segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Vencedores do Oscar 2013

A cerimônia de entrega do Oscar deste ano ocorreu sem grandes surpresas, de inusitado mesmo foi só o tombo da Jennifer Lawrence na hora de subir no palco para pegar sua estatueta e algumas das piadas ácidas feitas pelo Seth MacFarlane, o apresentador. Argo conquistou o prêmio de Melhor Filme, tornando ainda mais notável o absurdo de não ter sido indicado também na categoria de Melhor Diretor. O Daniel Day-Lewis confirmou seu favoritismo e ficou, merecidamente, como o prêmio de Melhor Ator (um recorde, ele é se tornou o único ator a ser premiado três vezes nesta categoria). A Lawrence confirmou que um lobby bem feito conta muito, tomando para si o prêmio que, por merecimento, deveria ter sido entregue à Emmanuelle Riva. O Christoph Waltz e a Anne Hathaway foram premiados nas categorias de atuações coadjuvantes, o que também não foi nenhuma surpresa. Amor que, na minha opinião, deveria ter ganho também as estatuetas de Melhor Filme, Direção e Roteiro Original, ficou apenas com a de Melhor Filme Estrangeiro. Lincoln, que era um dos favoritos da noite em várias categorias, foi o grande azarão, ele ficou apenas com dois dos 12 prêmios aos quais estava indicado. 


Confiram abaixo a lista completa dos vencedores:

Melhor Filme - Argo

Melhor Diretor - Ang Lee por As Aventuras de Pi

Melhor Atriz - Jennifer Lawrence por O Lado Bom da Vida

Melhor Ator - Daniel Day-Lewis por Lincoln

Melhor Atriz Coadjuvante - Anne Hathaway por Os Miseráveis

Melhor Ator Coadjuvante - Christoph Waltz por Django Livre

Melhor Animação - Valente

Melhor Direção de Arte - Lincoln

Melhor Figurino - Anna Karenina

Melhor Trilha Sonora Original - As Aventuras de Pi

Melhor Roteiro Original - Django Livre

Melhor Roteiro Adaptado: Argo 

Melhor Canção - Adele com "Skyfall" de 007 - Operação Skyfall

Melhor Fotografia - As Aventuras de Pi

Melhor Filme Estrangeiro - Amour (Austria)

Melhores Efeitos Visuais - As Aventuras de Pi

Melhor Maquiagem - Os Miseráveis

Melhor Documentário - Searching for Sugar Man

Melhor Documentário em Curta-metragem - Inocente

Melhor Curta-metragem - Curfew

Melhor Curta-metragem Animado - Paperman

Melhor Montagem - Argo

Melhor Edição de Som - A Hora Mais Escura 007 - Operação Skyfall

Melhor Mixagem de Som - Os Miseráveis

(clique nos links para acessar as resenhas dos filmes)

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Lincoln

Lincoln (Lincoln) - 2012. Dirigido por Steven Spielberg. Escrito por Tony Kushner, baseado no livro de Doris Kearns Goodwin. Direção de Fotografia de Janusz Kaminski. Música Original de John Williams. Produzido por Steven Spielberg e Kathleen Kennedy. DreamWorks SKG, Twentieth Century Fox Film Corporation e Reliance Entertainment / EUA.


Dramaticamente, Lincoln (2012) de Steven Spielberg representa uma grande evolução quando comparado com o seu antecessor, o irregular Cavalo de Guerra (2011), no entanto, mesmo eu tendo gostado bastante dele, não tenho como negar que ele tropeça em problemas que têm sido recorrentes em alguns dos últimos trabalhos do cineasta. Os mais graves deles são o excesso de melodrama e a superficialidade com que a história é contada. Lincoln transita por um caminho conhecido, mas ainda assim perigoso, onde um pequeno acidente pode causar um grande desastre, o dos dramas históricos/biográficos. O primeiro risco que este tipo de produção corre é o de se tornar atrativa apenas para o público que já conhece ou que está de alguma forma ligado aos fatos nelas contados, já o segundo diz respeito à romantização dos acontecimentos, que ocorre quando a precisão histórica é deixada de lado em favor da construção de mitos e heróis.

O longa de Spielberg esbarra nas duas situações listadas acima e isso o prejudicou muito, tanto junto à crítica, quando ao público médio, este geralmente menos exigente, diante do qual o diretor ainda possui um forte apelo. Pela forma com que a trama do filme é construída, já podemos descartar a possibilidade de que ele venha a ser uma unanimidade, o ritmo relativamente lento e a falta de ação tende a desagradar a parte do público que esperava dele uma secessão de clímax e apelos emocionais (tal como foi em Cavalo de Guerra), isso por outro lado poderia agradar um público restrito, aquele que valoriza a precisão da reconstrução de uma época e o detalhismo dos diálogos e relações, todavia, isso também não acontece. Apesar de ser um filme predominantemente de conversas, discussões e debates, o que se sobressai nele não é a fidelidade aos acontecimentos, mas a simplificação do contexto no qual o personagem central está inserido.


O longa busca recriar os últimos meses de vida do presidente americano Abraham Lincoln (Daniel Day-Lewis) e a batalha dele para conseguir aprovar a 13ª emenda constitucional, que abolia a escravidão no país. Ele, que estava entrando em seu segundo mandato, via no fim da escravatura uma forma de alcançar a igualdade entre os homens, na qual acreditava, e de dar um fim à guerra civil que já tinha feito centenas de milhares de mortos. Para conseguir a aprovação da emenda ele se rende a meios escusos, como a compra de votos e as chantagens políticas. Mas, mesmo estando envolto numa rede de ações, que podem facilmente ser classificadas como corrupção, Lincoln se mantém firme em seu propósito, crendo que o fim justifica os meios... O roteiro de Tony Kushner perde a ótima oportunidade de explorar melhor a dicotomia da controversa postura do presidente, por saber que isso poderia macular a imagem de herói atribuída a ele.


Mesmo tendo um bom número de personagens com relativa importância, a trama não é confusa, com pouco tempo de duração já fica fácil distinguir quem está de qual lado e quais são seus propósitos, a superficialidade dos personagens é um dos fatores que contribui com isso, mas reconheço que este é um aspecto que ao menos torna o filme mais fácil de digerido pelos mais desatentos (ainda que estes o acusem de ser sonolento, não podem o classificar como confuso). É interessante a forma com que o filme retrata alguns dos personagens que estão à volta de Lincoln, como o filho primogênito Robert (Joseph Gordon-Levitt), que sente o peso de ser filho de quem é; a esposa Mary Todd (Sally Field), que não consegue superar a perda de um outro filho e Thaddeus Stevens (Tommy Lee Jones), um congressista abolicionista que age movido pela paixão e que em dado momento se vê obrigado a negar alguns de seus ideais em nome do jogo político; todos estes personagens trazem consigo marcas de suas respectivas relações com o protagonista...


Cinematograficamente, Lincoln é um sem dúvidas um bom filme, seu ritmo, apesar de lento, não é cansativo e está condizente com o foco político dado à trama. Se conseguirmos deixar de lado todas as falhas de seu roteiro, perceberemos melhor aquilo que o torna uma grande obra. As atuações são de longe o seu melhor aspecto, o Daniel Day-Lewis está estupendo, não é a toa que eu o considero o melhor ator em atividade, sua construção meticulosa do personagem é deixar qualquer um boquiaberto, não só pela semelhança física, mas por cada um dos trejeitos, pelo tom de voz e pela expressão facial, elementos estes que denotam uma sutileza incrível, que só um ator com tamanha habilidade poderia explorar. Sally Field e Tommy Lee Jones também entregam excelentes desempenhos, que justificam suas indicações ao Oscar


A direção de arte, figurinos e fotografia evidenciam um enorme cuidado na reconstrução de época que faz, é impossível não se deslumbrar com a beleza estética de cada fotograma. Dentre os aspectos técnicos, a trilha sonora, composta pelo John Willians, é um dos únicos problemas que prejudicam o longa, ela busca despertar no espectador sentimentos que deveriam surgir naturalmente, sem apelos, isso a torna massante e excessivamente melodramática (tal como o foi em Cavalo de Guerra).



Acredito que Lincoln tenha funcionado com uma facilidade maior junto ao público médio dos Estados Unidos, que não é indiferente à história que ele conta e que provavelmente não percebeu as falhas de seu roteiro, isso explica a badalação em torno dele na maior parte das premiações que aconteceram por lá. Reafirmo que ele não é um filme ruim, no entanto, acho um tanto exageradas suas indicações aos Oscars de Melhor Filme e Direção, uma vez que ele não consegue ir muito além das limitações que seu próprio roteiro lhe impõe, e discordo completamente das indicações recebidas nas categorias de Roteiro Adaptado e Trilha Sonora Original, pois estes são de longe seus aspectos mais irregulares... Recomendo para todos (com as ressalvas comentadas no texto)! 


Lincoln está indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Filme, Diretor, Ator (Daniel Day-Lewis), Atriz Coadjuvante (Sally Field), Ator Coadjuvante (Tommy Lee Jones), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original, Fotografia, Figurino, Direção de Arte, Montagem e Mixagem de Som.

Assistam ao trailer de Lincoln no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra,

sábado, 23 de fevereiro de 2013

O Mestre

O Mestre (The Master) - 2012. Escrito e Dirigido por Paul Thomas Anderson. Direção de Fotografia de Mihai Malaimare Jr.. Música Original de Jonny Greenwood. Produzido por Paul Thomas Anderson, Megan Ellison, Daniel Lupi e JoAnne Sellar. The Weinstein Company, Ghoulardi Film Company e Annapurna Pictures / EUA.


O Mestre (2012), obra mais recente de Paul Thomas Anderson, começa com uma imagem do mar, que nos é mostrada de uma perspectiva que nos leva a crer que estamos em uma embarcação e que algo fora deixado para trás. Depois de um corte é feito um close no rosto de Freddie Quell (Joaquin Phoenix), um dos personagens centrais, ele é mostrado por detrás de algo e por estar de capacete vemos apenas parte de seu rosto. Este recorte da imagem dá a entender que ele está em meio a uma batalha, a falta de foco no secundo plano não nos permite saber onde de fato ele se encontra. Seu olhar permanece fixo por uns instantes, como se ele tivesse mirando algo, mas de repente, num sutil movimento, ele se vira para o lado e seu olhar se perde no vazio. Ao associarmos a primeira cena, a do mar, com esta na qual é feito o close, compreendemos que talvez o personagem esteja voltando da guerra... No campo de batalha ele provavelmente não se permitiria perder o inimigo de vista para mirar o vazio, mas ele já não está mais em combate, todavia, ele sabe que seu maior conflito, o interno, está apenas começando.

Ainda na cena do close, uma das músicas mais marcantes da trilha sonora começa a tocar, ela pontua e dá ritmo para algo de selvagem que o personagem tem dentro de si, um impulso externalizado através de seu comportamento violento, de seu alcoolismo e de sua sexualidade quase bestial. Estas características, determinantes da personalidade de Quell, são delineadas através de construções simples, feitas por meio de cenas nas quais ele é retratado junto com outros soldados num momento de descontração em uma praia. Em uma das cenas mais marcantes da introdução do filme, Freddie simula o ato sexual com um corpo feminino moldado na areia, a princípio seus companheiros se divertem com a brincadeira, mas logo suas expressões ganham um outro contorno, eles parecem se assustar à medida em que percebem que Quell talvez esteja no limiar de sua sanidade... A notícia que oficializa o fim da guerra vem através de uma transmissão de rádio, chegara a hora de voltar; após passar por uma avaliação psicológica, Freddie retorna à vida de civil, porém, traumatizado e com sua mente ainda mais degenerada pelo que ele vivenciara no front


Sem qualquer perspectiva de futuro, Freddie pula de um emprego para outro, seus rompantes de violência e o alcoolismo o impedem de ficar muito tempo em um mesmo lugar e de criar relacionamentos. Após uma fuga desesperada o ex-fuzileiro naval vai parar em um barco que estava ancorado no cais, lá estava acontecendo a festa de casamento da filha de Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman), o mestre ao qual o título do filme se refere. Dodd, que se diz ser, dentre outras coisas, escritor, médico, físico nuclear e filósofo teórico é uma clara referência a L. Ron Hubbard, criador da cientologia. Ele acabara de lançar um livro, chamado 'A Causa', no qual pregava que o ser humano não era um animal como outro qualquer, mas um ser superior, cujo aperfeiçoamento podia ser feito através de sessões nas quais indivíduos eram postos em contato com seu próprio passado e com suas supostas vidas anteriores. Dodd vislumbra em Quell uma oportunidade de comprovar aquilo que defendeu em sua obra literária. Ele credita a afeição e a simpatia que teve por aquele pobre diabo à uma experiência ainda não conhecida, que eles provavelmente teriam vivido juntos em uma época remota. 


Peggy Dodd (Amy Adams), esposa de Lancaster, vê com desconfiança o relacionamento do marido com Freddie, ela acredita que este pode estar colocando em risco a seita e a credibilidade das ideias que a sustentam, o marido no entanto desconsidera a opinião dela e continua apostando na regeneração do novo discípulo. Da controversa cumplicidade entre estes dois homens de comportamento aparentemente antagônicos surgem algumas das reflexões mais interessantes propostas pelo filme. A relação mestre/discípulo é totalmente desconstruída no desenrolar da trama, pouco a pouco percebemos que Dodd e Quell não são tão diferentes um do outro, o que distingue seus comportamentos é apenas o autocontrole  que o primeiro se impõe através da religião que criou. O ex-marinheiro se submete às práticas e ritos da seita, da qual agora faz parte, não por coerção ou por imposição de seu líder, mas porque ele próprio enxerga em tudo isso um caminho para a redenção. Em algumas passagens fica evidente que o que o impulsiona é a culpa e em diversos momentos ele se atormenta ou busca formas de se punir pela perda do controle.


Através da seita retratada no filme, Paul Thomas Anderson propõe uma reflexão sobre temas comuns a diversas outras religiões, como o charlatanismo, o controle social exercido através da fé e a incapacidade da religião de mudar de fato a natureza dos indivíduos, alterando apenas a fantasia que estes vestem nos meios sociais em que transitam. É interessante perceber que a possível regeneração de Freddie Quell representa para Lancaster Dodd uma oportunidade de atestar aquilo que prega, todavia, a ameaça de fracasso, que ronda todo o processo, não é vista como um indício da falência dos princípios que sustentam a religião, mas como uma falha isolada, cuja o único culpado é o próprio indivíduo (qualquer semelhança com a doutrina de algumas religiões, das quais estamos relativamente próximos, pode não ser mera coincidência), é este silogismo que garante a sustentabilidade da 'Causa' e de tantas outras seitas, sendo assim, mesmo que haja provas consistentes de que aquilo que elas pregam não passa de uma abstração mais confortável de uma realidade dura (como era do período pós-guerra), elas permanecerão imunes e atrativas para novos seguidores.


Joaquin Phoenix está formidável no filme, sua atuação é de uma entrega assustadora, ele expressa a deformação moral e psicológica de seu personagem através do olhar perdido, da testa franzida, do corpo ligeiramente entortado e dos movimentos involuntários, que denotam seu constante nervosismo. Quando olho para ele simplesmente não consigo ver o ator, este praticamente desaparece, o que vejo é algo ainda maior que um simples personagem, é uma alegoria da própria humanidade  em seu estado bruto, latente e sem adornos ou qualquer tipo de fantasia. Diferente dos demais personagens, o Freddie Quell de Phoenix é o que é, ele não tenta (ou simplesmente não consegue) esconder o que há de reprovável em seu comportamento e isso o torna, ainda que condenável pelos demais aspectos,  menos hipócrita do que aqueles que o cercam, por isso o personagem nos causa tanto impacto, sua profundidade aliada à excelente construção feita pelo ator é uma das melhores coisas do filme. 


O Philip Seymour Hoffman também está ótimo (o que não é novidade), ele dá vida a um personagem ambíguo e controverso, seu desempenho é tão consistente que em nenhum momento as atitudes de seu Lancaster Dodd nos pareçam falsas, ainda que contraditórias. A Amy Adams também entrega uma atuação madura e repleta de nuances que engrandecem sua personagem no decorrer da trama, a forma com que ela expressa o poder que Peggy tem, mesmo sendo aparentemente tão frágil, é genial (prestem atenção numa passagem na qual ela alerta o marido sobre os malefícios de sua amizade com Freddie). 


A trilha sonora é um elemento de extrema importância no filme, ela está atrelada à narrativa e como tal ela ajuda a compor a linguagem do filme, nos dizendo muito sobre os personagens e sobre as motivações que estão ocultas em suas mentes, motivações estas que vêm á tona em algumas passagens através de manifestações quase involuntárias, instintivas. As canções de Jonny Greenwood cumprem este papel de forma excelente, elas reforçam tanto a tensão quanto a degeneração psicológica que permeia todo o desenrolar da trama. Já a fotografia do filme denota um enorme cuidado e um alto conhecimento da linguagem, o que já era algo esperado em se tratando de um filme do Paul Thomas Anderson. Iluminação, enquadramentos e travelings ajudam a compor uma estética que remonta aos clássicos de décadas anteriores, mas sem perder o frescor e a força do novo.


O Mestre não é o tipo de filme fácil de cair no gosto popular, afinal nele não há nada pronto, desde a primeira sequência o cineasta nos convida a participar da obra, a construí-la junto com ele, somando a ela nossas próprias reflexões e posições sobre os temas abordados, aqueles que não estiverem dispostos a fazer isso, certamente terão dificuldades para achar algum sentido na história contada. Definitivamente não é uma obra indicada para aquela significativa parcela do público que está sempre ávida por resoluções simples para os conflitos abordados e por roteiros que lhes entreguem mastigado o conteúdo que caberia a eles decodificar...


Certamente, ter tocado em um tema tão polêmico como a cientologia (principalmente em Hollywoodprejudicou a aceitação do filme em algumas frentes, este talvez seja o motivo pelo qual algumas cenas, que chegaram a ser incluídas em trailers, ficaram de fora do corte final... Isto, no entanto, não diminui em nada a força desta obra-prima, muito pelo contrário. O Mestre é mais um filme do Paul Thomas Anderson que já nasceu clássico... Ultra Recomendado, principalmente para aqueles que apreciam e valorizam o cinema autoral!

O Mestre está indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Ator (Joaquin Phoenix). Ator Coadjuvante (Philip Seymour Hoffman) e Atriz Coadjuvante (Amy Adams ).

Assistam ao trailer de O Mestre no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra,

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

O Impossível

O Impossível (Lo imposible) - 2012. Dirigido por Juan Antonio Bayona. Escrito por Sergio G. Sánchez, baseado na história de  María Belón. Trilha sonora original composta por Fernando Velázquez. Direção de Fotografia de Óscar Faura. Produzido por Belén Atienza, Álvaro Augustín, Ghislain Barrois e Enrique López Lavigne. Apaches Entertainment, Telecinco Cinema, Mediaset España, Canal+ España, Generalitat Valenciana, Institut Valencia de Cinematografia (IVAC), Instituto de la Cinematografía y de las Artes Audiovisuales (ICAA) e La Trini / Espanhola.


No dia 26 de dezembro de 2004 um terremoto submarino, ocorrido na costa da Indonésia, produziu um dos mais violentos tsunamis já registrados, ondas gigantescas se chocaram contra o litoral matando mais de 230 mil pessoas em oito países. As imagens divulgadas logo após a catástrofe eram assustadoras e davam a dimensão do que havia ocorrido, o mundo estava chocado, porém, junto com a dor, surgia um fio de esperança, alimentado pela solidariedade daqueles que perderam tudo, inclusive familiares, e ainda assim se dispuseram a ajudar como voluntários no resgate e no socorro prestado às vítimas. A percepção de que a vida não tinha acabado ali se materializou também nas histórias individuais de sobreviventes, a quem o acaso poupou da morte certa. A esperança em meio ao caos é o alicerce que sustenta a trama de O Impossível (2012), produção espanhola, baseada em fatos reais, que narra o drama real vivido por uma família de espanhóis, residente no Japão, que foi atingida pelo tsunami enquanto estava de férias na Tailândia.

Maria (Naomi Watts) e Henry (Ewan McGregor) estavam hospedados com os três filhos, Lucas (Tom Holland), Thomas (Samuel Joslin) e Simon (Oaklee Pendergast), em um um resort à beira mar, eles estavam na piscina quando a enorme onda invadiu a costa destruindo tudo que estava à sua frente. Maria e Lucas milagrosamente conseguem sobreviver, um com a ajuda do outro. Já tendo condições de se locomoverem em meio aos destroços deixados pelo tsunami, eles partem em busca de ajuda. Eles temem que uma outra onda possa atingi-los, mas ainda assim decidem voltar e ajudar um garotinho bem pequeno chamado Daniel (Johan Sundberg) que gritava por socorro. Os três são resgatados por nativos, que os encaminham para pontos onde feridos estão recebendo os primeiros cuidados médicos, no meio do percurso eles perdem Daniel de vista. Pouco a pouco vamos tomando conhecimento da gravidade dos ferimentos de Maria, ela tem cortes profundos em algumas partes do corpo, ferimentos que podem levá-la à morte.


Ao meu ver, Lucas é o personagem principal do filme, na trama ele é mais importante até mesmo do que a Maria, é através dele que o filme desenvolve algumas de suas principais abordagens, dentre elas a já mencionada questão da solidariedade entre as vítimas. No início da história, ele demonstra ser egoísta e incapaz de se sensibilizar diante do drama alheio, chega a ser surpreendente a frieza com que ele fala da provável morte do pai e dos irmãos, todavia, ele passa por profundas transformações ao se deparar com o lado mais cruel da vida, no decorrer da narrativa descobrimos nele uma força descomunal e uma sensibilidade tocante que pareciam estar, por algum motivo, ocultas no início da trama. A construção minuciosa deste personagem é ao meu ver uma das melhores coisas de O Impossível, no entanto o roteiro peca ao apelar para algumas coincidências que seriam dispensáveis dada a força que a história original já trazia consigo - Exemplo disso acontece no início do filme, na cena em que Lucas encontra no meio da inundação uma latinha de refrigerante, do mesmo que sua mãe não o deixara pegar no frigobar quando chegaram no resort.


Mas, se o roteiro peca em alguns pontos, a direção por outro lado apresenta um trabalho bem mais consistente e sem irregularidades, cuja qualidade pode ser percebida na forma com que o suspense é explorado no desenvolvimento da trama e na maneira com que algumas cenas são construídas para despertar em nós espectadores algum tipo de sentimento. Juan Antonio Bayona parece repetir neste filme uma fórmula típica das produções do gênero terror/suspense e não é algo de todo estranho, afinal de contas ele é o diretor de O Orfanato (2007), um dos filmes do gênero mais elogiados no últimos anos, a forma com que ele explora esta fórmula é, no entanto, muito bem sucedida, tornando o filme uma obra na qual o sensorial conta mais que a reflexão, sem que isso constitua um aspecto negativo. A manutenção de um constante clima de tensão compensa alguns tropeços da história e faz com que o filme não se torne cansativo, mesmo nas partes em que ele perde a visceralidade das sequências iniciais.


O Ewan McGregor está bem no filme, mesmo não tendo nada de especial, sua atuação é capaz de nos convencer da 'verdade' de seu personagem, a Naomi Watts está ótima, apesar de eu achar que seu personagem é mais coadjuvante do que principal, uma vez que, como eu já disse, o personagem do Tom Holland carrega consigo quase toda a força dramática do filme e em torno dele acontece os eventos mais importantes do longa. Pra mim, a grande surpresa do filme são as atuações infantis, Holland está soberbo, seu desempenho é formidável e merecia ter sido premiado ao menos com uma indicação ao Oscar. Samuel Joslin e Oaklee Pendergast também estão ótimos eles fazem muito mais do que repetir falas decoradas (como é comum em atuações infantis); a naturalidade que emana das interpretações dos garotos causa mais impacto do que qualquer outra coisa no filme. Uma das sequências protagonizadas pelos três já está em minha lista pessoal das melhores da temporada.


Os aspectos técnicos do filme também são irrepreensíveis, eu que que fiquei boquiaberto com a passagem do tsunami presente no início de Além da Vida (2010), filme dirigdo pelo Clint Eastwwod, me surpreendi ainda mais com os excelentes efeitos visuais de O Impossível, a passagem que retrata a chegada da onda foi muito bem realizada, mas não é só ela que chama a atenção, a recriação da cidade devastada também é ótima, assim como a maquiagem e efeitos plásticos que simulam feridas expostas e mutilações (outro aspecto que lembra o terror, como gênero)...  Mesmo com os problemas no roteiro e no ritmo, o longa de Juan Antonio Bayona ainda pode ser considerado um excelente filme sobre catástrofe e o fato dele apontar para um aspecto humanista, ao invés de focar apenas a busca pela sobrevivência, é um de seus grandes acertos, uma pena que para tal ele acabe recorrendo a alguns clichês, que podem até ser perdoados dependendo da forma com que você interagir com o drama retratado... Recomendo!


O Impossível está indicado ao Oscar na categoria de Melhor Atriz (Naomi Watts).

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A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra,

domingo, 17 de fevereiro de 2013

As Sessões

As Sessões (The Sessions) - 2012. Dirigido e Escrito por Ben Lewin, baseado no artigo 'On Seeing a Sex Surrogate' de Mark O'Brien. Trilha sonora original composta por Marco Beltrami. Direção de Fotografia de Geoffrey Simpson. Produzido por Ben Lewin, Judi Levine e Stephen Nemeth. Such Much Films e Rhino Films / USA.


Acredito que não é nada fácil retratar de uma forma leve em um filme uma situação que é originalmente dramática, pois há sempre a possibilidade de que o drama se torne superficial e de que o impacto que poderia ser causado por ele acabe se perdendo na trama, isso aconteceu recentemente com o filme francês Intocáveis (2011), no qual a história real que o inspirou foi descaracterizada e reduzida a uma exaltação de uma simplicidade que não existe na vida real. O loga As Sessões (2012) correu o mesmo risco, no entanto a sutileza do roteiro e da direção de Ben Lewin fizeram com que nele a leveza fosse preservada sem que a carga dramática fosse prejudicada. Sua trama, que também foi inspirada por fatos reais, consegue nos emocionar e nos fazer rir em diversos momentos, mas sem deixar de ressaltar a condição do personagem central e as dores físicas e emocionais sentidas por ele.

Mark O'Brien (John Hawkes), o protagonista, teve poliomelite quando ainda era criança e a doença deixou graves sequelas em seu corpo. Com 38 anos, ele vive preso à uma cama móvel e respira com a ajuda de um pulmão de ferro, a doença no entanto não impediu que ele realizasse grandes feitos em sua vida, ele fez faculdade e se tornou um escritor respeitado. Uma coisa, porém, ele nunca conseguiu, conquistar uma mulher. Ele nunca teve uma vida sexual ativa, pois, além das restrições físicas impostas pela doença, ele ainda se submeteu a rígidos dogmas religiosos, que, através da culpa induzida, o afastaram de qualquer tentativa de se relacionar e de expressar sua sexualidade. A virgindade passa a lhe incomodar após ele dar início à uma série de entrevistas com desconhecidos para a produção de artigo sobre o sexo na vida de deficientes físicos (o mesmo texto que deu origem ao filme).


Mark se apaixona por Amanda (Annika Marks), sua acompanhante, mas ela se demite após ser surpreendida por um pedido de casamento. Frustrado, ele pede conselhos para Brendan (William H. Macy), o novo padre de sua paróquia, este compreende sua situação, mas sem saber o que dizer, ele lhe recomenda a busca por ajuda especializada, por algum profissional que trate problemas emocionais oriundo de questões da sexualidade. O'Brien então marca uma consulta com uma psicóloga e esta por sua vez lhe recomenda uma terapeuta do sexo, é então que Cheryl (Helen Hunt) entra em cena. Ela defende que seu trabalho não é uma forma de prostituição, afinal de contas ele possui um propósito nobre e ela garante que não o faz pelo dinheiro. A terapia que ela propõe se baseia em sessões intimas, nas quais ela tentar despertar o tesão e quebrar os traumas que impedem o paciente de ter uma vida sexual normal. A técnica pode ser resumida em: perca o medo de transar, transando!


A relação entre Mark e Cheryl é retratada com uma sutileza impressionante, colabora com isso o fato de ambos serem personagens cativantes e é interessante perceber os dilemas enfrentados pelos dois durante o tratamento (este é um dos melhores aspectos do filme), ele continua envolto pelas questões religiosas que lhe imputam culpa desde a infância e ainda tem que lidar com as já citadas restrições físicas; ela, por sua vez, ultrapassa limites que deveriam ter sido resguardados e acaba se envolvendo emocionalmente com o paciente, mesmo sabendo o perigo que isso representa para ambos... Ao contrário do que eu tinha imaginado à princípio, As Sessões não é um filme sobre superação (ao menos este não é o seu foco, ele é na verdade um filme sobre relacionamentos, não somente sobre o amor, mas também sobre a amizade e a cumplicidade.


No filme, os personagens secundários, apesar de não terem uma grande profundidade dramática, são bem tratados pelo roteiro e a construção de cada um deles está condizente com a abordagem do roteiro sobre os relacionamentos, temática que fica evidente nas interações entre o personagem central e o padre, nas quais a cumplicidade transcende o rigor cego dos dogmas católicos e até na relação entre ele (o protagonista) e Vera (Moon Bloodgood), a substituta da enfermeira Amanda, é legal perceber como ela luta contra o constrangimento  que sente diante da situação a que se expõe para tentar ajudá-lo, levando-o para as sessões e sendo uma ouvinte paciente e boa conselheira. 


Já Cheryl, é uma personagem um pouco mais complexa e dotada de profundidade dramática, o roteiro se preocupa em retratar também a vida familiar dela, ressaltando o seu distanciamento afetivo em relação ao filho adolescente e a ao marido, não por acaso, o primeiro não a chama de mãe, apenas pelo nome, e o segundo é retratado na maioria das cenas ao lado dela na cama, o que entendo como uma tentativa do filme de nos dizer que o casamento deles sobrevive tão somente por causa do sexo, uma vez que a comunicação entre eles é repleta de ruídos; talvez por isso ela enxergue em Mark qualidades que não vê no marido, nem em outros pacientes, como a sinceridade em relação aos próprios sentimentos, a sensibilidade e o carinho devotado.


Eu gostaria que As Sessões tivesse sido indicado ao Oscar também nas categorias de Melhor Roteiro Adaptado e Ator, afinal é graças ao roteiro que ele consegue ser ao mesmo tempo leve, cativante e impactante, sem parecer falso ou superficial, e o John Hawkes está excelente, sua interpretação denota um ótimo trabalho de composição, que fica evidente pela sua empostação vocálica, pelas expressões faciais e até pela curvatura de seu corpo... A indicação da Helen Hunt ao prêmio da Academia, a única recebida pelo filme, foi justa, ela também tem um excelente desempenho, que fica evidente na naturalidade com que expressa os sentimentos de sua personagem e na coragem de se expor em cenas de completa nudez, mesmo já estando batendo na casa dos cinquenta (detalhe, ela continua linda), o que seria algo impraticável para muitas atrizes de sua idade.


Atribuo à direção e ao roteiro de Ben Lewin o fato de As Sessões não se perder em lugares comuns, como o apelo à comoção ou ao 'coitadismo', afinal o cineasta também foi vítima da polio quando criança. Apesar de suas sequelas serem amenas se comparadas às do personagem, sua vivência, também marcada pela dor proporcionada pelas restrições, contou muito para que o longa tivesse uma abordagem de certa forma enxuta e sem os exageros que poderia tê-la prejudicado tanto... O filme não é uma obra-prima, mas certamente merece ser visto e antes de tudo sentido por todos. Recomendo! 


As Sessões está indicado ao Oscar na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante (Helen Hunt).

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A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

A Hora Mais Escura

A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty) - 2012. Dirigido por Kathryn Bigelow. Escrito por Mark Boal. Trilha sonora original composta por Alexandre Desplat. Direção de Fotografia de Greig Fraser. Produzido por Kathryn Bigelow, Mark Boal e Megan Ellison. Columbia Pictures, Annapurna Pictures e First Light Production / USA.


Continuo acreditando que serão necessários, no futuro, um bom número de filmes revisionistas para desfazer a visão preconceituosa e reacionária da cineasta Kathryn Bigelow sobre a atuação dos Estados Unidos no oriente médio. O que ela fez em suas duas últimas obras pode ser facilmente confundido com uma propaganda ideológica encomendada pelo governo americano, tamanha a exaltação da atuação das tropas no Iraque e no Afeganistão, que, convenhamos, não está tão distante do terrorismo que elas dizem combater. Em A Hora mais Escura (2012) Bigelow chega ao ponto de tentar justificar a tortura contra prisioneiros de guerra, prática que constitui, ao meu ver, uma distorção de tudo aquilo que os americanos alegam defender. Tal como em Guerra ao Terror (2009), neste filme fica difícil separar a ideologia defendida dos demais aspectos, mas, mesmo considerando reprovável a forma absurdamente parcial com  que ele recria os eventos deste período histórico recente, tentarei avaliá-lo por aqueles que são seus melhores atributos. 

A Hora mais Escura retrata as atividades de uma equipe de elite do exército americano, a responsável pela  suposta captura e morte do terrorista Osama Bin Laden. Maya (Jessica Chastain) é uma agente da CIA que fora enviada para o oriente médio para interrogar prisioneiros de guerra. À princípio ela demonstra uma certa sensibilidade às práticas usadas para forçar os capturados a entregarem outros terroristas e a darem detalhes de suas operações, no entanto, com pouco tempo ela se adapta à esta realidade e se convence de que a tortura é o único meio de arrancar a verdade dos prisioneiros, que tentam permanecer fiéis às suas crenças até o limite do suportável. Em um dos interrogatórios surge uma pista frágil que pode levar à descoberta do paradeiro de Bin Laden e a agente se agarra à esta pista com todas suas forças. Contrariando orientações e sem se preocupar com o descrédito por parte de seus superiores, ela insiste em averiguar a fundo este que pode ser o seu grande achado, se mantendo firme no propósito de fazer o líder da al-Qaeda pagar pelo que fez ao seu país.


Durante todo o filme há a impressão de que a trama é imparcial e de que ela mostra aquilo que os Estados Unidos tentam esconder, mas não se enganem, até isso faz parte da estratégia e da propaganda ideológica feita pela produção, tudo o que vemos nela, inclusive as atrocidades, está previamente justificado (tenho que reconhecer a genialidade do roteiro neste aspecto, ainda que seja algo negativo em uma análise que vá além das questões cinematográficas). Na primeira sequência do filme, ouvimos uma conversa ao telefone que se dá entre uma atendente (aparentemente dos bombeiros) e uma mulher que estava em uma das torres do World Trade Center quando um dos aviões foi lançado contra ela, este diálogo choca e desperta a sensibilidade do espectador, preparando-o para a vingança que será iniciada e para a aceitação das práticas que logo serão retratadas. Olho por olho, dente por dente, esta é a ética à qual o filme recorre em sua cruzada em favor de uma pseudo-democracia e contra um terrorismo, que o governo americano encontraria facilmente em suas próprias práticas, caso deixasse de se ver como o juiz onipotente do mundo.


O filme busca despertar em seu público o mesmo sentimento de vingança que o move, para tal ele transforma qualquer árabe em um potencial terrorista e qualquer prisioneiro em um detentor de alguma verdade que se revelada pode impedir que um novo ataque aconteça. Em boa parte do desenrolar da trama, as cenas de tortura são intercaladas com outras que mostram atentados que realmente aconteceram, isto para nos lembrar que os terroristas (todos os muçulmanos de acordo com o que o filme dá a entender) são desumanos e por isso merecem ser tratados como tal. Os árabes são divididos pelo roteiro entre aqueles que optaram por colaborar com os soldados americanos (agindo como espiões e/ou delatores) e aqueles que merecem ser torturados e mortos por serem inimigos da democracia; não há meio termo. Já dentre os agentes e soldados que está a serviço do Tio Sam só existem heróis; dentre estes estão o torturador que brinca com macaquinhos nas horas vagas,  demonstrando sua sensibilidade; a agente, mãe de duas filhas, que demonstra sua coragem arriscando a própria vida em busca de informações e a personagem central, uma óbvia personificação daquele cidadão reacionário que teima em acreditar que matando um terrorista o mundo estará novamente à salvo e cada um de seus conflitos resolvidos... 


Não tenho dúvidas de que a Jessica Chastain seja a atriz certa para o papel (apesar de eu não gostar de vê-la em um filme defensor de uma ideologia tão condenável), ela consegue com uma destreza formidável nos convencer tanto da fragilidade quanto da força de sua personagem, ela está excelente tanto nos momentos em que sente repulsa, medo ou asco, quanto naqueles em que se impõe frente a pessoas mais fortes e poderosas que ela. A construção de sua personagem também está condizente com a proposta do filme, em sua fraqueza há uma grande potencialidade de identificação, afinal ela se considera uma vítima do terrorismo, sentimento que é compartilhado por inúmeras pessoas, principalmente nos Estados Unidos, e a força que ela demonstra ter em algumas passagens a transforma no tipo de herói que cada uma destas pessoas buscam. Este processo de identificação e admiração é crucial, pois é através dele que o filme transmitirá boa parte de sua carga ideológica. A intenção do roteiro é fazer com que cada espectador passe pelo mesmo processo de transformação vivido pela personagem, através do qual ela passa a aceitar as práticas condenáveis que o filme retrata. 


A Hora Mais Escura adota um tom quase documental em sua narrativa, estratégia muito bem utilizada para nos convencer do realismo daquilo que nos é mostrado, a naturalidade das imagens capturadas por uma câmera instável que tremula o tempo todo, atenua a tensão e reforça a ideia de que aquilo que estamos vendo não é tão somente um filme, mas uma reconstrução quase perfeita da realidade, algo próximo do que poderíamos ver em um tele-jornal, por exemplo. Tudo isso denota uma excelente qualidade técnica, mas é ao mesmo tempo algo perigoso, pois corremos o risco de tomarmos como real o que é apenas uma visão unilateral e tendenciosa dos fatos. Outros aspectos técnicos do filme também evidenciam o enorme cuidado que se teve com sua produção. Figurinos, enquadramentos, escolha das locações, direção de arte e a trilha sonora composta pelo sempre competente Alexandre Desplat, funcionam muito bem em favor da narrativa e daquilo a que ela se propõe. 


Tenho que reconhecer que A Hora Mais Escura não deixa a desejar em nenhum de seus aspectos técnicos e artísticos. Tento esquecer do quão reprovável é sua abordagem ideológica para apontá-lo como um dos melhores filmes da temporada (considero merecidas cada uma de suas indicações ao Oscar). Seu roteiro, apesar de toda a parcialidade, é muito bem escrito e a edição e a montagem dão a ele um ritmo frenético que não permite que ele se torne cansativo, mesmo sendo predominantemente um 'filme de gabinetes'. Apesar de tudo que mencionei no decorrer desta resenha, acho que ele merece ser assistido e principalmente debatido por todos, a minha recomendação é a de que ele deve ser visto com o senso crítico o mais aguçado possível, principalmente em relação às verdades que ele tenta nos vender. Recomendo (com as mesmas ressalvas com as quais recomendaria obras clássicas do D. W. Griffit e da Leni Riefenstahl)! 

 
A Hora Mais Escura ganhou o Globo de Ouro de Melhor Atriz de Drama (Jessica Chastain) e está indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Filme, Atriz (Jessica Chastain), Roteiro Original, Montagem e Edição de Som.

Assistam ao trailer de A Hora Mais Escura no You Tube, clique AQUI !


A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra,