quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

As Vantagens de Ser Invisível

As Vantagens de Ser Invisível (The Perks of Being a Wallflower) - 2012. Escrito e dirigido por Stephen Chbosky, baseado em seu próprio livro. Trilha sonora original composta por Michael Brook. Direção de Fotografia de Andrew Dunn. Produzido por John Malkovich, Lianne Halfon e Russell Smith. Summit Entertainment e Mr. Mudd / USA.



O amadurecimento, a busca por liberdade, as primeiras frustrações, a inconsequência, o amor, as aventuras... A adolescência talvez seja o período mais árduo e ao menos tempo fascinante de nossas vidas, afinal é durante ela que começamos a fazer uma leitura própria do mundo, deixando para trás, através da confrontação, parte da bagagem que nos tinha sido legada pela família e demais instituições durante a infância. É uma fase difícil também por ser um tempo de transição, afinal quando adentramos nela já não somos mais crianças, mas também ainda não somos adultos e desta deslocação etária surgem inúmeros conflitos, que podem determinar quem de fato seremos ao alcançarmos a maturidade. Contudo, acredito que ela também seja a fase mais intensa de toda nossa existência, pois nela acontecem boa parte das descobertas, que vão daquelas relativas à sexualidade às inerentes à busca pela liberdade e pelo sublime, encontrado na arte por alguns e no hedonismo ou nas experimentações por outros... Poucas vezes o cinema conseguiu retratar esta etapa tão conturbada da vida como em As Vantagens de ser Invisível (2012), filme que me proporcionou uma das melhores experiências cinematográficas deste início de ano. 

Ao contrário do que pode parecer à primeira vista, As Vantagens de ser Invisível, apesar de ser um filme sobre a adolescência, não é um filme 'adolescente', sua  trama atinge um nível de profundidade poucas vezes visto em um longa que consegue ser ao mesmo tempo leve, divertido e comovente. Ele discorre sobre temas que já foram abordados inúmeras vezes em outras produções, como o isolamento social, o bullying e a descoberta do amor, porém seu roteiro, que é muito bem escrito, vai muito além do que boa parte das outras obras já foram. Ao partir da visão de um garoto que acaba de entrar no ensino médio e não consegue se relacionar com os novos colegas, a história aponta fatores sociais, educacionais e familiares que podem reforçar ou amenizar a dor provocada pela invisibilidade social. O roteiro ainda passeia por temas espinhentos, que não são exclusivos da adolescência, dentre eles a rejeição, a homofobia, o abuso sexual, a violência familiar, as drogas e a depressão, isso, sem precisar recorrer a lugares comuns e moralismos baratos.


Charlie (Logan Lerman), o personagem central do longa, é um garoto tímido de 15 anos que acaba de entrar no colegial, ele é inteligente, mas possui alguns problemas psicológicos que dificultam sua interação com os outros adolescentes. Ele passara todo o verão recluso, sem ter contato com outras pessoas além de seus familiares e a solidão fez com que ele se refugiasse nos livros e em suas próprias criações literárias. Devido à sua dificuldade de se relacionar, a volta às aulas se torna um verdadeiro desafio, ele teme não ser aceito em nenhum dos grupos. No colégio ele se torna vítima dos veteranos, que o perseguem, mas não demora muito e ele encontra um lugar junto aos outros "invisíveis". Ele faz amizade com Patrick (Ezra Miller), um garoto gay que mantém um relacionamento secreto um dos jogadores do time de futebol da escola. Patrick apresenta sua 'meia-irmã' para Charlie e este logo se apaixona, o nome dela é Sam (Emma Watson) e ela também luta contra seus próprios fantasmas, sua infância conturbada gerou reflexos negativos em sua adolescência e agora ela tenta achar um novo caminho, no entanto, por ser ingênua ela persiste em erros que podem colocar tudo a perder. 



Dr. Burton (Paul Rudd), o novo professor de literatura americana, se torna uma referência para Charlie, passando deste modo a ocupar um importante lugar, ocupado até então somente pela problemática Helen (Melanie Lynskey), tia dele, a quem ele vê, desde a infância, como uma verdadeira heroína. A interação com os novos amigos e com o novo professor conduz Charlie a um processo de autoconhecimento e amadurecimento, que ele jamais imaginou que fosse vivenciar. Na verdade, todos os personagens passam pelo mesmo processo, todos eles amadurecem no decorrer do período retratado e isto acontece porque em diversos momentos eles se veem obrigados a tomarem atitudes que requerem determinação e muita coragem... Em uma das cenas mais belas e memoráveis do longa Charlie redescobre como é se sentir vivo, com uma construção estética relativamente simples, o filme sintetiza nesta passagem tudo aquilo sobre o que a sua trama discorre, que resumindo, trata-se da alegria e da dor de se descobrir em um mundo novo, que pode ser cruel e bastante hostil para alguns...



Não tenho dúvidas de que os aspectos que mais chamam a atenção no filme são a trama e a forma com que ela é contada, o que me leva a crer que o fato de ele ter sido escrito e dirigido pelo autor do livro que lhe deu origem contou muito para seu excelente resultado. A história contada por ele e sua relativa profundidade dramática são sustentadas pelas ótimas atuações do elenco central, Logan Lerman e Emma Watson me surpreenderam muito, ele consegue dar consistência e veracidade a um personagem psicologicamente complexo, que é difícil de ser interpretado (diferenças à parte, acho que sua atuação é muito superior à do injustamente laureado Bradley Cooper, que também deu vida a um personagem psicologicamente complexo em O Lado Bom da Vida); já a Watson se despe por completo de sua personagem mais memorável (a Hermione Granger da Franquia de Harry Potter) e entrega uma atuação digna dos mais sinceros elogios - prestem atenção na forma com que ela expressa os diversos sentimentos experimentados pela sua personagem, como a raiva, a frustração, a melancolia, na maior parte das vezes sem precisar dizer uma só palavra sobre como se sente...



Ezra Miller, de quem eu já esperava muito, pelo talento demonstrado por ele em Precisamos Falar Sobre Kevin (2011), dá um verdadeiro show de atuação, mesmo seu personagem sendo um tanto caricato, ele consegue explorar nele diversas camadas, cuja existência é justificada pelos sentimentos que ele (o personagem) se vê obrigado a esconder. Na maior parte das cenas, Miller rouba as atenções para si, seu Patrick é fascinante, ele personifica todo o prazer das descobertas da juventude. Nas passagens mais dramáticas ele consegue nos convencer de que seu personagem é plausivelmente real e que o drama vivido por ele precisa ser levado a sério. O restante do elenco também entrega atuações boas, desempenhos condizentes com a importância que cada um dos seus personagens têm na trama, na verdade isso também merece ser destacado, Stephen Chbosky explora muito bem cada um deles, trabalhando suas motivações pessoais e respectivas personalidades, criando assim paralelos entre um e outro em diversas passagens. 



Em relação aos aspectos técnicos, As Vantagens de ser Invisível chama a atenção pela eficiência que extrai da simplicidade; em sua fotografia, direção de arte, figurinos não há nada de tão extraordinário e é justamente por isso que tudo aparenta ser tão natural, real até, a sobriedade estética ajuda a manter o foco na trama, que neste caso é o essencial. Algo interessante é que o roteiro aponta a música como um dos elementos capazes de colocar os garotos em contato com o sublime, ela representa a descoberta do novo, a expressão dos sentimentos e, numa análise mais profunda, ela seria o fator capaz de dar aos personagens o sentimento de pertencimento, não é por acaso que Charlie e Sam descobre a afinidade que têm através do gosto compartilhado pela banda inglesa The Smiths. Esta importância que a música tem para a narrativa se reflete na qualidade da trilha sonora, que é composta por excelentes canções de bandas e artistas como The Smiths, Sonic Youth, Pavement, New Order, Joey Ramone e David Bowie, cuja clássica "Heroes" toca em dois momentos essenciais da trama...



É praticamente impossível assistir As Vantagens de ser Invisível sem embarcar em uma nostálgica viagem de volta para a nossa própria adolescência, isso é maravilhoso, mas ele nos oferece ainda mais, mesmo sem ser um filme complexo ou pretensioso ele consegue nos levar a reflexões necessárias acerca de cada um dos temas que aborda e este é sem sombra de dúvidas um de seus grandes diferenciais. Rendo aplausos de pé para Stephen Chbosky e sua pequena obra-prima! Ultra recomendado!!!


Assistam ao trailer de As Vantagens de ser Invisível no You Tube, clique AQUI !


A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

16 comentários:

  1. Ainda estou aqui degustando e refletindo mais sobre ele, seu ótimo texto percorreu os sentidos mais principais do filme e consegui captar sua emoção - como eu, estamos aqui sensibilizados com esse filme. E olhe que deixei passar no cinema, duvidei por conta de todo o "buzz" em volta...de fato, é sensível e rico demais! Pra mim, merecia concorrer as principais categorias do Oscar 2013. Sem dúvida, um filme memorável e que nasceu clássico!

    abs

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  2. Ótimo texto como disse o colega acima. Amei o filme e concordo quando diz que o filme não é simplesmente sobre adolescente......é muito mais do que isso.


    Nasceu clássico mesmo......imperdível

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  3. Antes de ver este filme, quero ler o livro, que também ganhou muitos elogios de leitores e críticos.
    Abraços!

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  4. Adorei o seu texto, José Bruno!
    Não apenas apresentando as coerências técnicas, mas sua análise aprofunda apresenta ótimo insight sobre os principais temas abordados pelo filme, que é mesmo, muito humano e complexo em captar os sentimentos dos adolescentes. E o melhor: sem se perder em clichês. Destaques para o elenco e para a sensibilidade do diretor e roteiro, que merecia, sim, uma vaguinha no Oscar =)

    Abs!

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  5. Bruninho,
    deixei o teu para o último e agora não estou conseguindo me concentrar, acontece... :)
    Te deixo um abração e retorno com calma, tá bom Bruninho?
    Até!

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  6. Um filme adolescente inteligente. Isso não é muito comum, perto de tantos filmes de jovens descerebrados, feitos aos montes nos 80 e 90. Abraços.

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  7. Ótimo texto, como de praxe. Gostei muito desse filme, um dos melhores que assisti em 2012. Sem dúvida, a obra acaba transcendendo a temática apenas adolescente, permeando com sinceridade os caminhos dessa época. Um neo-clássico instantâneo do recente cinema norte-americano. Para ver e rever. Abração!

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  8. Oi Bruno,

    Tudo bem? Mateus tinha altas expectativas sobre esse filme, mas que não foram concretizadas. Então terminei não assistindo, mas a sua crítica me empolgou. Ando na contramão de Mateus, pois ele saiu fascinado pelo o Lado Bom da Vida e a mãe aqui frustada. Lembro da sua crítica sobre o filme.

    Bom feriado.

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  9. Olá, José Bruno.
    Eu não gosto muito de filmes sobre adolescentes porque estes muitas vezes se resumem a repetir os mesmos clichês de sempre.
    Ao que tudo indica, este filme é uma grata exceção.
    Abraço.

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  10. Excelente. Concordo com teu texto!

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  11. Seu texto é fantástico, bem como o filme. Tudo se encaixa perfeitamente e acredito até que seja interessante ler as suas palavras, antes de assistir ao filme.

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  12. Nao tive nostalgia por que estou vivendo isso, ultimo ano na escola, me identifiquei muito, sem falar na de charlie

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  13. Senti o que a emma sentia, em relembrar tudo que passou e o que chralie sentia, por ter um mundo a frente

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  14. Este filme é realmente incrivel, me identifiquei muito com o Charlie. Uma filme simple, divertido e tocante. Sua analise ficou perfeita. Parabens

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  15. Gostei de sua crítica. Em relação ao filme , consegui me ver no passado ( 2ano atras) quando estava terminando o segundo ano e com tudo o que cerca um jovem nesse período importante e menos notado de nossas vidas. Descobri que amadureci através desse filme já que não me sinto mais como um jovem cheio de transtornos e ansiedade. Posso dizer que o filme me mostrou que já sou um homem por não me sentir assim.

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    1. Em alguns momentos é natural nos sentirmos de um modo semelhante ao vivido pelo personagem, durante a adolescência isso é mais intenso, o que não quer dizer que seja um problema exclusivo desta fase de nossa vida. A resposta talvez esteja em compreender que nossas reações, ainda que não pareçam, são apenas respostas naturais aos estímulos do meio em que vivemos e muitas vezes o problema não está em nós, mas no meio em que estamos inseridos... Jamais se sinta diminuído se um dia, diante de alguma situação, você voltar a se sentir da mesma forma, isso e mais comum do que você imagina. Fico feliz que tenha gostado do texto, abraços!

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