domingo, 26 de maio de 2013

O Som ao Redor

O Som ao Redor - 2012. Escrito e Dirigido por  Kleber Mendonça Filho. Direção de Fotografia de Pedro Sotero e Fabricio Tadeu. Música Original de DJ Dolores. Produzido por Emilie Lesclaux. CinemaScópio / Brasil.


"Nascido da união de várias formas de expressão que não perdem inteiramente suas leis próprias (a imagem, a palavra, a música, os ruídos até), o cinema está na obrigação de compor, em todos os sentidos da palavra. É de imediato uma arte, sob a pena de não ser nada. Sua força ou fraqueza consiste em englobar expressividades anteriores; algumas são plenamente linguagens (o elemento verbal), outras apenas num sentido mais ou menos figurado (a música, a imagem, os ruídos)."

A citação acima, retirada do artigo 'Cinema: Língua ou Linguagem?', escrito pelo teórico francês Christian Metz e publicado em sua obra A Significação no Cinema, nos ajuda a compreender onde está, ao menos em parte, o mérito de O Som ao Redor (2012), filme dirigido por Kleber Mendonça Filho, que é de longe uma das melhores obras produzidas pelo cinema nacional nos últimos anos. A força deste contundente tratado cinematográfico sobre a tensão crescente nas grandes cidades se encontra justamente na maneira com que ele usa formas de linguagem não verbais, principalmente o som (diegético e não diegético), para construir sua narrativa. O diretor demonstra ter plena ciência de que o cinema como expressão artística é, tal como Metz defende, uma composição e que seu valor pode ser nulo se for evidente sua incapacidade de proporcionar uma convergência entre as linguagens 'anteriores', das quais a sua própria é constituída.

A máxima, repetida por inúmeros críticos e cinéfilos, de que o cinema é tão somente imagens em movimento é  reducionista, por cometer um erro primário, ela contraria a preposição de Metz, na qual acredito, de que o cinema nasce é da união de outras formas de expressão, não sendo portanto uma arte plena em inovação e capaz de se esgotar em si mesma. Neste ponto, vale lembrar que mesmo nos tempos do cinema mudo, a música e outros efeitos sonoros, que eram executados ao vivo nas salas de projeção, já ajudavam a compor ou complementar a linguagem de alguns filmes, aos quais davam acompanhamento. Acredito, portanto, que o cinema é a arte da convergência e que habilidoso é o cineasta capaz de exercer um domínio sobre os elementos de linguagem presentes em seus filmes e de usá-los a favor da construção da narrativa. Mendonça Filho demonstra ter este pleno controle, o que fica evidente na forma com que ele estabelece em seu longa um contínuo fluxo de comunicação não verbalizado, construído por meio de enquadramentos, da montagem e principalmente da edição e mixagem de som. 


Em cada aspecto de O Som ao Redor há uma gama de significações e mensagens capazes de provocar um enorme impacto no espectador, que pode, dependendo de seu nível de compreensão, ficar sem entender de onde vem tal sensação. É este fenômeno que me leva a classificar o filme como uma obra predominantemente sensorial. Todavia, apesar de sua notável capacidade de induzir reações diversas em seu público, ele pode ser classificado ainda como um filme reflexivo, eu até filosófico; parece contraditório, mas não é. O incômodo e a apreensão que ele nos proporciona nos conduz a inúmeros questionamentos, que surgem do fato de que a origem daquilo que sentimos durante a sessão não nos é prontamente revelada. Não se trata de um filme com respostas prontas ou com conflitos de fácil resolução e por conta disso os mais desatentos correm o risco de não enxergar onde de fato está o epicentro da trama, que é complexa e não alivia para o espectador em suas diversas inferências.

O foco da narrativa está no cotidiano de um grupo de moradores de uma mesma rua, localizada em um bairro de classe média do Recife e na forma com que ele se altera após a chegada de uma equipe de agentes, que oferecem, por um bom preço, um serviço de vigilância noturna. Neste microcosmo, capaz de representar a sociedade como um todo, podem ser percebidos inúmeros conflitos, alguns surgidos do atrito entre as classes sociais distintas que dividem este mesmo espaço urbano, outros do contínuo aumento da violência e da criminalidade no local. Durante todo o desenvolvimento do filme pode ser notada uma tensão crescente, uma espécie de agonia, que pode ser sentida mesmo nas sequências mais banais. Esta sensação é de certo modo uma extensão do medo que cada um dos personagens experimentam. A impressão é a de que paira no ar algum tipo de ameaça invisível, um perigo iminente, que sutilmente transforma as relações interpessoais e acaba afetando a estrutura de toda a sociedade. 


Kleber Mendonça Filho se preocupa em retratar o aprisionamento do qual a classe média se tornou vítima, em diversas passagens, os personagens são capturados de uma perspectiva que os mostra atrás das grades de janelas e portões (uma genial metáfora visual) e os enquadramentos salientam a altura dos muros e o isolamento, quase paranoico, daqueles que se escondem de fatos sociais que eles próprios ajudam a perpetuar. O roteiro destaca ainda a hipocrisia e os preconceitos de membros das camadas sociais ditas 'superiores', que gozam de alguns confortos às custas da exploração daqueles que estão à margem, e o desenvolvimento da narrativa nos incita a refletir sobre isso, somos instigados a questionar sobre até que ponto nós também não alimentamos o mesmo tipo de sentimento em relação àqueles que não possuem os mesmos privilégios que nós.


Em dada passagem, em uma reunião de condôminos, é posto em votação o destino de um dos porteiros do prédio, que, como alguns defendem, estaria já cansado demais para o trabalho; uma das mulheres presentes aponta a demissão do homem, que já estava perto de se aposentar, como a resolução mais viável para o problema e se justifica dizendo que a Revista Veja, que ela assina, tem sido entregue fora do plástico - esta talvez seja uma das passagens mais memoráveis do filme e sem precisar forçar muito é possível extrair do depoimento da moradora algumas inferências interessantes, ela ilustra bem a preocupação de algumas pessoas em garantir a manutenção das regalias às quais tem acesso (ainda que elas custem o bem estar de outrem), e ainda o estranho apreço daqueles que são oprimidos pelas ideologias que validam e sustentam tal opressão - No fim das contas, o suposto interesse do porteiro por uma revista, que representa uma classe social da qual ele não faz parte, pode ser um dos 'justos motivos' de sua demissão, irônico não?


A cena de abertura de O Som ao Redor mostra uma sequência de fotografias em preto e branco da época em que o Pernambuco estava dominado pelos senhores do engenho, estas imagens contrapõem o sofrimento daqueles que trabalham nos canaviais e nas usinas com o conforto dos fazendeiros que estão no topo deste que é quase um sistema de castas. A fatalidade associada à condição social fica evidente no restante do filme, que mostra de uma forma sutil que a organização social de hoje em dia não é tão diferente daquela retratada nas fotografias do início, isso porque há entre elas uma estreita relação de causa e consequência. É interessante também perceber que mesmo com o aumento do poder aquisitivo, impulsionado pelo crédito, e com a melhoria nas condições de vida da parcela menos favorecida da população, ainda não há um rompimento real com o tipo de organização social que se mantém firme desde a época dos engenhos. Há uma parca reorganização, mas não uma reestruturação real do status quo


No filme, percebemos que há, por parte da classe média emergente, uma tentativa de subverter o fatalismo e assim ascender na pirâmide social, o que se dá principalmente através do consumo, e daí nasce parte da tensão que vigora durante o filme. Além disso, há a questão da violência, que insurge como uma ameça capaz de tirar a tranquilidade e o sono de muitos, principalmente daqueles que têm muito a perder. Aqueles que sempre detiveram o poder se sentem ameaçados por aqueles que agora o reivindicam e os emergentes que acreditam já tê-lo conquistado também se atormentam com o medo de perdê-lo. Em ambas as situações a questão da insegurança se torna crucial e é através da sonoplastia que ela é trabalhada na trama, o medo de ter a tranquilidade violada ganha expressão quando barulhos exteriores invadem as casas, atravessando os muros e as grades, provocando assim algum tipo de incômodo, cuja percepção e reação varia de um personagem para outro e até mesmo entre nós espectadores. 


Os latidos do cachorro do vizinho, a música alta na rua, a sirene da viatura da polícia, a furadeira sendo usada em uma pequena reforma... em todos estes barulhos há a representação de algo maior, em uma análise um pouco mais ousada, eu diria que eles são a própria narrativa. Os sons são no fim das contas mais significativos do que as histórias fragmentadas de cada um dos personagens, no entanto, isso não tira o mérito sobre a construção de cada um deles, que são isentos de maniqueísmos e dotados de uma grande capacidade de representação de conceitos e ideologias, apesar de estarem inseridos dentro de um contexto fragmentado, formado apenas por recortes de uma realidade mais ampla. Destaco as atuações do Irandhir Santos, que dá vida ao agente de segurança particular Clodoaldo e a da Maeve Jinkings, que encarna Bia, uma dona de casa, que sofre com insônia e fuma maconha, escondida do marido e dos filhos, para tentar aliviar a pressão constante que sente (esta é uma das personagens que melhor representa a dita classe média emergente).


O Som ao Redor é quase um oásis em meio a um deserto de lugares comuns e fórmulas saturadas. Chega a ser recompensador estar diante de uma obra autoral, em nenhum momento subestima a capacidade intelectual de seu espectador; o que explica o considerável reconhecimento que lhe foi devotado tanto por parte da crítica quanto por uma significativa, porém segmentada, parcela do público, o que resultou em diversos prêmios e inúmeras críticas e impressões positivas. Bom seria se todos os filmes nacionais que alcançam este mesmo nível de qualidade (e eles existem) conseguissem também o feito de sair do circuíto de festivais e mostras e chegar às salas de cinema ou ao menos à rede por meio do compartilhamento de arquivos (prática que o próprio Kleber Mendonça Filho, sabiamente, defende). Arrisco dizer que este talvez seja o filme nacional mais importante das últimas décadas, sem exageros...


O Som ao Redor ganhou no Festival Internacional do Rio de Janeiro os prêmios de Melhor Filme e Roteiro. No Festival de São Paulo o de Melhor Filme Brasileiro. No Festival de Gramado, ele foi o vencedor nas categorias de Melhor Som e Roteiro, sendo também o escolhido pela crítica e pela audiência dentre os filmes de longa metragem em 35mm. O filme ainda ganhou prêmios nos festivais de Oslo, Rotterdam, Copenhagen e  Lleida.



Assistam ao filme completo no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

domingo, 19 de maio de 2013

8 Mulheres

8 Mulheres (8 Femmes) - 2002. Dirigido por François Ozon. Escrito por François Ozon e Marina de Van, livremente baseado na peça de Robert Thomas. Direção de Fotografia de Jeanne Lapoirie. Música Original de Krishna Levy. Produzido por Olivier Delbosc e Marc Missonnier. BIM, Canal+, Centre National de la Cinématographie (CNC), Fidélité Productions, France 2 Cinéma, Gimages 5, Local Films e Mars Distribution / França | Itália.


Em sua livre adaptação da peça de Robert Thomas, François Ozon reúne influências de diversos gêneros, inclui um bocado de citações à clássicos do cinema e explora um tipo de humor baseado no exagero e no absurdo. Do texto original, o roteiro, escrito por ele e pela Marina de Van, preservou a crítica social e a visão sarcástica da moral constituída e dos costumes da sociedade no período retratado, além de diversos outros elementos típicos da linguagem teatral. O tom tragicômico que a trama adota em seu desenvolvimento torna menos incômoda, mas não menos contundente, a visão amarga e fatalista dos relacionamentos, que se sobressai no retrato de uma família em processo de desestruturação. Neste ponto está um dos mais notáveis feitos do filme: ele consegue ser ácido sem perder a leveza e criticar sem perder seu senso de humor, que beira ao nonsense em algumas passagens.

A história gira em torno das oito mulheres, às quais o título do filme se refere, elas ficam presas em uma mansão, após um misterioso assassinato, do qual todas são suspeitas. A vítima foi Marcel (Dominique Lamure), o provedor da casa, ele fora encontrado pela manhã em seu quarto com uma faca cravada em suas costas. Isoladas devido à neve alta que cerca a casa e sem poder chamar a polícia, porque os fios do telefone foram cortados, as oito mulheres iniciam uma investigação para elucidar o crime, com um inquérito que acaba pautado pelas inúmeras acusações que trocam e pela revelação de vários segredos, que vêm à tona à medida que o cerco vai se apertando contra cada uma delas. Com o desenrolar da trama, se torna mais difícil apontar uma inocente do que uma culpada, uma vez que todas, sem exceção, são de alguma forma responsáveis pela situação em que a família já se encontrava antes do crime.  


Gaby (Catherine Deneuve), esposa de Marcel, é a herdeira legal de seus bens e isso, somado ao fato de que seu casamento estava em crise, a torna uma das primeiras a serem acusadas. Suzon (Virginie Ledoyen), a filha mais velha, que acabara de chegar para passar o natal,  tem à princípio um bom álibi, não por acaso é ela quem conduz as investigações num primeiro momento, porém, após algumas revelações ela acaba se tornando vítima de sua própria inquisição. Catherine (Ludivine Sagnier), a filha caçula, já não aguenta mais ser tratada como criança e sua revolta adolescente, associada ao seu gosto por livros sobre mistérios e assassinatos, a torna um alvo fácil para acusações e calúnias. Mamy (Danielle Darrieux), sogra do morto, se torna suspeita devido à sua ambição desmedida e seu descontentamento em relação à sua própria situação na casa, a de uma dependente do genro.


Augustine (Isabelle Huppert), cunhada de Marcel, é a típica solteirona afetada, que justifica seu comportamento pedante com seus ataques fingidos e suas falsas doenças, o fato de ela ser uma mentirosa nata a coloca em maus lençóis durante a investigação. Pierrette (Fanny Ardant), irmã da vítima, é dançarina de cabaré e seu comportamento liberal a torna a ovelha negra da família e, óbvio, uma outra grande suspeita, ela, que é a última a entrar em cena, diz ter recebido uma ligação avisando sobre a morte do irmão e por isso resolveu aparecer para checar se a informação era ou não verdadeira. Louise (Emmanuelle Béart), a camareira, desperta a desconfiança das demais com seu jeito sensual e seu comportamento misterioso, típico de uma mulher fatal. Madame Chanel (Firmine Richard), a outra empregada, aparentemente não tinha motivos para cometer o crime, porém ela poderia tê-lo feito para proteger uma outra personagem. 


A reunião deste grupo de personagens caricatos sob um mesmo teto resulta em situações improváveis, que chegam a parecer surreais tamanho o exagero com que são retratadas, todavia, em meio ao absurdo da trama, podem ser percebidos elementos que permitem que ela seja classificada como uma 'farsa', gênero caracterizado pela construção de uma crítica social através de um retrato burlesco das imperfeições e fraquezas humanas. A trama de 8 Mulheres retrata a hipocrisia, a mesquinhez e os preconceitos que a sociedade se nega a aceitar que tem, o tom crítico ganha evidência nas passagens em que são retratados o abismo que existe entre as classes sociais retratadas e o preconceito contra aquele que adota um comportamento diferente do que é tido como padrão, o que se nota na forma com que as empregadas são tratadas e na reação das demais quando uma das personagens assume sua homossexualidade.


O tipo de interpretação que todas as oito atrizes entregam é condizente com a proposta do filme, em seus  gestos largos, empostações vocálicas ritmadas e expressões pitorescas está uma espécie de extensão daquilo que também pode ser observado na direção, no roteiro e na parte técnica da longa. Há uma certa desproporcionalidade em cada um desses aspectos; as interpretações são dramáticas demais, as cores excessivamente saturadas, a trilha sonora recorre aos clichês mais manjados e os números musicais, interpretados por cada uma das oitos personagens, soam deslocados, devido à forma abrupta com que são encaixados na trama. À primeira vista, há a impressão de que estamos diante de uma encenação tosca e pobre em significações, no entanto, a adoção da estética kitsch não se torna um problema para o filme, muito pelo contrário, na verdade, nela se encontram todo o seu potencial reflexivo e originalidade.


François Ozon usa os excessos como elementos da narrativa e imprime em cada um deles a sua marca autoral (a convergência entre linguagens distintas é recorrente em sua obra). Nas mãos de um outro cineasta esta adaptação corria o risco de se tornar um grande fiasco, Ozon, no entanto, elimina todo este risco com seu total domínio da linguagem cinematográfica, o que lhe permite um flerte tão bem sucedido com a linguagem teatral. 


8 Mulheres é uma deliciosa comédia de costume, com ares de mistério e suspense, capaz de nos proporcionar ótimos momentos de entretenimento e reflexão, coisa rara em filmes do gênero hoje em dia. Ao assisti-lo, preste atenção na ótima atuação da Isabelle Huppert (o que constitui um dos melhores aspectos do filme) e no número musical da Fanny Ardant, no qual ela começa um strip tease e para após tirar as luvas  (uma clara referência à cena clássica de Gilda (1946)). 


8 Mulheres ganho o Urso de Prata de Contribuição Artística no Festival de Berlim, um reconhecimento ao desempenho de seu elenco.

Assistam ao trailer de Dentro da Casa no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

Confiram também aqui no Sublime Irrealidade a crítica de 
Dentro da Casa (2012)também dirigido por François Ozon.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Amor Pleno

Amor Pleno (To the Wonder) - 2012. Escrito e dirigido por Terrence Malick. Direção de Fotografia de Emmanuel Lubezki. Música Original de Hanan Townshend. Produzido por Nicolas Gonda e Sarah Green. Redbud Pictures / USA.


Em Amor Pleno (2012), seu mais recente trabalho, Terrence Malick retoma a abordagem de questões teológicas e filosóficas, a reflexão proposta por ele nesta obra é similar àquela que fora engendrada por A Árvore da Vida (2011), seu filme anterior. No entanto, não se trata da repetição de uma mesma fórmula, como tem afirmado alguns críticos, o fato é que mais uma vez ele recorre ao tipo de narrativa, que já é característico de seus filmes, que inclui longos momentos sem diálogos, fluxo de pensamentos conduzidos através de narrações em off e uso de recursos naturais, principalmente a luz, como elementos de linguagem. Exigir que o cineasta abandone tal tipo de construção e se renda ao convencionalismo é algo que não tem nenhum cabimento e não faz nenhum sentido. A expressão da marca autoral de Malick está também no uso deste tipo de narrativa e seu mérito no fato de que ele o faz de uma forma sublime, que beira a perfeição. 

Amor Pleno tem vida própria e é dramaticamente bem diferente de seu antecessor, nele o cineasta mantem em pauta a reflexão acerca do relacionamento entre o homem e deus, mas, se no filme de 2011 ele questionava a falta de ação do criador diante do sofrimento do mundo, neste, o mote é a natureza do amor,  um sentimento que indivíduos imperfeitos projetam em uma divindade perfeita, na qual buscam conforto e sentido para seus dramas existenciais, encontrando, no entanto, apenas um angustiante silêncio... Trata-se de um filme reflexivo e contemplativo, diante do qual o envolvimento do espectador com o questionamento proposto é imprescindível. Sendo de tal forma, não tem como esperar que o filme funcione se o espectador não estiver disposto a embarcar junto com o cineasta em suas ponderações acerca do sentimento ao qual o título que o filme ganhou no Brasil (péssimo, por sinal) se refere.


O amor do qual o filme fala é de certa forma parecido com o conceito de 'graça', trabalhado em A Árvore da Vida, trata-se de um sentimento diferente daquele ao qual muitos estão acostumados, é na verdade um amor que pressupõe uma entrega tão grande e tão incondicional, que ao praticá-lo corre-se o risco de sofrer intensamente e tal como a Senhora O`Brien dizia sobre a 'graça' no filme anterior, este é um sentimento que pressupõe a sujeição e aceitação de insultos e golpes. Este é o tipo de amor que Marina (Olga Kurylenko) espera encontrar, ela se casou jovem, teve uma filha e após sucessivas traições seu marido lhe deixou. Ela vislumbra a possibilidade de viver um romance ideal quando conhece o engenheiro ambiental Neil (Ben Affleck). Ela passa a devotá-lo um amor irrestrito, de total entrega, ele, no entanto, permanece de certo modo distante, como se temesse, por algum motivo, estabelecer com ela vínculos profundos e duradouros.


No filme, acompanhamos ainda o drama do Padre Quintana (Javier Bardem), um religioso que está vivendo uma contundente crise de fé. Tomado pela melancolia, ele não vê mais sentido naquilo que prega e tenta recorrer a Deus em busca de ajuda, encontrando apenas a angústia de não se sentir ouvido. Sua busca pelo contato com a divindade, algo que ele já experimentara no passado, acaba o colocando em contato com um vazio existencial que o leva a questionar a natureza do amor divino... Se Deus é amor, por que então ele se esconde? Por que ele não se compadece diante do sofrimento que há no mundo? De onde vem a sensação de vazio que experimentamos? Estas são algumas das questões que o filme levanta. Engana-se quem pensa que elas terão respostas simples, ou que o roteiro se perderá no proselitismo ou na negação da fé. Malick não nos dá respostas, ele apenas nos incita a fazer perguntas... 


Estes dois núcleos da narrativa estão interligados e o 'diálogo' entre eles se dá em todo o desenvolvimento do filme, enquanto no primeiro há a tentativa de realização do amor pleno, no segundo há uma reflexão sobre ele, tal separação torna a compreensão do filme mais fácil para a parcela do público que não está acostumada com uma trama não linear, na qual o conflito dramático não está no romance entre os personagens, mas nas ponderações que são ensaiadas por eles (em A Árvore da Vida não existia tal tipo de separação; realização e reflexão eram feitas pelos mesmos personagens, em um mesmo núcleo). O amor que o Padre Quintana busca em um deus, que talvez nem exista (isso é uma possibilidade), é similar àquele que Marina espera encontrar em seu relacionamento, cujo laço matrimonial já está, a priori, impossibilitado pelo fato dela ainda estar legalmente casada com o pai de sua filha. 


Tanto Marina quanto o padre permanecem fiéis aqueles de quem esperam um amor real, porém tal fidelidade pode ser questionada, uma vez que ela é sustentada por aquilo que ambos esperam receber em troca da dedicação devotada. O amor que ambos sentem se torna doloroso e dilacerante por não ser correspondido com a mesma intensidade. Malick, ciente da ausência de respostas para as questões levantas, aponta para uma possibilidade: Aqueles que buscam experimentar o amor pleno não devem esperar recebê-lo de ninguém, antes, devem ofertá-lo, principalmente para aqueles que nada podem oferecer em troca. Nesta possibilidade apontada (que está sujeita a diversas interpretações) está um dos aspectos mais belos do filme, a noção de que aquilo que esperamos receber das pessoas com quem nos relacionamos, ou que projetamos em alguma divindade, pode estar em parte dentro de nós mesmos ou na natureza e nas pessoas que nos cercam...


Além da forte carga filosófica, que incita diversos questionamentos e reflexões, Amor Pleno possui ainda um aparato técnico que chega o mais próximo possível da perfeição; o detalhismo e o cuidado de Malick ficam evidentes em cada plano do filme. Demonstrando que é um diretor sutilezas, ele capta o indizível e usa cada um dos elementos presentes na mise-en-scène para compor a estrutura semiótica de sua narrativa. Em cada fotograma há uma gama de significações, que são construídas através de rimas visuais, metáforas e simbolismos, o exemplo mais evidente disso está na forma com que ele volta a usar a luz solar (que em diversos momentos explode contra a câmera) como uma representação da perscrutação divina e os movimentos de câmera como uma alusão à inquietação e à falta de rumo dos personagens. 


Por falar em movimentos de câmera, os de Amor Pleno são o que eu definiria como um balé cinematográfico, a sutileza e precisão dos travellings compõem uma dança tão sublime, que torna cada passagem uma maravilhosa aclamação da beleza que emana do mundo, mesmo daqueles pontos onde já estão visíveis as marcas da destruição provocada pelo homem e sua falta de amor. A direção de fotografia de Emmanuel Lubezki é por si só uma obra de arte e isso, nem os detratores da obra de Terrence podem negar, é um trabalho tão genial quanto o feito por ele mesmo em A Árvore da Vida. A trilha sonora de Hanan Townshend, que também colaborou com o cineasta no filme anterior, é outro dentre os diversos pontos altos do longa, ela é muito bem usada e consegue dar sentido às cenas sem precisar apelar para a comoção ou outros tipos de obviedades.


Todo o elenco, sem exceções entrega atuações que possuem um considerável nível de profundidade, estando seus desempenhos condizentes com a proposta do filme, de explorar sutilezas e não exageros dramáticos. Talvez devido ao tipo de construção dos personagens e dos sentimentos que eles experimentam no decorrer do filme, até mesmo o Ben Affleck, que possui sérios problemas com personagens dotados de uma maior profundidade, acabou se saindo bem, seu Neil é um homem de poucas palavras, um tanto misterioso, cujas motivações apontam para algo maior, que não nos é totalmente revelado pelo roteiro, a forma com que ele trabalha a questão do distanciamento emocional (e seu contraste com a aproximação física) merece elogios. Olga Kurylenko e a Rachel McAdams (que dá vida a Jane, uma amiga de Neiel, com quem ele se reencontra em um segundo momento da trama) entregam ótimos desempenhos, no entanto, o grande destaque no campo das atuações fica por conta do Javier Bardem, que consegue tornar quase palpável e crise vivida pelo seu personagem.


Amor Pleno é arte, é filosofia... Seria tolice estabelecer comparações qualitativas entre ele e outras obras de Malick, uma vez que cada um deles são dotados de sua individualidade. Por outro lado, é interessante analisar de que forma ele se encaixa na filmografia do cineasta, ao dar continuidade à determinadas reflexões e abandonar outras... Este é um filme para ser refletido, discutido e contemplado, seu valor artístico e estético deveria ser reconhecido por todos, mas é bobeira exigir isso de um público que, em boa parte das vezes, prefere o entretenimento ao exercício do pensamento e as respostas prontas às perguntas incômodas... Não vá assisti-lo esperando encontrar um romance convencional, ou uma história com início, meio e fim bem delineados, pois, quem o fizer de tal modo certamente se decepcionará... Recomendo-o, mas não para todos! 


Assistam ao trailer de Amor Pleno no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

Confiram também aqui no Sublime Irrealidade as críticas de 
Além da Linha Vermelha e de A Árvore da Vida
também escritos e dirigidos por Terrence Malick.

sábado, 11 de maio de 2013

Eles Eram Muitos Cavalos - Luiz Ruffato (Livro)

Eles eram Muitos Cavalos de Luiz Ruffato. Lançado em 2001. Rio de Janeiro. 7° Edição BestBolso, 2010.


"Eles eram muitos cavalos, mas ninguém sabe os seus nomes, sua pelagem, sua origem..." - Cecília Meireles

Da citação acima, retirada do poemas Dos Cavalos da Inconfidência, saiu o título do primeiro romance de Luiz Ruffato, escritor mineiro de Cataguases, que se tornaria reconhecido internacionalmente após o lançamento da obra. Em Eles Eram Muitos Cavalos, ele cria uma espécie de mosaico literário, cujos principais personagens são a Grande São Paulo e sua população. Através de 70 fragmentos, ele chama a atenção para os anônimos, vítimas da invisibilidade social, que imersos em suas vivências cotidianas, ajudam a construir o que de bom e de ruim a metrópole tem. Crítica social, reflexão e poesia se entrelaçam em uma narrativa que transcende seus próprios limites e subverte suas próprias convenções.

O autor adota, em alguns dos 70 textos, tipos de linguagem condizentes com o contexto da estória contada,  ou com o perfil do personagem que a narra; em outros, a construção literária evoca a impessoalidade e isso acontece principalmente quando ele busca reproduzir estilos textuais típicos de anúncios publicitários e outros formatos não literários, como aqueles que são encontrados em horóscopos de revistas, orações impressas em panfletos, cardápios de restaurantes ou classificados de jornais. Em outros ainda, nos deparamos com formatos ainda menos convencionais, como, por exemplo, naquele em que é reproduzida uma lista eclética de livros que estão organizados em uma estante e seus respectivos autores. No entanto, a maior parte dos textos busca narrar o dia-a-dia daqueles cuja a existência foi reduzida a quase nada, a ponto de sequer serem notados em meio ao corre-corre da grande cidade.

Adultos, idosos, crianças, adolescentes, empresários, moradores de rua, donas de casa, ladrões, contraventores, viciados, trabalhadores assalariados, desempregados, prostitutas, artistas... esta é a diversa fauna urbana que está tão bem retratada no livro, nele estes personagens malogros vêm acompanhados de seus sonhos, medos, esperanças e frustrações. São pessoas sem notoriedade além dos círculos nos quais transitam, são indivíduos marginalizados e sem uma perspectiva que lhes permita conhecer o todo do qual fazem parte. Esta perspectiva, da qual carecem, é dada a nós leitores no momento em que compreendemos que apesar de independentes, os fragmentos que compõem o romance ganham um significado maior quando analisados em conjunto.

O autor Luiz Ruffato
Na unicidade, que pode ser percebida em uma análise da obra como um todo, reside um dos indícios da genialidade do autor. É notável que Eles Eram Muitos Cavalos não se trata apenas de uma coletânea de textos avulsos, mas de uma única composição, dilacerada em pedaços, tal como a nossa própria percepção da sociedade que nos cerca. Quando reconhecemos a Grande São Paulo como a principal personagem do livro, passamos a entender a questão da unicidade com maior clareza. Na concepção do autor a cidade seria o resultado das atitudes e interações destas pessoas, das quais os textos falam, atores sociais estes que são se reconhecem como tal e por isso são relegados à condição de meros coadjuvantes pelo olhar da própria sociedade da qual fazem parte.

O livro de Luiz Ruffato funciona ainda como um convite à reflexão e à mudança de olhares e concepções. É interessante perceber que a representatividade dos socialmente invisíveis muda á medida que percebemos que são eles os responsáveis por aquilo que a sociedade é como um todo  e por aquilo que cada um de nós  colhemos dela, seja esta colheita boa ou ruim. É pertinente também que reflitamos sobre esta, que é uma das questões que mais me intrigaram durante a leitura: Até que ponto nós, que acreditamos estar 'conectados' e participando da vida social, somos também tão invisíveis e animalizados quanto as pessoas que transitam pelas páginas do livro? Talvez sejamos, tal como eles, 'cavalos, sem nome, pelagem ou linhagem'...


Eles Eram Muitos Cavalos foi reconhecido com o Prêmio APCA de Melhor Romance e com o Prêmio Machado de Assis de Narrativa da Fundação Biblioteca Nacional e ainda recebeu a Menção Especial no Prêmio Casa de las Américas. O livro já foi publicado na Itália, França, Portugal, Argentina e Alemanha. 

Ganhei o exemplar de Eles Eram Muitos Cavalos da amiga (e eterna professora) Carla Machado, o presente foi o fruto de uma brincadeira que começou no facebook, uma corrente de leitura, na qual os cinco primeiros que comentassem 'eu quero' na postagem sobre a corrente ganhariam um livro de quem a postou , com a condição de que deveriam assumir o compromisso de presentear com outras obras as primeiras cinco pessoas que comentassem o seu próprio compartilhamento da corrente.


Visitem a página de Eles Eram Muitos Cavalos no Skoob, clique AQUI!

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Amores Brutos

Amores Brutos (Amores Perros) - 2000. Dirigido e produzido por Alejandro González Iñárritu. Escrito por Guillermo Arriaga. Direção de Fotografia de Rodrigo Prieto. Música Original de Gustavo Santaolalla. Altavista Films e Zeta Film / Mexico.


Em Amores Brutos (2000), seu primeiro longa metragem, Alejandro González Iñárritu adentrou em um universo que seria recorrente a partir de então em todos os seus filmes. Ao retratar situações de tensão, dor e sofrimento ele cria representações universais que apontam para aquele que também viria a ser o mote de suas obras seguintes: a busca de indivíduos corrompidos por algum tipo de redenção. O foco da trama deste debut está no processo de desumanização, do quais seus personagens se tornam vítimas ao serem inseridos em situações extremas. O excelente roteiro escrito pelo Guillermo Arriaga (que colaboraria com Iñárritu em outros dois filmes) explora o mesmo tipo de construção de narrativa que seria reutilizado em 21 Gramas (2003) e em Babel (2006), no qual sub-tramas independentes são desenroladas até chegar a um ponto de convergência, onde se encontram e ganham uma espécie de sentido maior.

A história de Amores Brutos, que se passa na Cidade do México, é composta por três núcleos distintos, ligados à princípio pelo fato de que em todos eles há a presença de cachorros, cujos comportamentos parecem em alguns momentos se confundirem com o dos personagens humanos (não por acaso, o título do filme no original seria, em tradução literal, algo como 'amores caninos'). Octavio (Gael García Bernal), o protagonista da primeira das três sub-tramas, é um jovem desempregado que mora em uma região suburbana com a mãe, o irmão mais velho, o sobrinho ainda bebê e a cunhada. Tomado pela ambição de ganhar algum dinheiro, que torne possível seu plano de fugir com Susana (Vanessa Bauche), a mulher do irmão, ele decide inscrever seu cachorro em violentas rinhas, que são organizadas de forma clandestina. 


Na segunda história, conhecemos a Valeria (Goya Toledo), uma modelo que goza de considerável prestígio no meio em atua, ela é a amante do empresário Daniel (Álvaro Guerrero), um homem rico que vive com a esposa e duas filhas ainda pequenas. Cumprindo o que já vinha prometendo há algum tempo, Daniel abandona sua família e compra um apartamento para morar com Valeria. A tensão, que é crescente nesta sub-trama, começa quando o poodle da moça entra por uma fresta no assoalho e acaba se perdendo no vão que há entre o piso de madeira e chão do apartamento, deixando como sinal de vida apenas seus grunhidos, que podem ser ouvidos em diversos pontos do apartamento. A apreensão provocada pelo andamento da trama é atenuada em um segundo momento, após uma trágico agravante.


A terceira sub-trama gira em torno de Chivo (Emilio Echevarría), um andarilho, que vaga pelas ruas da cidade juntando materiais recicláveis para vender. Este é o personagem mais enigmático e talvez o mais interessante do filme, em sua composição é possível perceber claramente a construção metafórica que Iñárritu e Arriaga buscam associar à história contada. Chivo vive cercado de cachorros de rua, ele os acolhe e divide com eles o pouco que tem, em sua relação com eles está o seu último elo de ligação com um humanismo, que ele aparentemente perdeu. Tempos atrás, ele se viu obrigado a tomar uma decisão que o afastou de sua esposa e de sua única filha, que na época ainda era uma criança. Ele não se arrepende de ter agido de tal forma no passado, mas espera um dia ter o perdão da filha, que sempre acreditou que ele já estava morto.


Em dado momento, uma situação interliga as três histórias. Um acontecimento trágico dará início a um penoso processo de transformação, que será vivenciado por boa parte dos personagens. É a partir deste ponto que se iniciará a busca de alguns deles por algo que seja capaz de tornar suportável o sofrimento vivenciado. Enquanto uns acreditam poder ter de volta aquilo que perdeu, outros agonizam diante da possibilidade de que os planos, nos quais depositavam todas as suas esperanças, jamais venham a se concretizarem. É então que surgem as perguntas que dão todo o sentido para a trama: Estamos à mercê do meio em que vivemos? O condicionamento, fruto da influência do meio, pode por si só justificar os atos violentos e isentar da culpa aqueles que os cometem? É possível encontrar paz e redenção, estando ainda imerso em um mundo que parece, a cada dia, se tornar mais cruel e embrutecido?


Amores Brutos é inegavelmente um filme violento e isso o torna indigesto para uma boa parte do público, todavia, a violência que impressiona nele não é a gráfica, mas aquela edificada sobre situações triviais e por isso passíveis de acontecer om qualquer um de nós. O terror psicológico, que tem sua intensidade aumentada à medida que a trama se desenrola, chega a se tornar uma experiência angustiante em determinadas passagens, ora por evocar complexas questões éticas e morais, ora por nos assustar com a revelação daquilo de mais brutal e cruel que somos, como humanidade, capazes de fazer. Diante das passagens que retratam as horríveis brigas de cães, somos incitados a questionar quem de fato são os animais irracionais e violentos, os cachorros que se mutilam nas disputas ou aqueles que os treinam para tal. Da mesma forma, somos levados a refletir sobre até que ponto o comportamento violento dos indivíduos não são, tal como o dos cachorros, uma espécie de resposta aos estímulos externos que recebem e não o resultado de uma natureza intrínseca...


O impacto do filme é reforçado pela força das atuações, que tornam o drama de cada um dos personagens plausível e condizente com tipo de abordagem - sem lirismos - que o filme adota. Destaco os desempenhos do Gael García Bernal, que na ocasião era ainda um ilustre desconhecido, e do Emilio Echevarría, ambos imergem de uma forma assustadora em seus respectivos personagens e dão a eles veracidade e credibilidade. A montagem fragmentada e o desenvolvimento do roteiro não linear dão ao filme um ritmo rápido, que faz com que ele consiga estimular a tensão e prender a atenção do expectador da primeira à última cena, sem que sua história se torna cansativa ou desinteressante em nenhum momento. Destaco ainda a ótima trilha sonora original, composta por Gustavo Santaolalla, outro colaborador habitual do Alejandro González Iñárritu, ela pontua os momentos de tensão e salienta o quão algumas situações são desesperadoras.


Creio que seja necessário deixar claro que as cenas que retratam as brigas de cães na rinha não são reais (confesso que o temor de que elas o fossem, como muitos afirmam, foi um dos motivos que me fizeram deixar o filme em segundo plano durante tanto tempo). Olhares mais atentos perceberão que a suposta veracidade de tais passagens é fruto de um excelente emprego da técnica cinematográfica. Ótimos trabalhos de edição e mixagem de som, cortes nos momentos certos, movimentos rápidos de câmera e a trilha sonora, que atenua a tensão, são alguns dos elementos responsáveis pelo realismo das cenas e pelas polêmicas que elas continuariam rendendo até hoje (vide comentários na página do filme no Filmow). Eu certamente não indicaria Amores Brutos para os que são sensíveis à exploração da violência pela narrativa, contudo, ainda acredito que ele seja uma das melhores obras de um dos mais competentes cineastas da atualidade. Recomendo-o para os que têm coragem suficiente para se expor ao contunde retrato da podridão humana que ele nos oferece!



Amores Brutos foi indicado ao Oscar na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira e em Cannes recebeu o Critics Week Grand Prize e o Young Critics Award.


Assistam ao trailer de Amores Brutos no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

Confiram também aqui no Sublime Irrealidade a crítica de Babel (2006), também dirigido pelo Alejandro González Iñárritu.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Amor à Flor da Pele

Amor à Flor da Pele (Fa yeung nin wa) - 2000. Escrito, dirigido e produzido por Kar Wai Wong. Direção de Fotografia de Christopher Doyle, Pung-Leung Kwan e Ping Bin Lee. Música Original de Michael Galasso e Shigeru UmebayashiBlock 2 Pictures, Jet Tone Production e Paradis Films / Hong Kong | França.


Em Amor à Flor da Pele (2000), o cineasta chinês Kar Wai Wong provou que é possível retratar os efeitos de uma paixão arrebatadora através da linguagem cinematográfica, sem que para isso seja necessário apelar para o excesso de cenas de sexo, ou de nudez. Todos os aspectos do filme, incluindo trilha sonora, fotografia, enquadramentos, figurinos e direção de arte, colaboram para tal e o resultado é simplesmente impressionante, uma obra de arte tão bela quanto melancólica e tão fascinante quanto a própria sensação de estar apaixonado; trata-se de um filme esteticamente belo, dramaticamente consistente e muito bem sucedido em sua proposta. Sua história gira em torno de um casal que vive uma paixão impossível de se concretizar, devido ao fato de que ambos são casados e temem transpor as barreiras morais que se levantam em torna da situação.

Na trama, ainda que resistam em assumir aquilo que sentem um pelo outro, o jornalista Chow Mo-wan (Tony Leung Chiu Wai) e a secretaria Su Li-zhen (Maggie Cheung) acabam alimentando um sentimento que só se intensifica no decorrer da trama, a falta de contato físico e a não consumação deste amor parece aumentar ainda mais a ardente paixão que sentem um pelo outro. O roteiro explora tal situação de uma forma maravilhosa, todo o desenvolvimento da história é sustentado pelos curtos passos que cada um dos personagens tentam dar em direção ao outro, passos estes que ora parecem não levar a lugar nenhum, ora aparentam distanciá-los ainda mais. Ao retratar este sentimento reprimido, o filme levanta diversas questões morais, principalmente acerca do adultério e da confiança depositada em outrem. A trama nos leva a questionar onde de fato começam a traição e a culpa daqueles que a cometem. 


Chow e Su Li se mudaram no mesmo dia para um prédio decadente localizado em um subúrbio de Hong Kong, ambos, com seus respectivos cônjuges, alugaram quartos em minúsculos apartamentos. A pobreza do local nos salta aos olhos já nas primeiras cenas do filme. Paredes descascadas, instalações elétricas precárias e a claustrofobia proporcionada pela falta de espaço denotam alguns dos problemas sociais que a cidade/estado já vivenciava no início da década de 60, época em que o filme se passa. A vivência neste ambiente opressivo, a carência afetiva e a constante ausência de seus parceiros fazem com que Chow e Su Li acabem se aproximando um do outro e a cumplicidade que encontram nesta amizade aparenta aliviar as feridas provocadas pelos seus casamentos, que já estavam em crise antes mesmo de se conhecerem. 


O efeito do choque entre tradição e contemporaneidade está evidente na trama, sendo potencializado pelo dilema criado em torno do relacionamento entre os personagens. O tradicionalismo da cultura oriental se manifesta através de pequenos costumes, dos tabus preservados e de outros traços presentes na vida cotidiana. Já os reflexos da pós-modernidade estão presentes na subversão de cada um desses elementos e no vazio existencial experimentado pelos protagonistas, que seria ao meu ver uma evidência do distanciamento emocional e da fragilidade dos laços e das relações que tentam construir. As reflexões fomentadas pelo filme nascem desta dicotomia entre passado e presente, mas também das questões morais que envolvem os personagens, questões estas que seriam de certa forma atemporais.


O decorrer do tempo tem uma importância enorme na trama, em diversas passagens são feitos closes em relógios e isso não é por acaso, a ideia é justamente mostrar que toda a ambientação está localizada em uma espécie de quebra temporal, onde o passado se encontra com o presente e o futuro, exercendo juntos efeitos sobre a vida dos personagens. O ritmo lento que o filme adota em seu desenvolvimento reforça esta ideia, é interessante a percepção de que não é possível saber ao certo quanto tempo se passou desde que os personagens se conheceram, podem ter sido dias, semanas ou até mesmo meses ou anos. A montagem ajuda a desconstruir a noção do decorrer do tempo, sem que haja para tal a necessidade de 'quebras' na narrativa, isso torna o desenrolar da trama um fluxo contínuo e ininterrupto, no qual predominam o desejo e paixão que o longa retrata tão bem através de seus elementos técnicos e artísticos. 


Amor à Flor da Pele beira à perfeição em cada um de seus aspectos, sua trilha sonora evoca nostalgia, melancolia e principalmente sensualidade. A fotografia, aliada à beleza dos figurinos e da direção de arte, constrói planos de um lirismo tão estonteante, que torna cada fotograma uma obra de arte individual. Ao olhar para o filme como um todo, concluo que Kar Wai Wong fez aqui uma obra-prima, que eu facilmente incluiria em minha lista pessoal dos mais belos filmes das últimas décadas. Terminei de assisti-lo ciente de que eu estivera diante de uma das mais belas expressões artísticas da paixão. Recomendo!!!!! 


Amor à Flor da Pele ganhou em Cannes o prêmio de Melhor Ator (Tony Leung Chiu Wai ) e o Technical Grand Prize (pela edição e fotografia).

Assistam ao trailer de Amor à Flor da Pele no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.