segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge

Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (The Dark Knight Rises) - 2012. Dirigido por Christopher Nolan. Escrito por Christopher Nolan, Jonathan Nolan e David S. Goyer,  inspirado na HQ escrita por Bob Kane.  Direção de Fotografia de Wally Pfister. Música Original de Hans Zimmer. Produzido por Christopher Nolan, Charles Roven e Emma Thomas. Warner Bros. Pictures, Legendary Pictures, DC Entertainment e Syncopy / UK | USA.


A cada novo filme do Christopher Nolan confirmo que o trocadilho "in Nolan we trust" é de fato aplicável, afinal ele vem construindo uma filmografia merecedora de respeito e dos mais sinceros elogios. Seu grande diferencial como realizador está no fato de que ele, mesmo atuando no cerne da indústria hollywoodiana, tem conseguido manter um nível de qualidade em seus trabalhos que está bem acima dos padrões do cinema comercial. Nolan tem provado que qualidade técnica, profundidade dramática e ousadia podem caminhar juntas com a expectativa de lucro das produtoras, ao contrário do que muitos outros realizadores parecem acreditar... Com o tempo criou-se o paradigma de que apenas obras de fácil digestão são rentáveis e capazes de cair no gosto do público médio, isto fez e continua fazendo com que o nível de qualidade fosse nivelado por baixo, o que explica a quantidade de lixo cinematográfico que é lançado todos os anos. Ainda que seus filmes dividam a opinião do público, Nolan tem mostrado que a premissa acima não precisa ser uma regra e que o cinema mainstrean pode sim ser o celeiro de obras que oferecem um entretenimento de qualidade, sem tantos clichês e maniqueísmos - Os dois primeiros filmes do Batman que ele tinha dirigido já eram claros exemplos disso.

Durante algum tempo Nolan foi relutante em dirigir mais um filme do herói, em entrevista ele chegou a afirmar que não o faria enquanto não estivesse emocionalmente envolvido com o projeto, contudo, ele acabou sendo motivado pela expectativa de dar uma conclusão satisfatória para a história, que começara a ser contada em Batman Begins (2005). Um terceiro filme certamente traria consigo o desafio de superar, ou ao menos se igualar ao seu antecessor, o excelente Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008), o cineasta sabia disso e por isso encarou a missão de concluir a trilogia com tanto receio e cautela. Acredito que diversos outros cineastas teriam aceitado esta difícil empreitada sem tantas preocupações, afinal ainda que o novo filme não fosse bom, ele provavelmente seria ao menos rentável, devido às expectativas do público que se mantinham em alta. Nas mão de outro diretor o longa poderia ter se tornado apenas mais um caça níquel, daqueles que jamais deveriam ter sido realizados, como é o caso de tantos outros filmes de super-heróis, inclusive alguns do próprio vigilante de Gotham. 


A história de Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012) se passa oito anos depois da morte do promotor Harvey Dent (vivido por Aaron Eckhart no filme anterior). Muita coisa mudou em Gotham desde então, graças a aprovação de uma lei que permitiu que criminosos de alta periculosidade fossem presos sem direito a liberdade condicional. Durante todo este tempo o  Batman (Christian Bale) foi tido como um assassino, ele assumiu para si a culpa pela morte de Dent, para preservar a boa imagem que este tinha e a mudança social que ele havia iniciado com o seu trabalho na promotoria. Neste período em que a cidade esteve em paz o Batman   não apareceu e a população passou a acreditar que não precisava mais dele. Alguns poucos ainda guardavam boas lembranças do período em que ele esteve em ação, dentre eles o Comissário Gordon (Gary Oldman) e o jovem policial John Blake (Joseph Gordon-Levitt). 


Bruce Wayne, que se tornou recluso e amargurado, ainda traz em seu corpo, agora debilitado, e principalmente em sua alma as marcas da batalha anterior, no entanto uma ameaça de grandes proporções faz com que ele volte à ativa, esta ameaça é representada pela chegada de Bane (Tom Hardy), um  mercenário, membro excomungado da Liga das Sombras, que trabalha junto com John Daggett (Ben Mendelsohn), um empresário que ambiciona assumir o controle da Wayne Enterprises. Selina Kyle (Anne Hathaway), uma ladra profissional, também se associa a Daggett em troca do "Ficha Limpa", um programa que poderia ajudá-la a apagar os registros que a polícia detém sobre o seu histórico de crimes. Outra personagem importante é Miranda Tate (Marion Cotillard), uma ativista de causas ambientais e sociais, ela é uma das investidoras do projeto atômico que estava sendo desenvolvido pela Wayne Enterprises, que fora cancelado pelos riscos de gerar uma arma de destruição em massa.


A grande genialidade do roteiro de Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge está na forma com que ele desenvolve cada um dos personagens. Boa parte deles, incluindo alguns secundários, possuem motivações próprias, que guiam seus atos e dão a eles uma nível de complexidade que não é comum em filmes do gênero. Selina Kyle, por exemplo, transita entre os dois lados, ela comete crimes, porém sua motivação vem de uma ética pessoal diante da qual o que ela faz não é de todo reprovável. O mordomo Alfred (Michael Caine) vive um conflito com seus próprios sentimentos, ele teme que Bruce (com quem tem uma relação quase paternal) morra em combate e este medo o leva a tomar uma decisão que coloca a perder tudo aquilo que ele construiu ao lado dos Wayne. O Comissário Gordon, por sua vez, vive um dos maiores dilemas, ele se culpa pela mentira que foi contada à cidade sobre as circunstâncias da morte do promotor Harvey Dent, em pelo  menos  dois momentos da narrativa ele se vê tomado pela dúvida entre contar ou não a verdade. 


O Bruce Wayne vive dilemas semelhantes, em várias passagens ele vê sua importância para a cidade ser questionada e ele próprio se atormenta com a culpa por algo que acontecera no passado e com reflexões sobre a eficácia de suas ações (outro fenômeno incomum em um filme de super-herói). Na história ele se vê obrigado a trilhar um longo caminho até conseguir reencontrar algumas coisas que tinham sido perdidas há oito anos... O estado no qual Bruce se encontra tem relação direta com a escolha de Bane para ser o vilão do filme, escolha esta que tinha me parecido um tanto estranha a princípio. Todavia, a presença do mercenário na trama foi, ao meu ver, completamente justificada, acredito que nenhum dos outros inimigos do Batman seriam capazes de representar o mesmo tipo de ameaça que ele representa, que tem muito a ver com a condição física e psicológica do herói. A impressão que temos durante boa parte do filme é a de que o Batman não é páreo para Bane e sua extraordinária resistência.


O perfeccionismo de Nolan também fica evidente em cada um dos aspectos técnicos do filme, as cenas de ação são excelentes e os efeitos especiais não deixam nada a desejar. A fotografia novamente deixa de lado as sombras características de alguns filmes mais antigos do herói e mostra a cidade de Gotham com um realismo incrível (destaco a sequência que foi gravada em Wall Street, em Nova Iorque). A trilha composta por Hans Zimmer, colaborador do Nolan nos outros dois filmes da franquia e em A Origem (2010), confere ao filme um tom de urgência e de apreensão, ela é muito bem usada durante todo o desenvolvimento do longa e reforça de uma forma extraordinária a aura épica que o filme tem. Merecem destaque também a direção de arte e a idealização de cada um dos "brinquedos" que o Batman usa no filme... 


Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge possui diversas reviravoltas em sua trama, como é comum nos filmes de Nolan, ele consegue nos prender e nos deixar apreensivos durante cada um de seus 265 minutos. Se ele é melhor ou pior que seus antecessores, isso não importa, pois ele já conseguiu o essencial, entrou para a lista dos melhores e mais bem realizados filmes de super-heróis de todos os tempos... Ultra recomendado!


Assistam ao trailer de Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

sábado, 29 de dezembro de 2012

Ferrugem e Osso

Ferrugem e Osso (De rouille et d'os) - 2012. Dirigido por Jacques Audiard. Escrito por Jacques Audiard e Thomas Bidegain, adaptado da obra de Craig Davidson. Direção de Fotografia de Stéphane Fontaine. Música Original de Alexandre Desplat.  Produzido por Jacques Audiard, Martine Cassinelli e Pascal Caucheteux. Why Not Productions, Page 114, France 2 Cinéma, Les Films du Fleuve, Radio Télévision Belge Francophone (RTBF), Lumière e Lunanime / França | Bélgica. 


É natural que sentimentos experimentados pela coletividade ganhem expressões, intencionais ou não, nas mais diversas expressões artísticas e com o cinema não é diferente. Uma sociedade que passa por um período obscuro tende a produzir obras obscuras e exemplos disso são os filmes associados a escolas cinematográficas como o expressionismo alemão e o neorrealismo italiano. Este fenômeno pode ser notado e com considerável intensidade na produção cinematográfica contemporânea, diversas obras recentes, como por exemplo Tiranossauro (2011) e Cosmópolis (2012), têm sofrido a influência do atual cenário de recessão econômica, que tem afetado boa parte do mundo globalizado. Ferrugem e Osso (2012) de Jacques Audiard é mais um fruto deste mesmo cenário, nele a influência do período de crise é evidente e provavelmente foi proposital, em sua trama a luta dos personagens para sobreviverem em meio a situações tão adversas não é tão diferente da luta que tem sido travada por cada uma das vítimas das medidas de austeridade, às quais diversos países têm recorrido para superarem a crise. 

Em Ferrugem e Osso, Ali (Matthias Schoenaerts) é um ex-lutador de boxe que se viu obrigado a abandonar os ringues depois de uma lesão, ele está desempregado e cria sozinho o filho de cinco anos. Sem ter sequer o que dar de comer para o garoto, ele pede a ajuda de Anna (Corinne Masiero), sua irmã, e ela oferece abrigo para ele e o menino em sua casa. Apesar do altruísmo do gesto de Anna, fica evidente que há algum conflito não resolvido entre eles, a impressão que se tem é a de que ambos são pessoas sofridas, que carregam consigo feridas provocadas pela vida dura que levam. Anna também possui uma situação financeira instável e batalha com dificuldade para conseguir o sustento de sua casa, por isso ela cobra do irmão uma atitude rápida, que possa torná-lo novamente independente. Já na relação de Ali com o filho fica perceptível, ainda no início do filme, um aspecto marcante de sua personalidade, a enorme dificuldade que ele tem de demonstrar afeto. 


Depois de instalado na casa da irmã, Ali consegue um emprego de segurança em uma boate e é lá que ele conhece Stephanie (Marion Cotillard), uma bela encantadora de baleias. A moça acaba se metendo em uma briga e Ali a socorre e a  leva para casa. Percebemos que ele se sentiu atraído por ela, mas ele mal consegue demonstrar isso. Ao invés de ser afetuoso, ele a repreende e faz acusações mesquinhas acerca do seu comportamento e modo de se vestir. Passado algum tempo Stephanie sofre um acidente em um tanque com baleias e acaba tendo as duas pernas amputadas, o sentimento de incapacidade que ela experimenta a conduz a uma profunda depressão, no entanto, com garra ela tenta continuar tocando a vida e lentamente ela começa a se reerguer. O destino faz com que seu caminho novamente se cruze com o do ex-boxeador, porém desta vez eles estão mais parecidos do que podem imaginar, a diferença é que ela, ao contrário dele, ainda não foi totalmente embrutecida pelas restrições que lhe foram impostas pela vida. Desta vez eles se permitem aproximar mais um do outro e uma improvável cumplicidade surge entre eles...


Ali começa a participar de lutas clandestinas para ganhar um dinheiro extra e sua motivação para encarar os desafios vem justamente da determinação demonstrada por Stephanie, que passa a acompanhar-lo nas disputas. Todavia, o egoísmo dele dificulta a relação que começa a surgir entre eles e é então que percebemos que a superação que ambos buscam não se concretizará se eles não reconhecerem que são eles mesmos os maiores obstáculos de suas próprias vidas... A verdade é que Ferrugem e Osso não é tão duro quanto parece ser, ele é um filme seco, principalmente por ter uma narrativa onde aparentemente só há sofrimento, no entanto, mesmo retratando a brutalidade de um mundo assolado pela crise econômica e pelas dores individuais, ainda há lugar nele para a sensibilidade, que emana nos momentos em que menos esperamos. Sua trama não explora a condição dos personagens para nos comover ou chocar, ela não é em nenhum momento apelativa e isso a torna ainda mais contundente.


A verossimilhança da história é reforçada pelo contexto no qual ela se desenvolve e daí surge uma reflexão bastante pertinente: O comportamento de cada um é determinado ou determinante em relação ao meio em que se está inserido? O filme não entrega uma resposta clara para esta pergunta, mas nos induz a uma refleção sobre ela, dando-nos a prerrogativa de tirarmos nossa própria conclusão, nele a interação entre os personagem e suas respectivas realidades ganham um significado ainda mais amplo quando analisada como uma alegoria do atual cenário econômico, conforme mencionei no início deste texto. Tanto a lesão de Ali, quanto o acidente de Stephanie, podem ser associados à condição de tantas pessoas que tiveram suas condições de trabalho tiradas de si. O comportamento agressivo (demonstrado por ele) e o melancólico (expressado por ela) não nos são de todo estranhos, pois são similares aos observados na manifestações populares contra a crise e nos depoimentos daqueles que perderam tudo o que tinham.  


Como já era de se esperar, a Marion Cotillard entrega uma atuação forte, cheia de realismo e com nuances que só uma grande atriz poderia explorar; percebemos a intensidade da angústia que sua personagem sente em seu olhar e em sua expressão facial que externam uma gama de sensações, como raiva, amargura, desespero e dor; ouso dizer que esta é sua melhor atuação desde Piaf - Um Hino ao Amor (2007). Matthias Schoenaerts também convence fácil com um desempenho igualmente consistente, ele consegue dar vida a um personagem que é ambíguo na maior parte do tempo, que hora nos convence de que é uma boa pessoa, pra dentro de instantes se comportar como uma grande idiota. É uma atuação bastante complicada, uma vez que a percepção que temos do personagem muda em diversos momentos do filme, nas mão de um ator inexperiente esta interpretação poderia resultar fragmentada e superficial. 


Na fotografia predominam tonalidades neutras, que nos remetem à falta de vitalidade e esperança da realidade retratada. A trilha sonora, a montagem, a direção de arte e os outros diversos aspectos técnicos são muito bem trabalhados e eficientes na função de complementar e dar suporte à narrativa. Tecnicamente o filme não deixa nada a desejar e ainda surpreende pela excelente construção de algumas sequências, que certamente permanecerão por bastante tempo em nossa memória, como por exemplo a passagem presente no último ato do filme na qual Ali literalmente quebra o gelo, que é sem dúvidas uma das melhores do ano... Ferrugem e Osso é um filme denso e complexo, doloroso justamente por ser sensível. Não é uma obra de fácil digestão, principalmente para aqueles que estão acostumados com personagens rasos e maniqueístas,  contudo, ele merece ser visto por todos... Ultra recomendado! 


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A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

007 - Cassino Royale / Quantum of Solace / Operação Skyfall

007 - Cassino Royale (Casino Royale) - 2006. Dirigido por Martin Campbell. Escrito por Neal Purvis, Robert Wade e Paul Haggis, baseado na obra literária de Ian Fleming. Direção de Fotografia de Phil Meheux. Música Original de David Arnold. Produzido por Barbara Broccoli e Michael G. Wilson. Columbia Pictures, Eon Productions, Casino Royale Productions, Stillking Films, Babelsberg Film e Government of the Commonwealth of the Bahamas / UK | França.

007 - Quantum of Solace (Quantum of Solace) - 2008. Dirigido por Marc Forster . Escrito por Neal Purvis, Robert Wade e Paul Haggis. Direção de Fotografia de Roberto Schaefer. Música Original de David Arnold. Produzido por Barbara Broccoli e Michael G. Wilson. Metro-Goldwyn-Mayer (MGM), Columbia Pictures, Eon Productions e B22 / UK | USA.

007 - Operação Skyfall (Skyfall) - 2012. Dirigido por Sam Mendes. Escrito por Neal Purvis, Robert Wade e John Logan. Direção de Fotografia de Roger Deakins. Música Original de Thomas Newman. Produzido por Barbara Broccoli e Michael G. Wilson. Metro-Goldwyn-Mayer (MGM)  Eon Productions e Danjaq / UK | USA.



















007 - Um Novo Dia para Morrer (2002), o último filme da série com o ator Pierce Brosnan, foi um fracasso de público e crítica, ele marcou um momento decisivo para a franquia, que não vinha apresentado bons resultados desde o inicio dos anos 90. Aquele poderia ter sido o momento mais apropriado para encerrar a série, que tinha rendido até então 20 filmes, no entanto os produtores decidiram arriscar mais uma vez. Brosnan foi substituído e esta que parecia ser a decisão mais sábia acabou gerando uma grande polêmica. A escolha de Daniel Craig para o papel foi considerada uma heresia pelos fãs mais radicais, pois de acordo com os escritos de Ian Fleming, o 007 era alto, moreno, de olhar penetrante e sedutor, características inexistentes ou não tão marcantes no novo ator. Acontece que, para a surpresa de todos, 007 - Cassino Royale não só provou que Craig era o cara certo para papel, como também mostrou que a franquia ainda era capaz de render obras de notável qualidade.

O segredo do sucesso do filme talvez esteja na nova estratégia adotada pelo seus realizadores, que consistiu  em libertar o personagem de alguns de seus próprios clichês (o que explica em parte a escolha de um ator cujo o biotipo é diferente da descrição feita pelo criador do personagem). Este novo posicionamento está presente em toda a trama, que optou por não dar uma continuidade linear para o que fora contado até então, decidindo ao invés disso reiniciar a história do agente. No longa, alguns elementos considerados intocáveis por parte dos fãs foram abandonados e outros sutilmente subvertidos. A música tema do personagem, por exemplo, que antes tocava em cada clímax, só tocou durante os créditos finais e sua fala mais famosa ("meu nome é Bond, James Bond") foi dita em apenas um momento do filme. Em determinada passagem, Bond pede um martíni com vodca e o garçom lhe pergunta: "batido ou mexido?", ele então responde: "acha que ligo para isso?". Neste diálogo, que funciona quase como uma piada interna, está a evidência de que a cartilha fora de fato rasgada.

[Recomendo a leitura do artigo "Calando a Boca e com o Pé na Porta!" escrito pelo crítico Octavio Caruso, que descreve com muita propriedade a reação causada pela nomeação do ator e sua volta por cima.


O prólogo de 007 - Cassino Royale mostra o encontro de James Bond (Craig) com um agente duplo que se infiltrara no Serviço Secreto Britânico, a quem ele precisa eliminar. Bond cumpre com relativa facilidade  esta missão e a execução deste trabalho o habilita para se tornar o sétimo agente '00', aos quais é dada a licença para matar. Logo após sua promoção ele se vê envolvido em um caso de proporções e riscos bem maiores, ele precisará investigar e deter Le Chiffre (Mads Mikkelsen), um banqueiro que capta dinheiro do terrorismo e atua como especulador no mercado mobiliário, assumindo riscos com um dinheiro sujo que sequer lhe pertence. Chiffre faz uma aposta contra o mercado na esperança de que iria conseguir manipular os preços das ações de uma companhia aérea, no entanto Bond consegue impedir a concretização deste plano. Para sair do prejuízo o banqueiro decide apostar tudo em uma partida de pôquer no Cassino Royale, localizado em Montenegro. Com a ajuda de René Mathis (Giancarlo Giannini) e de Vesper Lynd (Eva Green), o agente britânico entra no jogo com o objetivo de derrotar o criminoso e assim desestabilizar sua organização...


Enquanto a trama de 007 - Cassino Royale representa o renascimento do personagem, a do filme seguinte, 007 - Quantum of Solace (2008), aborda o seu amadurecimento. Nesta nova aventura James Bond volta um tanto diferente, nela ele se vê obrigado a lidar com mágoas e ressentimentos que foram causados por uma situação vivida por ele no último ato do filme anterior. Peças que ficaram soltas no final da última missão o conduzem a um novo caso, para o qual a inteligência inglesa não dá a devida importância. Dominic Greene (Mathieu Amalric), o novo vilão, é um empresário que se esconde atrás da boa imagem de filantropo para colocar em prática planos sórdidos e ambiciosos, ele pretende apoiar um golpe de estado na Bolívia em troca do controle sobre uma região desértico do país, onde suspeita-se que há petróleo. Ao investigar a Organização Quantum, chefiada por Greene, James descobre fatos que o colocam novamente em conflito com seu passado recente, o que acentua o desejo de vingança que passa a lhe motivar, esta situação é vista com desconfiança  por M (Judi Dench), chefe do MI6, ela entende que ele não deveria se deixar ser dominado por suas emoções, pois isso é um risco para ele e para a segurança nacional...


Quantum of Solace não foi tão elogiado quanto seu antecessor, mas ele foi considerado bom o suficiente para garantir a continuidade da série. Penso que não é exagero afirmar que o momento que antecedeu a criação de 007 - Operação Skyfall (2012) foi tão crucial para a franquia quanto o que descrevi no primeiro parágrafo deste texto e novamente o que parecia estar em jogo era o futuro do personagem... Mesmo depois de passado tanto tempo James Bond e suas histórias ainda traziam consigo uma espécie de ranço do período no qual eles foram criados, uma época marcada pela tensão crescente gerada pela bipolaridade política. Tal constatação levanta a pergunta que norteia toda a produção: Ainda há lugar para o 007 e para a espionagem clássica no mundo contemporâneo, ou eles são tão somente fantasmas da guerra fria? 

50 anos se passaram desde a estreia do primeiro filme 'oficial' do personagem, O Satânico Dr. No (1962),  e este marco ajudou a trazer novamente à tona o questionamentos supracitado. Todavia, desta vez as circunstâncias eram um pouco diferentes daquelas que comentei no início desta resenha. A franquia estava em um momento bem mais favorável (graças ao sucessos dos dois últimos filmes) e esta era a oportunidade perfeita para redefinir o 'lugar' do personagem e sua função no atual contexto histórico e também para comemorar a sua longevidade. Uma das grandes sacadas de 007 - Operação Skyfall foi ter levado estas problemáticas para a trama.


O reposicionamento do personagem no novo contexto é feito através de um diálogo que acontece em um tribunal. Ao se defender da acusação de que insistia em viver na época de ouro da espionagem, M expõe argumentos que são capazes de justificar a existência do MI6 e consequentemente a permanência do 007 no Serviço Secreto, ela diz: "hoje eu ouvi repetidamente que o meu departamento se tornou irrelevante... Bem, eu vejo um mundo diferente do que vocês veem e a verdade é que o que eu vejo me assusta. Estou assustada porque nossos inimigos não são mais conhecidos, eles não existem no mapa, eles não são as nações, são indivíduos. Olhem em volta, do que têm medo? Podem ver um rosto, um uniforme, uma bandeira? Não. Nosso mundo não é mais transparente agora, é mais opaco, está nas sombras e é lá que teremos nossa batalha. Antes de nos declarar irrelevantes, se perguntem... Se sentem seguros?". A defesa da personagem não é direcionada apenas para os presentes no tribunal, mas também para nós espectadores, principalmente para os que ainda tinham alguma dúvida acerca da importância do 007 nos dias de hoje.


Outro acerto foi a escolha do diretor. Sam Mendes, cineasta britânico que tem no currículo obras cultuadas como Beleza Americana (1999) e Foi Apenas um Sonho (2008), deu ao longa algo que seus antecessores não tiveram, uma alma. O novo filme não é composto apenas por cenas eletrizantes de perseguição e tiroteios, ele possui algo a mais, que faz toda a diferença: a reflexão proporcionada pelo atrito entre tradicionalismo e modernidade. Tudo aquilo que foi construído em Cassino Royale e em Quantum of Solace foi de fundamental importância para Operação Skyfall. Graças ao novo posicionamento estratégico adotado no primeiro e à maturidade alcançada no segundo, há agora a oportunidade de fazer autorreferências e de brincar com o passado sem que haja uma descaracterização ou margem para acusações de repetição. Grande parte do charme que o filme tem está na forma com que ele dialoga com o passado através de diálogos, objetos cênicos e até enquadramentos. Em alguns momentos este diálogo é sutil, quase imperceptível, em outros ele é bem claro, como na passagem em que James Bond tira da garagem um um DB5 prata, mesmo modelo dirigido pelo Sean Connery em 007 contra Goldfinger (1964)


Na trama de Operação Skyfall M está sendo forçada a se aposentar e o motivo é justamente a suposta falta de relevância dos serviços prestados pela agência que ela coordena, o que diz respeito diretamente à atuação de James Bond em campo. Para complicar ainda mais a situação, o 007 falha em uma de suas missões e dados sigilosos vão parar nas mãos do excêntrico Raoul Silva (Javier Bardem), um ex-agente do MI6 que nunca perdoou M, a quem ele responsabiliza por ter sido capturado e torturado pelos chineses no passado. Silva se tornou um terrorista cibernético cuja a única motivação é a vingança (qualquer semelhança com o próprio Bond do filme anterior não é mera coincidência). Ao descobrir que não é pálio para seu inimigo jogando o jogo que ele joga, James Bond decide atuar o mais distante possível de todo o aparato tecnológico (que esteve tão presente nos últimos filmes). Esta decisão representa uma volta da franquia aos primórdios do personagem e ao modelo clássico, o que constitui por si só uma homenagem e tanto aos primeiros filmes do agente.


Estou convencido de que não é exagero dizer que o longa de Sam Mendes é um épico, sua grandiosidade fica evidente já no prólogo, que é de tirar o fôlego. As atuações também merecem destaque, Craig se consolida como um dos melhores atores que deram vida ao 007 nestes cinquenta anos; Javier Bardem por sua vez compõe um dos mais interessantes vilões da franquia, mesmo seu personagem sendo caricado ele consegue deixar evidente o cuidado que teve com sua composição, o que pode ser notado pelos seus gestos, expressões faciais e maneirismos. A Judi Dench ganha mais espaço neste filme do que nos anteriores, nos quais ela aparecia mais como uma coadjuvante de luxo e o simples fato dela protagonizar algumas das cenas mais importantes do longa já é por si só uma garantia de que testemunharemos um desempenho acima da média.


Termino esta resenha com um diálogos mais emblemáticos de 007 - Operação Skyfall, no qual o Presidente do Comitê de Segurança e Inteligência aconselha M: "Sua gestão foi ótima, você deveria sair com dignidade", ela então lhe responde: "Pro inferno com a dignidade, eu vou sair quando o serviço estiver terminado!"... Como o serviço não acabou, podemos estar cientes de que o 007 voltará. Resta esperar para saber quem será a nova Bond Girl e quem interpretará a nova canção-título, afinal de contas, algumas coisas devem de fato permanecer intocadas, ao menos enquanto forem necessárias... 


Assistam aos trailers de 007 - Cassino Royale, 007 - Quantum of Solace e 007 - Operação Skyfall no You Tube, clique nos links!

007 - Cassino Royale

007 - Quantum of Solace

007 - Operação Skyfall


quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Entre o Amor e a Paixão

Entre o Amor e a Paixão (Take this Waltz) - 2011. Dirigido e Escrito por Sarah Polley. Direção de Fotografia de Luc Montpellier. Música Original de Jonathan Goldsmith. Produzido por Sarah Polley e Susan Cavan. Joe's Daughter / Canadá | Espanha | Japão.


"As conexões me assustam... Nos aeroportos, passar de um avião para outro correndo, com pressa, sem saber, tentando descobrir, me perguntando se vou conseguir... Acho que posso me perder e talvez eu apodreça e morra num terminal esquecido e vazio, cuja existência ninguém saiba [...] Eu tenho medo de me perguntar se vou me perder, eu não gostaria de estar entre duas coisas, eu tenho medo de ter medo..." - Esta citação, dita por Margot (Michelle Williams), a personagem central de Entre o Amor e a Paixão (2012), diz muito sobre ela e sobre a situação que ela vive na história contada pelo filme. Numa viagem de trabalho ao Canadá ela conhece Daniel (Luke Kirby), um jovem romântico e sedutor, que trabalha como condutor de riquixá (carrinho de mão usado para transportar passageiros). Na viagem de volta ela descobre que, por incrível que pareça, ele é seu vizinho. A proximidade, que favorece o contato nos dias que se seguem, os torna cada vez mais íntimos. Ele não esconde o que sente por ela, nem suas intenções, ela, no entanto, se recusa a se entregar àquilo que pode ser uma aventura amorosa inconsequente, afinal de contas ela é casada com Lou (Seth Rogen).

Margot, já totalmente envolvida por Daniel, se vê mergulhada em um dilema que é mais ético que moral, ela não quer trair o marido e esta decisão não é motivada por um código de conduta ou pela opinião alheia, mas tão somente pela sua consideração por ele. Lou é um homem bom, mas apesar de ser afetuoso e dedicado à casa, ele aparenta não perceber a melancolia que se abateu sobre a esposa. Na maior parte do tempo ele, que é escritor de livros de culinária, está na cozinha preparando pratos sofisticados com frango, sua especialidade, enquanto ela parece tentar se transportar para algum lugar distante, seu olhar vazio parece ser de fato uma janela de sua alma atormentada. Margot não encontra mais sentido em sua vida familiar e é evidente na trama o quanto ela se culpa por isso. O dilema que ela vivencia se torna um fardo difícil de ser carregado, o que acentua ainda mais sua tristeza, mas, mesmo estando cansada de tudo, ela se faz de forte e tenta negar a si mesma e aos seus impulsos para salvar seu casamento.



O conflito vivenciado por Margot levanta um questionamento importante: A partir de que ponto pode-se dizer que existe de fato a traição? Alguns podem argumentar que ela apenas se concretiza quando há uma entrega, que pode ser materializada pelo ato sexual ou até mesmo por um beijo, no entanto, o roteiro nos faz questionar a possibilidade de sua gênese estar em atitudes mais singelas, como na dissimulação, nas pequenas mentiras e até mesmo no silêncio... O interessante é o que o texto de Sarah Polley consegue nos conduzir a este questionamento e a diversas outras reflexões sem precisar fazer julgamentos acerca da atitude da personagem central, ela não nos é apresentada como vítima, nem como vilã e isso também vale para os outros dois personagens já citados; tal tipo de construção os torna humanos e capazes de nos levar a nos identificarmos com eles e com algumas das situações que eles vivem na história.


"Às vezes eu não sei... Às vezes eu ando pela rua e um raio de luz ilumina de maneira especial a calçada e me dá vontade de chorar e um segundo depois passou. E aí eu decido porque sou um adulto, decido não sucumbir à momentânea melancolia..."

A melancolia de Margot pode ser analisada como um resultado dos dilemas vividos por ela e é preciso ressaltar que estes não surgiram com o aparecimento de Daniel, a verdade é que ela não consegue se encontrar nada daquilo que construiu ao lado de Lou. Ela tenta se convencer de que a estabilidade da vida familiar é o que ela busca, todavia, ela está a procura é de novidade e fluidez, por isso tanto a rotina quanto o comportamento do marido a incomodam tanto. A melancolia que ela experimenta surge de sua inadequação em relação à sua própria realidade, mas, como fica claro na citação reproduzida logo acima, ela tenta ignorar este sentimento como se sua manifestação fosse uma evidência de imaturidade.


A narrativa de Entre o Amor e a Paixão se vale de um excelente aparato técnico  que ajuda a compor diversas metáforas visuais, que funcionam ora como prenúncio de algo que está por vir, ora como extensão daquilo que cada um dos personagens sente. Um bom exemplo disso é uma construção cênica recorrente, que surge em quatro momentos distintos da trama, trazendo significados que se tornam complementares quando analisados em conjunto. 


[Atenção: Spoilers leves a partir deste parágrafo] A primeira destas passagens está no início do filme e mostra Margot e Daniel voltando do Canadá, eles estão em um veículo que se move sobre um trilho e a câmera os captura sentados de frente para ela. O veículo se move na direção oposta à de seus campos visuais, o que nos dá a impressão de que eles estão se distanciando de algo e indo numa direção oposta. Esta passagem simboliza perfeitamente o momento que eles estariam prestes a viver, ambos embarcariam em uma viagem cujo destino eles ainda não conseguem vislumbrar, pois suas perspectivas só lhes permitem enxergar o que já passou.


Na segunda passagem, Margot e Lou estão no riquixá puxado por Daniel e esta sequência também possui uma conotação bastante interessante, ela também faz referência a algo que está por acontecer. Desta vez a situação muda, agora é Daniel quem conduz e escolhe o caminho e isto pode ser entendido como uma referência ao poder que ele passa a exercer sobre o destino do casamento de Margot e Lou.


Na terceira passagem, que é uma das sequências mais belas do filme, Margot e Daniel estão em um brinquedo em um parque de diversões. A pequena cabine com dois assentos, onde eles se encontram, se movimenta de forma alheatória, fazendo curvas e mudanças de orientação inesperadas, os movimentos bruscos assustam Margot em determinados momentos, mas ela aparenta estar se divertindo, como há muito tempo não fazia. Novamente a sequência é um prenúncio do que está para acontecer. Os movimentos desorientados do brinquedo representam a fluidez que Margot finalmente encontra ao lado de Daniel.


A quarta e última sequência se passa no mesmo brinquedo, porém, agora Margot está sozinha... A imagem dispensa qualquer  outro comentário.

A fotografia do longa destaca as tonalidades fortes, que estão presentes nos figurinos dos personagens, nos cenários e nos objetos cênicos. Mas, mesmo com todo este colorido, há uma melancolia que pode ser percebida em todo o filme, o que me faz lembrar do diálogo no qual a personagem fala do raio de luz que ilumina de maneira especial a calçada e o efeito dele sobre ela. O colorido a la Amoldóvar, presente na maioria das cenas, é ao meu ver uma metáfora visual das aparências atrás das quais Margot se esconde. Isso fica evidente no momento em que Lou passa a desconfiar que pode haver algo além de amizade na relação entre a sua esposa e o vizinho.


Nesta passagem o colorido praticamente desaparece, dando lugar à uma predominante tonalidade azulada, que remete à frieza e à tristeza, com isso o filme deixa claro que neste ponto não existem mais aparências atrás das quais os personagens possam se esconder, o que sobra é apenas o vermelho do vestido de Margot, que é uma clara referência à paixão que a impulsiona.

Na sequência seguinte a cor predominante no cenário ainda é o azul. A impressão que nos é dada é a de que algum tempo se passou desde a cena anterior; Margot agora já se encontra na cama ao lado de Lou,  ela aparece envolta por um lençol branco, que esconde boa parte do seu vestido vermelho. Ela se cobre como se estivesse despida, tamanha é a vergonha que sente. Simbolicamente, o lençol representa a tentativa da personagem de esconder a intensidade de sua paixão pelo vizinho. [Fim dos Spoilers]


Sarah Polley constrói toda sua obra com uma incrível sutileza, o que fica evidente até na cena que mostra diversas personagens femininas nuas (cena que não é nenhum pouco agressiva, muito pelo contrário). A Michelle Williams está ótima, mais uma vez. Apesar de personagens melancólicas terem sido recorrentes em sua carreira nos últimos anos, ela consegue dar à sua Margot propriedade e profundidade. Luke Kirby também dá um show de atuação e tenho que reconhecer que até o Seth Rogen, que geralmente não me convence, está muito bem. Entre o Amor e a Paixão é um filme dramaticamente consistente e visualmente belo, que merece ser conferido por todos... Ultra recomendado! P.S.: Preste atenção na ótima trilha sonora!


Assistam ao trailer de Entre o Amor e a Paixão no You Tube, clique AQUI !



sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Cosmópolis

Cosmópolis (Cosmopolis) - 2012. Dirigido e Escrito por David Cronenberg, baseado na obra literária de Don DeLillo. Direção de Fotografia de Peter Suschitzky. Música Original de Howard Shore. Produzido por Paulo Branco e Martin Katz. Alfama Films e Prospero Pictures / Canadá | França | Portugal | Itália.


Alguns filmes conseguem captar toda a aura que paira sobre determinada época, estes são capazes de reproduzir sentimentos, sensações, expectativas ou temores experimentados pela sociedade naquele período. Quando se trata de filmes de época, tal fenômeno é relativamente mais fácil de ser reproduzido, uma vez que há o distanciamento proporcionado pela passagem do tempo, porém, no caso de obras que fazem um recorte do mundo contemporâneo, isto se torna bem mais difícil, pois é complicado captar, em meio à uma ebulição de acontecimentos e percepções, aqueles que são comuns á uma grande maioria e que sendo assim são capazes de representar aquilo que se encontra encrustado na consciência coletiva. Cosmópolis (2012) de David Cronenberg realiza este feito de uma forma sublime, ao assisti-lo, nos deparamos com um retrato obscuro do mundo pós-moderno, onde a realidade se entrelaça ao surrealismo, forjando assim uma situação opressiva de temor e ansiedade.

O longa adaptado da obra de Don DeLillo recria de forma metafórica, em uma contexto aparentemente minimalista, as causas e o efeitos de algumas das crises enfrentadas pela sociedade atualmente. É preciso frisar que não é apenas a crise econômica que está sendo alegorizada na trama, ela também aborda a crise dos relacionamentos e a de identidade. Todo o desenvolvimento da história acontece quase que por completo dentro de uma limusine e ele acompanha o percurso de Eric Packer (Robert Pattinson), um  jovem bilionário que decide atravessar Manhattan para conseguir um bom corte de cabelo (!). O trajeto é tumultuado, pois o caos estava instalado nas ruas da cidade, manifestantes protestavam contra a visita do presidente, que aconteceria naquele mesmo dia, e uma horda fãs se aglomerara para seguir o cortejo fúnebre de um rapper, do qual Eric também era fã.


Eric interage com diversos personagens e de seus diálogos com cada um deles surgem divagações que renderiam horas de reflexão, no entanto, tudo é muito rápido e denso, o que torna o filme difícil de ser digerido em apenas uma exibição (o que não é de maneira alguma um problema), isso faz com que o longa cobre de nós expectadores uma postura ativa e não apenas contemplação ou busca por entretenimento. Cada um dos personagens secundários traz consigo uma gama de significações, que nos ajuda a decifrar o complexo comportamento e a personalidade do protagonista. Eric é um rapaz de 28 anos que acredita ter o mundo aos seus pés, sua ilusão de poder o leva a crer que está acima de tudo e de todos e isso fica perceptível em diversas passagens. 

Eric age como se estivesse observando a vida de todos à sua volta do alto de um pedestal, local onde ele estaria protegido e resguardado dos riscos aos quais as pessoas comuns estariam expostas. A crise econômica, que motiva os protestos contra a visita presidencial, é irrelevante para ele, de dentro da limusine ele contempla as rebeliões como se ele próprio não fosse um dos responsáveis por elas. Ele não sente culpa pelas dores do mundo à sua volta e sequer questiona os efeitos de suas atitudes e de seu estilo de vida alienado. Sua limusine é seu quartel general e mais que isso, ela é o lugar onde ele se sente intocado pelo mundo exterior. Aquele micro ambiente, cercado pela alta tecnologia, é como se fosse seu reino, um lugar onde sua vontade, que é absoluta, lhe garante o acesso a inúmeros serviços (que vão de consultas médicas e aconselhamentos ao sexo casual) e ele aparenta acreditar que estas regalias são suficientes para saciar suas necessidades.


O egocentrismo de Eric o colocou em uma posição tão distante da realidade, que ele sequer percebe detalhes do mundo á sua volta, a irrelevância que ele dá para aqueles que o cercam o distancia ainda mais do restando mundo. Numa determinada passagem ele aparenta se surpreender ao ver a esposa fumando, ela então o conta que fuma desde os quinze anos, provavelmente ele que nunca tinha dado conta disso. O sexo casual com outras mulheres, com quem ele se relaciona profissionalmente, é desprovido de qualquer sentimento ou afeto, é tão somente a satisfação de uma necessidade. Em um diálogo ele pondera: "somos pessoas no mundo, temos que comer e conversar". Ao chegar a tal conclusão, ele coloca a necessidade que temos de nos relacionarmos com outras pessoas no mesmo patamar da necessidade de nos alimentarmos, como se a primeira fosse tão somente uma necessidade fisiológica como é a segunda; nisto vemos a importância que ela dá para as relações...


De certa forma a limusine, dentro da qual o personagem se esconde do mundo, é similar às nossas salas de estar, onde nos sentimos seguros e de onde contemplamos o mundo pela tela da TV. Tal como ele, nos sentimos testemunhas de tudo o que acontece do lado de fora de nossa fortaleza, no entanto não somos participantes, apenas expectadores. Esta noção, ao mesmo tempo que nos isenta da culpa pelos males do mundo (afinal, acreditamos que não podemos ser culpados pela omissão), nos distancia de qualquer ação que possa ser potencialmente transformadora. Assim como Eric, somos despertados apenas quando sentimos que algo que nos é estranho pode nos ameaçar, no caso dele, isso acontece em um dado momento da trama, quando ele recebe um diagnóstico de que sua próstata é assimétrica, é uma afirmação sem significado algum, nem para ele, no entanto ela representa o máximo de risco a que ele acreditar estar exposto. 


A ilusão de poder que move Eric que ele demora a assimilar a ameaça de falência, que passa o assombrar depois de uma aposta equivocada que ele faz na variação cambial da moeda chinesa. Seu comportamento é afetado, porém vagarosamente. Mesmo com seus ativos sendo reduzidos a pó, ele continua acreditando que está resguardado, a ameaça externa começa a lhe preocupar pouco a pouco, e a transformação que estão se desencadeia em seu mode de agir o leva da total confiança em si mesmo à perda de todos os seus estímulos numa questão de oras, o que nos remete à forma com que a crise do final da década passada afetou o mercado e os investidores. Cosmópolis, como eu havia dito, não aborda apenas a falência do modelo capitalista neoliberal, a decadência que ele retrata é a do homem pós-moderno, aquilo que vemos na tela é uma representação da nossa própria degradação como indivíduos e como sociedade. 


Robert Pattinson me surpreendeu e muito, ele está excelente em uma atuação que exige diversos níveis de interpretação e ele transita por todos eles com uma incrível agilidade. Ele mergulha fundo na complexidade dramática de seu personagem e isto fica evidente em praticamente todas as passagens do longa, principalmente na sequência final, que é protagonizada por ele e por Paul Giamatti, que também está ótimo. O restante do elenco também entrega atuações fortes, que não deixam nada a desejar em nenhum momento, destaco os desempenhos de Juliette Binoche, Sarah Gadon, George Touliatos e Kevin Durand. O aparato técnico confere ao filme um estilo que é ao mesmo tempo futurista, surreal e apocalíptico, que é desenvolvido através de uma fotografia limpa, porém repleta de sombras; uma direção de arte que dá destaque à onipresença da tecnologia e enquadramentos inusitados que exploram muito bem o interior da limusine, que é o principal cenário do longa.


Cosmópolis não é o tipo de filme que agradará a todos, mas não tenho dúvidas de que ele é um daqueles que deveria ser visto, analisado e debatido por todos aqueles que apreciam o bom cinema, ou que se interessem pela condição do indivíduo frente ao sistema vigente no mundo pós-moderno. Depois de dirigir um filme raso e mediano, como foi Um Método Perigoso (2011)David Cronenberg concebeu esta grandiosa obra, que acredito que será lembrada no futuro como um dos mais contundentes retratos de nossa época.


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A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

360

360 - 2011. Dirigido por Fernando Meirelles.  Escrito por Peter Morgan, baseado na peça "Reigen", de Arthur Schnitzler. Direção de Fotografia de Adriano Goldman. Produzido por Andrew Eaton,  Chris Hanley, Danny Krausz, David Linde e Emanuel Michael. BBC Films, UK Film Council, ORF Film/Fernseh-Abkommen, Unison Films, Gravity Entertainment e Hero Entertainment / UK | Áustria | França | Brasil.


A angulação com a qual se analisa uma determinada obra pode afetar diretamente a avaliação que é feita dela a posteriori, podendo beneficiá-la ou prejudica-la dependendo da direção do olhar. Quando a intenção dos seus realizadores não está tão aparente, abre-se um leque de possibilidades e interpretações, todavia, frequentemente a crítica embarca em uma espécie de efeito cascata e isso ocorre quando diversos autores se limitam, inconscientes ou não, a contemplar uma mesma obra partindo de uma mesma perspectiva e suas respectivas avaliações acabam influenciando outras que ainda serão produzidas. 360 (2011) de Fernando Meirelles foi vítima deste efeito cascata. Ao tentar desconstruí-lo, um bom número de críticos se prenderam apenas à uma análise reducionista da trama, se limitando assim à apontar a superficialidade e a suposta desorientação de cada uma das histórias que o compõe.

Ao repetirem este mesmo tipo de abordagem, alguns autores provavelmente se esqueceram de olhar para o longa por uma ótica alternativa. Curiosamente, a primeira pergunta que me fiz, ainda nos primeiros minutos de duração do filme, foi a seguinte: "Há a possibilidade de que de que toda esta superficialidade tenha sido intencional?" Ao procurar no filme elementos que pudessem dar embasamento a esta minha tese, me deparei com uma contundente e complexa análise sobre os relacionamentos no mundo contemporâneo, cheguei então à conclusão de que o foco narrativo do longa não está nas tramas individuais que o compõem, mas naquilo que elas representam como um todo.


Em dado momento do filme um personagem menciona as "pessoas que encontramos por acaso" e que "se tornam rostos conhecidos"; estas pessoas de quem ele fala são aquelas mesmas com quem conversamos por alguns minutos no ponto de ônibus, na fila de um banco, ou na sala de espera de um consultório, nós não as conhecemos de verdade, apenas nos familiarizamos com seus rostos, como ele diz, no mais a impressão que temos inicialmente nem sempre condiz com a realidade, com aquilo que cada uma destas pessoas realmente é. Não sabemos quais são as reais intenções daqueles com quem por acaso nos encontramos, não sabemos o que eles escondem, nem quais são suas dores e alegrias. Nestes encontros casuais frequentemente temos a impressão de que uma conexão foi estabelecida, quando na verdade o que conseguimos estabelecer é apenas um emaranhado de relações superficiais, na maioria das vezes baseadas em ideias e conceitos pré-concebidos. É basicamente sobre este tipo de relacionamento que 360 fala. 


Os expectadores mais atentos perceberão que as relações focadas pelo filme, em sua maior parte, se dão entre pessoas que eram até então desconhecidas. A visão privilegiada que nós expectadores temos nos permite saber mais sobre determinados personagem, do que aqueles que são seus interlocutores na história, isto mostra o quanto a ideia de conexão é frágil e o quanto as primeiras impressões podem ser enganosas e por isso tão perigosas. Nos raros momentos em que 360 mostra diálogos entre pessoas que já se conheciam, ficam evidentes as enormes barreiras que impedem que os relacionamento se desenvolvam em sua plenitude, é como se mesmo neste tipo de relacionamento a conexão fosse apenas uma utopia. Outra percepção interessante é a de que alguns personagens só se sentem seguros em expor sua verdadeira natureza para pessoas com quem não têm laços afetivos. Na trama um dos personagens recorre a uma psicóloga e a um líder religioso; outro encontra ajuda na supervisão de uma assistente social  e outros dois apenas se abrem de verdade com desconhecidos em um grupo do Alcoólicos Anônimos .


360 nos apresenta a um grande número de personagens e às situações vividas por eles num curto espaço de tempo, dentre eles estão uma garota de programa (Gabriela Marcinkova) e sua irmã mais nova (Lucia Siposova); uma jovem brasileira residente em Londres (Maria Flor) que terminara um namoro após descobrir que estava sendo traída; um homem de negócios (Jude Law) que está em Viena a trabalho e decide contratar uma prostituta, mesmo sendo casado; um ex-alcoólatra (Anthony Hopkins) que está à procura da filha que desaparecera há alguns anos; um dentista muçulmano (Jamel Debbouze) que está apaixonado por sua assistente, que é casada; uma mulher que mantém um caso extra conjugal (Rachel Weisz); uma outra (Dinara Drukarova) que lida com o declínio de seu casamento; um motorista particular (Vladimir Vdovichenkov) que está cansado de ser subjugado pelo patrão e um maníaco sexual (Ben Foster) que acabou de ganhar liberdade condicional. A trama tece um fio que interliga a vida de todos estes personagens e que correlaciona as situações vividas por eles, como se estas estivessem sujeitas a efeitos de causa e consequência arquitetados pelo acaso. 


Dentre os aspectos artísticos de 360, destaco as atuações de Maria Flor, Ben Foster e Vladimir Vdovichenkov, ela é pura graciosidade e eles também estão ótimos. Foster consegue através de sua atuação dar consistência ao embate psicológico e moral que seu personagem trava ao enfrentar seus próprios impulsos. No tocante aos aspectos técnicos o filme não deixa absolutamente nada a desejar, destaco a trilha sonora e os sons diegéticos, que exercem funções primordiais na narrativa (cito como exemplo a cena em que um insistente toque de celular salienta os ruídos que existem no diálogo que então se dava). Destaco ainda a fotografia e a montagem, que ajudam a compor o tom sutil que o filme tem, tanto visualmente quanto em seu ritmo de desenvolvimento. Ao contrário do que eu esperava, devido às críticas negativas que eu já tinha lido, Fernando Meirelles entregou um trabalho consistente e muito bem acabado, que é ao meu ver bem superior à adaptação Ensaio Sobre a Cegueira (2008), seu trabalho anterior. 


360 passa bem longe de qualquer padrão de filme comercial e isso explica em parte a má recepção que ele teve e sua baixíssima bilheteria. Com exceção dos nomes envolvidos, ele não tem nenhum atributo que seja capaz de chamar a atenção ou satisfazer os anseios do grande público, que é ávido por velocidade e histórias redondas com início meio e fim bem determinados. Este é um filme para ser analisado com calma, pois corremos o risco de nos perdermos diante daquilo que ele tanto critica, o superficialismo das primeiras impressões, que, como ele mesmo prova, podem ser enganosas. Recomendo! 


Assistam ao trailer de 360 no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.