomendo! 


Pacto de Sangue recebeu indicações ao Oscar nas categorias de Melhor Filme, Diretor, Roteiro, Atriz (Barbara Stanwyck), Fotografia, Música e Som.

Assistam ao trailer de Pacto de Sangue no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra,

Confiram também, aqui no Sublime Irrealidade, a crítica de Farrapo Humano (1945), outro clássico dirigido por Billy Wilder!

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Sangue Negro

Sangue Negro (There Will be Blood) - 2007. Escrito e Dirigido por Paul Thomas Anderson, baseado na obra literária de Upton Sinclair. Direção de Fotografia de Robert Elswit. Trilha Sonora Original de Jonny Greenwood. Produzido por Paul Thomas Anderson, Daniel Lupi e JoAnne Sellar. Paramount Vantage, Miramax Films e Ghoulardi Film Company / EUA.


No livro A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo o economista e jurista alemão Max Weber, tido como um dos fundadores da sociologia, vincula o surgimento do modelo capitalista à doutrina pregada por João Calvino, teólogo cristão que apontou o enriquecimento como uma evidência da graça divina. O lucro, que durante muito tempo trouxera consigo o estigma do pecado, passaria a ser visto, após a reforma protestante, com bons olhos por diversas correntes que acreditavam na doutrina da predestinação, segundo a qual, a prosperidade era a mais notável evidência de que um homem nascera previamente destinado à salvação eterna... Em determinada passagem do livro, Weber ressalta que: "o homem é dominado pela geração de dinheiro, pela aquisição como propósito final da vida", para ele tal situação "expressa um tipo de sentimento que está intimamente ligado a certas ideias religiosas"... Ao rever Sangue Negro (2009) no último final de semana, pensei que seria interessante analisá-lo à luz de tal filosofia...   

A história dos Estados Unidos está diretamente ligada à esta teoria, pode-se dizer que a 'ética protestante' e o 'espírito do capitalismo' são dois dos alicerces mais importantes da formação daquele país. Da abstração filosófica proposta por Max Weber pode-se extrair dois arquétipos, o do homem de negócios sem escrúpulos e o do religioso dogmático. No épico Sangue Negro, o diretor e roteirista Paul Thomas Anderson cria uma situação conflituosa e insere nela um representante de cada um destes arquétipos; o primeiro, o capitalista, ganha expressão na figura do produtor de petróleo Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis), o segundo através do jovem pastor Eli Sunday (Paul Dano). Ambos representam de igual forma a distorção da moral constituída e das virtudes que deveriam resultar do comportamento ético de cada indivíduo; numa perspectiva mais ampla eles representariam o próprio Estados Unidos e a degradação da  consciência coletiva de seu povo, degradação esta que imputaria ao país um alto preço.


A primeira sequência de Sangue Negro mostra Daniel Plainview escavando sozinho um poço de petróleo (estamos em 1898), ele sofre um acidente durante a perfuração e com muito esforço consegue se safar da situação em se metera - esta sequência é de estrema importância para o filme. A segunda passagem, que acontece alguns anos depois, já mostra Plainview trabalhando com alguns empregados na perfuração de um outro poço (estamos em 1902), é notável que ele alcançou um relativo sucesso profissional nos anos que se passaram desde o evento mostrado nas primeiras cenas, além de ter diversos homens debaixo de sua autoridade, ele agora já tem uma estrutura mais avançada para extrair o petróleo. Nesta segunda sequência um novo acidente acontece e um homem acaba morrendo, Daniel então assume a responsabilidade pela criação do filho ainda bebê que o infeliz deixou... 

Mais um avanço no tempo (estamos agora em 1911) e desta vez vemos Plainview em uma conferência com donos de terras, ele está lhes oferecendo uma parceria, um comodato para a extração de petróleo em suas propriedades. Neste ponto da história Daniel já tem uma grande companhia de perfuração e seu poder já está consolidado, no entanto ele quer mais... Ele, que é dono de uma excelente oratória, passa a usar o filho adotivo, H. W. (Dillon Freasier), para facilitar suas transações negociais, a presença do garoto nos momentos em que ele fecha seus contratos reforça a imagem de 'empresa familiar', que ele usa para dar credibilidade à sua companhia...


O conflito dramático que sustenta o filme surge no momento em que um jovem vindo de outro estado, Paul Sunday (também vivido por Paul Dano), procura Daniel para lhe recomendar a compra de uma propriedade rural, que pertence à sua família. Estas terras estariam, segundo ele, em uma região onde o petróleo é tão abundante que brota naturalmente do chão. Mesmo desconfiado, Daniel paga uma grande quantia em dinheiro para Paul, como recompensa pela informação privilegiada que este lhe dera. 

Plainview parte junto com H. W. em uma expedição para conhecer a região onde a propriedade estava localizada, chegando lá ele se passa por um caçador de codornas para ganhar a confiança da família do rapaz e assim poder comprar as terras por um preço bem abaixo do que elas de fato valeriam. Mais uma vez a presença do menino dá credibilidade ao discurso que ele faz, o patriarca da família Sunday acada caindo fácil em sua lábia. No entanto, Eli Sunday, irmão gêmeo de Paul, não é tão ingênuo quanto o restante de sua casa, ele intervém na negociação que o pai estava fazendo e consegue fechar a venda por um valor bem mais alto do que aquele que fora inicialmente proposto. 


Ao comprovar suas expectativas em relação à abundância de petróleo na região, Daniel decide comprar também as propriedades da vizinhança, é então que seus interesses começam a entram em conflito com os de Eli Sunday... Eli, apesar de jovem, é um respeitado líder religioso, através de seus sermões ele exerce uma grande influência sobre a população local, todavia, com a chegada de Plainview, ele percebe que o controle que detém sobre aquelas pessoas simplórias pode estar com os dias contados. O que se dá a partir de então é um verdadeiro embate para ver quem é capaz de exercer maior influência e de deter o maior poder. Para ambos o enriquecimento se torna a principal meta a ser alcançada e para consegui-lo eles passarão por cima  de tudo, inclusive de seus próprios princípios e de suas próprias dignidades.


Apesar de serem personagens antagônicos, Eli e Daniel não são tão diferentes entre si, eles são regidos por um mesmo código moral e por uma mesma determinação. A sede de poder, que ambos detêm, os conduzirão no decorrer do filme à situações nas quais eles se verão diante de contundentes dilemas morais e éticos. Como eu já havia dito, estes dois personagens representam arquétipos que podem ser facilmente associados à formação dos Estados Unidos como nação, a teoria weberiana, que associa o capitalismo à doutrina protestante da predestinação, aproxima ainda mais o comportamento social dos dois. À luz de tal pensamento, compreendemos que os comportamentos de Eli e de Daniel podem constituir um fato social resultante dos princípios que norteiam a sociedade na qual eles estão inseridos.


Paul Thomas Anderson incluiu a primeira sequência no filme para nos mostrar que Daniel  Plainview é um típico self made man, ele começou do nada e construiu seu império sozinho, sua condição de 'vencedor' o torna uma pessoa agraciada segundo a ótica da doutrina de João Calvino e admirável de acordo com o 'espírito capitalista'. Max Weber, recorrendo às ideias do escritor puritano Richard Baxter, escreve : "De fato, se Deus, cujas mãos os puritanos viam em todas as ocorrências da vida, aponta para um de Seus eleitos uma oportunidade de lucro, este deve segui-la com um propósito, de modo que um cristão de fé deve atender a tal chamado tirando proveito da oportunidade". De acordo com este pensamento, Daniel seria um exemplo vivo de cristandade e sua prosperidade comprovaria que ele é um dos predestinados à salvação.  Irônico não?


Eli Sunday, por sua vez, é tão capitalista e ambicioso quanto o explorador de petróleo, a fantasia de espiritualidade que ele veste esconde sua verdadeira pretensão, o acúmulo de bens materiais. Em determinada passagem ele tenta extorquir dinheiro de Daniel para reformas em sua igreja, à primeira vista esta parece ser uma boa intenção, mas ela não é, o que o jovem pastor quer realmente é dinheiro e poder; ele espera que ao fortalecer sua igreja, como instituição, ele também será forte. Na história o comportamento dele é tido como um exemplo de retidão e não é por acaso que ele consegue exercer um influência tão forte na população local, suas atitudes são condizentes com a doutrina que aponta a prosperidade como evidência da graça divina. Eli é portanto um capitalista nato, ele é dominado pelo dinheiro e suas atitudes são guiadas pela sua ambição. 


As personalidades de Daniel e de Eli acabam se confundindo quando observadas a partir desta ótica e é nesta simples constatação que está uma das sacadas geniais do roteiro do filme. Tomando-se como base os princípios morais, pelos quais os dois personagens são guiados, nenhum deles pode ser considerado um vilão, apesar de suas atitudes serem potencialmente reprováveis. A complexidade do comportamento de ambos nos instiga à reflexão, reflexão esta que me levou à questão dos arquétipos que mencionei no início desta resenha, se o explorador de petróleo e o pastor são representes de aspectos da formação cultural dos Estados Unidos, há portanto no filme uma contundente crítica ao american way of life, o que fica evidente na progressiva decadência moral e ética que os personagens experimentam. Não é a toa que o desfecho do filme acontece durante um período da história americana que ficaria marcado pela queda da bolsa de Nova Iorque... Concluo portanto que o filme é uma contundente crítica aos Estados Unidos e à moral que os guia como nação desde que se tornaram independentes.


A grandiosidade artística de Sangue Negro, no entanto, não se deve apenas à complexidade de seu roteiro e às diversas reflexões e interpretações que ele evoca, ela se deve também a cada um dos aspectos técnicos, que o compõem em sua totalidade de uma forma tão impecável. A trilha sonora original, composta pelo Jonny Greenwood (guitarrista do Radiohead), é soberba, ela pontua cada momento de tensão do filme e ainda acentua em diversos momentos a confusão psicológica e os conflitos do personagem central. 

A fotografia é simplesmente um deleite para os olhos, ainda que fosse apenas uma sequência aleatória de imagens o filme mereceria ser visto, tamanha beleza de cada um de seus enquadramentos (que nos remetem à estética dos westerns clássicos) e o mais interessante e importante é que a fotografia não é tão somente um embelezamento, ela funciona perfeitamente como um dos principais elementos da narrativa. A reconstrução de época que Sangue Negro faz também é perfeita, com destaque para os figurinos, cenários e para a excelente direção de arte.


Todo o elenco do filme está muito bem, o jovem Paul Dano está ótimo em seu personagem, no entanto o maior destaque, não só dentre as atuações, mas de de todo o filme, é o desempenho de Daniel Day-Lewis, ele está formidável, transbordando verdade em cada gesto, olhar e palavra, chega a ser assustador contemplá-lo em um de seus rompantes de raiva e violência, definitivamente ele não é um ator, é um monstro! Sem medo de estar exagerando, afirmo que Sangue Negro está à altura de alguns dos maiores clássicos da história da sétima arte e é sem dúvidas um dos filmes mais bem realizados de nosso tempo,  obrigatório para qualquer um que se disser cinéfilo. Ultra recomendado!


Sangue Negro ganhou o Oscar nas categorias de Melhor Ator (Daniel Day-Lewis) e Melhor Fotografia, tendo sido indicado também aos prêmios de Melhor Filme, Diretor, Direção de Arte, Roteiro Adaptado, Montagem e Edição de Som. No Globo de Ouro ele venceu na categoria de Melhor Ator em um Filme de Drama (Daniel Day-Lewis), além recebido uma indicação na de Melhor Filme de Drama.

Assistam ao trailer de Sangue Negro no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra,

domingo, 5 de agosto de 2012

Gosto de Cereja

Gosto de Cereja (Ta'm e Guilass) - 1997. Escrito, Dirigido e Produzido por Abbas Kiarostami. Direção de Fotografia de Homayun Payvar. Abbas Kiarostami Productions, CiBy 2000 e Kanoon/ Irã | França.


"Você não entenderia. Não que você não tenha entendimento, mas você não pode sentir o que eu sinto. Você pode ter empatia, compreender, mostrar compaixão, mas sentir a minha dor não. Você sofre e eu também, eu te entendo, você compreende a minha dor, mas não pode senti-la..."

Badii (Homayoun Ershadi) é um homem de meia idade que está amargurado, ele planeja dar cabo da própria vida tomando uma overdose de remédios para dormir. Depois de ingerir os medicamentos ele pretende se jogar em uma cova que fora cavada em uma região árida nos arredores de Teerã, capital do Irã. Ele aparentemente tem apenas uma preocupação, o que será feito dele, ou de seu corpo, na manhã seguinte à tentativa de suicídio, é por isso que ele procura alguém que se disponha a ir à cova quando o sol raiar. Segundo as instruções que ele dá, este alguém deverá chamá-lo pelo nome ao chegar ao local e ajudá-lo a sair da cova se ele responder, mas caso ele não responda, a pessoa deverá cobrir o buraco com vinte pás de terra. Baddi oferece uma alta quantia em dinheiro para aquele que aceitar o serviço.

Na tentativa de encontrar quem faça o trabalho, Baddi circula de carro nos arredores da cidade e aborda estranhos que encontra pelo caminho. Apesar de já sabermos de antemão o que o personagem pretende (seu plano suicida é mencionado em quase todas as sinopses do filme), sua intenção permanece um tanto obscura nos primeiros minutos do longa, somos então levados a crer que ele é na verdade um homossexual e que o trabalho bem pago que ele oferta estaria de alguma forma relacionado à sua sexualidade, ledo engano. O primeiro homem que ele aborda tem esta mesma impressão preconceituosa e reage de uma forma um tanto agressiva. Depois deste, ele aborda outros cinco homens, no entanto a sua real intenção só é revelada no terceiro diálogo. Apenas três dentre os seis homens que Baddi aborda aceitam a carona que ele oferece.


Gosto de Cereja (1997) tem sido frequentemente apontado como um filme minimalista, eu no entanto considero tal apontamento um grande equívoco. Eu acredito que a forma com que cada expectador interage com um filme é o que determina a relevância dele como obra de arte, é consonante com este ponto de vista que defendo que um filme que nos ofereça tudo já mastigado tem pouca ou nenhuma relevância artística; Abbas Kiarostami também aparenta acreditar nesta premissa, o impacto que seu filme é capaz de provocar não está tão somente em sua trama ou em seus diálogos, mas na forma com que nós expectadores ensaiamos reflexões diversas a partir de cada um destes aspectos. É nossa interação com o filme que irá determinar se ele é minimalista ou não, quanto maior for nosso diálogo filosófico com ele, maior também será a sua complexidade dramática e artística.

E se o efeito provocado pelo filme depende diretamente da forma com que cada expectador interage com ele, é natural que surjam várias interpretações diferentes da história que ele conta e da representatividade de cada um de seus personagens. Eu pretendo nesta resenha comentar um pouco da minha interpretação da obra, entendendo, no entanto, que ela pode resultar em algo diferente ou até divergente daquilo apontado em outras tantas análises já publicadas sobre o filme. O roteiro dele é construído como uma espécie de parábola, onde cada um dos personagens representa algo maior, uma ideia, uma classe e até uma determinada moral... Um soldado curdo, um seminarista afegão e um taxidermista turco são os três personagens que entram no carro de Badii. Entendo que cada um dos passageiros representa um dos três pilares que sustentam a sociedade iraniana: o exército, a religião e a sabedoria popular (que não deixa de ser um tipo de filosofia).


Através do drama vivido pelo personagem central, Abbas Kiarostami coloca em evidência um dos maiores dilemas morais da humanidade, o suicídio. Numa análise mais detalhada do comportamento de Baddi, percebemos que talvez a intenção dele não seja de fato a de se matar. Chega a nos soar estranho o quanto ele se prende à uma outra questão (de relevância tanto cultural, quanto religiosa para seu povo), o enterro. Surge então a pergunta: Se ele quer se matar (ato que representaria uma espécie de ruptura com a moral vigente), por que então ele se preocupa com uma outra questão religiosa bem menos relevante? Acredito que uma possível resposta para esta pergunta esteja na interação dele com cada um dos outros personagens.


Baddi aborda sempre homens solitários, em determinada passagem ele desiste de conversar com um rapaz  que está à beira da estrada ao descobrir que este está acompanhado de outro, esta seleção que ele faz antes de cada abordagem indica que está procurando alguém que sinta algo parecido com aquilo que ele sente, não por acaso, os três que entram em seu carro são estrangeiros vindo de países vizinhos, a condição deles nos remete à situação do próprio Baddi, que se enxerga como um estranho em um mundo do qual não faz parte. Sua insistência em fazer perguntas, algumas delas repetidas, indica obviamente que ele está em busca de repostas. Ao meu ver, ele quer continuar vivendo e por isso busca em pessoas que lhe são semelhantes a motivação necessária para desistir de atentar contra a própria existência. O soldado, o primeiro que aceita entrar no carro de Baddi, é um rapaz tímido e recessivo, que foge ao se ver diante de um dilema moral, é uma clara referência à irracionalidade e à passividade ideológica do exército e dos integrantes de suas fileiras.


O seminarista, segundo a entrar no carro de Baddi, representa a incapacidade da religião de oferecer respostas satisfatórias para determinados questionamentos. O religioso, quando se vê diante do dilema moral, cita passagens do Alcorão e tenta dissuadir o interlocutor de seu intento, contudo sem conseguir emitir uma opinião própria, que se baseie em experiências práticas, permanecendo preso à teorização do livro sagrado, que cita como se fosse uma verdade absoluta. O terceiro a pegar carona com Baddi é o taxidermista, que representa o conhecimento popular e a experiência de vida, é o único a quem o personagem central não bombardeia com uma sequência de perguntas. Este homem acaba conduzindo Baddi a uma reflexão que até então ele não tinha feito, no entanto tudo isso se esvai à medida que percebe a fragilidade de toda a sabedoria que aquele senhor aparenta ter. 


Os outros três personagens com quem Baddi interage, os que não entraram em seu carro, também representam o que seriam vícios de comportamento, o primeiro é preconceituoso, o segundo se recusa a aceitar o 'serviço' sem saber do que se trata, por se julgar incapaz de qualquer coisa e o outro é impedido pelo comodismo e pela inércia. Se o soldado, o seminarista e taxidermista  representam alguns dos pilares da civilização árabe, os outros três alegorizam o próprio povo, que se mostra alheio à reflexão moral impulsionada pela discussão de um tema polêmico. Abbas Kiarostami explora tudo isso de uma forma maravilhosa no filme, o desfecho que o cineasta dá para a trama reforça ainda mais o tom de parábola que Gosto de Cereja tem.


Tecnicamente também o filme foi muito bem realizado, sua fotografia salienta a alienação moral e a solidão experimentadas pelo personagem central e por aqueles com quem ele interage. A grande maioria das tomadas são feitas de dentro do carro e desta perspectiva percebemos o quando Baddi se encontra separado do mundo à sua volta, o veículo se torna em diversas passagens uma barreira entre ele e as outras pessoas, por isso há uma clara diferença entre os personagens que aceitam entrar no automóvel e os que não. Cada um dos atores foi filmado separadamente, tendo o próprio cineasta como interlocutor, a composição dos diálogos foi feita na montagem do filme; é incrível como isso se reflete no tom das conversas entre os personagens, eles são frios e interagem como se não tivessem nem um pouco de compaixão pela situação vivida pelo outro. A aparência desértica da região onde a trama se passa, por sua vez,  nos remete a ressequidão emocional dos personagens e à condição na qual a vida de cada um deles se encontra.


Gosto de Cereja é do tipo de filme que é capaz de nos levar à reflexões que permanecerão durante dias após sua exibição, nele, como eu disse, o que importa não é a trama ou os personagens, mas a leitura que nós expectadores faremos deles e as indagações às quais tal leitura nos levará. Eu estaria sendo reducionista se o classificasse tão somente como um filme sobre suicídio, porque ele é muito mais que isso, é também sobre o embate entre a ética pessoal e a moral estabelecida, sobre a manipulação imposta pelas instituições que regem a sociedade e numa última instância sobre os prazeres simples que tornam a vida suportável, prazeres que vão do sentir o gosto de uma cereja à uma entrega coletiva em um processo de produção artística... Resumindo, Gosto de Cereja é um filme maravilhoso, uma das diversas obra-primas produzidas em um país que detém uma das cenas cinematográficas mais belas, impactantes e importantes da atualidade. Recomendo para aqueles que se dispuserem a mergulhar em uma reflexão que pode ser tão bela quanto incômoda! 


Gosto de Cereja dividiu a Palma de Ouro, prêmio máximo do Festival de Cannes, com o filme japonês A Enguia.

Assistam ao trailer de Gosto de Cereja no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra,