quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Cinema Independente - Um debate sobre os novos paradigmas da produção e da distribuição cinematográfica.





Produção: Cultural Life
Direção: Gustavo Paiva
Assistente de Direção: Juliana Balbueno
Câmeras: Ygor Mattos | Juliana Balbueno 
Fotografia: Ygor Mattos
Assistente de produção: Alice Batista
Participação no debate: Vinnie Bressan, Fabiano Martins, Diógenes Dias de Castro, Filipe Ruffato e José Bruno

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

2° Festival de Cinema de Visconde do Rio Branco


Aconteceu dentre os dias 12 e 18 de agosto a segunda edição do Festival de Cinema de Visconde do Rio Branco, o evento foi realizado pela Associação dos Amantes do Cinema, com o apoio da Revista Atual, do Museu Municipal de Visconde do Rio Branco e da Prefeitura da cidade, através da Secretaria de Cultura e Turismo. Foram inscritos filmes de Ubá, Cataguases, Rio de Janeiro, Viçosa e Visconde do Rio Branco. As obras foram avaliadas em três categorias: longa-metragem, curta-metragem e documentário. 

Tive a honra de ser convidado para fazer parte do juri, estive presente em todas as sessões e acabei testemunhando algumas situações simples, porém dotadas de um significado profundo e belo. A primeira foi a reação de uma parte do público, que foi à mostra para se ver no 'cinema'. Via-se durante os intervalos entre uma sessão e outra a magia que o 'reconhecer-se na tela' representava e isso podia ser percebido claramente em alguns olhares emocionados, cheios de orgulho; ouso dizer que nem os maiores clássicos da história da sétima arte seriam capazes de proporcionar para esta parcela do público presente este mesmo efeito. Este fenômeno atesta a importância do fomento à produção local, com o fortalecimento da cena e seu constante aprimoramento (acordem empresários, acorde poder público, isso é investimento!!!). 

Outro ponto que merece ser destacado tem relação direta com o efeito que as novas tecnologias têm provocado na produção cinematográfica independente. A relativa democratização dos meios de produção tem tornado cada vez mais fácil e barato a realização de um filme e diante deste contexto o que se sobressai é a criatividade e a originalidade de cada realizador; mais do que nunca é válida a máxima glauberiana  que diz serem necessárias apenas "uma câmera na mão e uma ideia na cabeça" (não por acaso, criatividade e originalidade foram quesitos determinantes no processo de eleição dos vencedores). Mas, o mais interessante é que a criatividade não estava presente só nos argumentos dos filmes exibidos, mas também nas alternativas encontradas para custeá-los, divulgá-los e distribuí-los. 

O longa A Onda da Vida, do diretor José Augusto Muleta, (vencedor na categoria de Melhor Longa Metragem) recebeu patrocínios, mas sua realização não seria possível se não fosse a colaboração entre os envolvidos em sua produção, o filme foi feito entre amigos e isso reduziu os gastos com cachês e com a terceirização da mão de obra técnica. Zé do Pedal - As Fronteiras do Mundo, dos diretores Fabricio Menicucci e Bruno Lima, (vencedor na categoria de Melhor Documentário) foi realizado graças a uma campanha de crowdfunding (financiamento coletivo através de doações) realizada na internet. O Intruso, dirigido por Filipe Ruffato, (vencedor na categoria de Melhor Curta Metragem) também foi realizados entre amigos e provou que uma boa ideia pode valer muito mais do que um sofisticado aparato técnico. 

Vejo com bons olhos o caminho que o Festival tomou nesta edição e este foi um grande passo para consolidá-lo como um dos mais importantes eventos do gênero na região, algumas pequenas falhas ficaram como lição e acredito que na próxima edição elas já não serão cometidas. Se algumas barreiras levantadas pelo conflito de egos, que caracteriza o cenário político local, forem transpostas, certamente os frutos colhidos no próximo ano serão ainda mais notáveis, as sementes para isso já foram lançadas...


O grande homenageado desta edição do Festival foi cineasta rio-branquense Geraldo Santos Pereira, co-autor  do clássico Rebelião em Vila Rica (1958) (um dos primeiros filmes brasileiros fotografados em cores), que foi exibido na noite de encerramento, antes da premiação.


Confiram abaixo os vencedores:

Melhor Longa-Metragem: A Onda da Vida de José Augusto Muleta 
Confiram o teaser do filme no You Tube, clique AQUI !


Melhor Curta-Metragem: O Intruso de Felipe Ruffato
Confiram o curta completo no You Tube, clique AQUI !



Melhor Documentário: Zé do Pedal - As Fronteiras do Mundo de Fabricio Menicucci e Bruno Lima
Confiram um 'promo' do filme no You Tube, clique AQUI !


domingo, 18 de agosto de 2013

Meu Pé Esquerdo

Meu Pé Esquerdo (My Left Foot: The Story of Christy Brown) - 1989. Dirigido por Jim Sheridan. Escrito por Jim Sheridan e Shane Connaughton, baseado no livro autobiográfico de Christy Brown. Direção de Fotografia de Jack Conroy. Música Original de Elmer Bernstein. Produzido por Noel Pearson. Ferndale Films, Granada Television e Radio Telefís Éireann (RTÉ) / UK | Irlanda.


A cinebiografia do pintor e escritor irlandês Christy Brown, que nasceu com uma grave paralisia cerebral, poderia ter optado por trilhar um dos caminhos mais fáceis e óbvios. O resultado poderia ter sido um filme de cunho motivacional sobre superação ou talvez um doloroso drama sobre o sofrimento proporcionado pela doença, contudo, Jim Sheridan, que dirigiu e escreveu a adaptação tendo como base o livro de memórias de Christy, escolheu a sutileza e esta se tornou a característica mais marcante de seu filme. Meu Pé Esquerdo (1989) narra a história do artista de seu nascimento até à sua conturbada vida adulta, o roteiro mantém o foco no núcleo familiar, destacando a relação do protagonista com a sua mãe (vivida por Brenda Fricker), que o protege com todo o cuidado do mundo, apesar das dificuldades. O primeiro ato no filme, no qual é retratada a infância de Christy, possui um forte viés saudosista que é reforçado pela simplicidade com que a realidade da Irlanda das décadas de 30 e 40 é retratada.

Christy Brown teve, durante muito tempo, sua inteligência subestimada até mesmo pela sua própria família, ele demorou para começar a falar e isso reforçou a impressão que as pessoas próximas a ele tinham de que a paralisia cerebral havia comprometido também o desenvolvimento de sua razão e de seu intelecto. Ele então se viu obrigado a se afirmar sozinho diante de sua própria casa e do preconceito dos vizinhos, que o consideravam um fardo pesado demais para a sua já sofrida família. As péssimas condições sociais em que viviam, tornavam a vida ainda mais difícil para Christy, seus pais e seus irmãos, além da doença eles tinham que lidar com a falta de recursos, que atenuava os efeitos da fome e do frio, e ainda com o alcoolismo do pai (vivido por Ray McAnally), que não era uma má pessoa, mas aparentava buscar na bebida uma espécie de refúgio, onde acreditava poder se esconder de seus fantasmas interiores.


Já Christy queria sair de seus esconderijos, ele queria se ver livre das amarras que o prendiam, queria viver e sentir... Através da arte ele começa uma espécie de ensaio de sua própria libertação. Na literatura e na pintura ele encontra meios de expressão, tanto para sua dor, advinda da limitação física, quanto para sentimentos que o tomavam, como o amor, a solidão e a frustração. Nos quadros que ele pinta com o seu pé esquerdo (a única parte do corpo que ele consegue controlar) está transposto tudo aquilo que ele guardou consigo durante tanto tempo, trata-se de uma arte forte, crua e antes de tudo genuína. Seu trabalho logo desperta a curiosidade de outras pessoas envolvidas no meio e este é o primeiro passo para o reconhecimento, que nem ele próprio imaginou que um dia iria conquistar. Porém, a valorização de sua arte não lhe traz e esperado alívio para as questões pessoais que tanto lhe incomoda e daí nasce o maior de seus dramas.


Meu Pé Esquerdo transita por temas complexos e espinhosos, como a rejeição e o preconceito, sem perder em nenhum momento a leveza que o caracteriza, nele. Sua trama constitui uma verdadeira ode à vida, ao humanismo e à uma constante busca pela auto-superação. Não se trata do tipo de filme que nos acaricia com um positivismo tolo baseado em um triunfalismo que só existe em tese, a lição implícita na trama é a de que o mundo pode ser um lugar hostil, povoado por pessoas que podem ser cruéis, mas nada disso não deve nos impedir de viver, de buscar novas experiências e de ousar na transposição de nossos próprios limites, ainda que não tenhamos nesta 'aventura' nenhuma garantia de vitória.


Além do excelente roteiro, o filme de Jim Sheridan tem a seu favor o alto nível das atuações, o Daniel Day-Lewis está excelente na pele do protagonista, sua composição realista do personagem chega a ser assustadora, o que é o resultado de uma cuidadosa e sistemática composição. Reza a lenda que ele se recusava a sair da cadeira de rodas nos intervalos das gravações, isso para não ter que sair do personagem e não colocar em risco, de tal modo, a verossimilhança de sua atuação. Hugh O'Conor, que dá vida ao Christy Brown em sua infância, entrega um desempenho tão formidável quanto o de Day-Lewis, o perfeccionismo de sua composição pode ser notado em seu olhar inquieto, nos seus gestos abruptos, nos movimentos compulsivos e até mesmo no ritmo ofegante de sua respiração; o fato dele não ter falas torna ainda mais impressionante a sua interpretação. 


Brenda Fricker e Ray McAnally também estão muito bem em seus respectivos personagens e isso ajuda a torná-los mais do que meros coadjuvantes. A bela fotografia, onde predominam os tons pastéis e esverdeados, aliada à direção de arte e ao figurino, que mantém a mesma lógica de tonalidades, confere ao filme uma belíssima estética retrô, que potencializa o sentimento nostálgico que emana de trama, principalmente nos primeiros atos. A trilha sonora composta pelo veterano Elmer Bernstein explora bem o viés emotivo da narrativa, sem soar apelativa em nenhum momento, demonstrando assim um consonância com a sutileza notada na trama. Meu Pé Esquerdo traz ainda consigo a relevância de abordar temas que precisam ser discutidos com urgência, como a acessibilidade e o preconceito contra aqueles que possuem limitações físicas ou mentais... Resumindo, o que temos aqui é o cinema no exercício de sua plena capacidade artística, de fato uma obra-prima!


Meu Pé Esquerdo ganhou o Oscar nas categorias de Melhor Ator (Daniel Day-Lewis) e Melhor Atriz Coadjuvante (Brenda Fricker), tendo sido indicado também aos prêmios de Melhor Filme, Roteiro Adaptado e Fotografia. No Globo de Ouro o filme recebeu indicações nas categorias de Melhor Ator em um Filme de Drama (Daniel Day-Lewis) e Melhor Atriz Coadjuvante (Brenda Fricker).


Assista ao filme Meu Pé Esquerdo completo no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Tese Sobre um Homicídio

Tese Sobre um Homicídio (Tesis Sobre un Homicidio) - 2013. Dirigido por Hernán Goldfrid. Escrito por Patricio Vega, baseado na obra de Diego Paszkowski. Direção de Fotografia de Rolo Pulpeiro. Música Original de Sergio Moure. Produzido por Diego Dubcovsky e Gerardo Herrero. Burman Dubcovsky. Cine e Haddock Films e Tornasol Films / Argentina | Espanha.


Neste momento, enquanto escrevo esta resenha, conscientemente ou não, estou sendo refém de um ponto de vista. Toda vez que analiso uma determinada obra, as minhas considerações nascem do ângulo de visão que previamente escolhi, tal angulação irá, provavelmente, ditar os rumos do texto que estou a escrever. No caso da crítica cinematográfica, isso pode se tornar uma perigosa armadilha, pois se escolho analisar todos os filmes por uma mesma ótica, a da violência por exemplo, passo a correr o risco de enxergar aquilo que procuro, no caso a violência, até onde não tem e isso certamente irá comprometer a qualidade daquilo que escrevo e por tabela a credibilidade de meus pontos de vista. Este fenômeno, no entanto, não acontece apenas quando se trata da análise de uma obra de arte, o risco proporcionado pela subjetividade está presente em todos os julgamentos que fazemos e é a partir desta premissa que a trama de Tese Sobre um Homicídio (2013) se desenvolve. 

O roteiro do longa, escrito por Patricio Vega, baseado na obra literária de Diego Paszkowski, centra-se em uma questão bastante complexa e por isso polêmica: a influência do olhar do indivíduo nos julgamentos que ele faz. Esta é uma ideia perigosa pois ela pode levantar dúvidas sobre a eficiência de todo um sistema legal. No filme, Roberto Bermúdez (Ricardo Darín) é um respeitado jurista que optou pela vida acadêmica em detrimento da atuação direta na área. Ele acredita no sistema jurídico e em suas ferramentas, para ele o segredo de um julgamento justo está na análise dos pequenos detalhes e na atenção dedicada a eles, principalmente aqueles que podem ter passado despercebidos nas primeiras etapas da investigação. Em dado momento ele chega a descrever o juiz como um avaliador de evidências, cuja função se resumiria a um "lento processo de distinção entre o acaso e o essencial". Bermúdez defende com paixão aquilo que acredita e é esta paixão que o faz perder a objetividade e o coloca em um estranho jogo psicológico com um de seus alunos.


Gonzalo Ruiz (Alberto Ammann), o aluno em questão, é o filho de um casal de amigos de Bermúdez, ele conheceu o professor quando ainda era um garoto e desde então passou a tê-lo como uma referência. Ruiz voltou para Buenos Aires, após uma longa estadia em Portugal, para cursar a pós-graduação na qual Bermúdez leciona. A admiração demonstrada pelo jovem, no entanto, logo se transforma, dando lugar a um comportamento desafiador e competitivo, que pode ser analisado como uma tentativa do aluno de conquistar o respeito do professor através da afirmação e comprovação de seus pontos de vista. Gonzalo enxerga o judiciário de uma outra forma, para ele existem pesos e medidas variados e o que determina, em ultima instância, um veredito são as relações de poder existentes na sociedade na qual o juiz está inserido, o que indicaria que o importante não são somente as evidências, mas a forma com que aquele, em quem foi investido o poder de julgar, escolheu (consciente disso ou não) enxergá-las e avaliá-las. 


A trama começa a se desenrolar após o assassinato de uma jovem no campus da faculdade, o corpo da garota fora encontrado no estacionamento da instituição, curiosamente, no momento que Bermúdez discorria em sala de aula sobre a importância dos detalhes para um julgamento justo e preciso. Gonzalo escolhe o caso como tema para um trabalho acadêmico e isso, juntamente com outros fatos que acontecem no decorrer da história, faz com que o professor comece a desconfiar de suas reais intenções e é então que vem a suspeita de que ele possa ter algum envolvimento com o crime. Surgem então as seguintes questões: Até que ponto as evidências e os detalhes observados podem ser consideradas provas cabais de um crime? No filme, não seriam elas apenas um fruto da obstinação do professor em comprovar a sua própria tese e refutar a de seu aluno? Pode o julgamento subjetivo fazer com que evidências frágeis se tornem verdades inquestionáveis? 


Tese Sobre um Homicídio funciona também como uma contundente crítica social, por expor a fragilidade de um dos três poderes que sustentam um estado democrático de direito, sua trama nos conduz à uma reflexão sobre a eficiência do aparato judicial e sobre até que ponto a justiça é de fato justa. É interessante perceber que a crise pela qual Bermúdez passa à partir de determinado momento do filme é a crise da própria justiça e, por extensão, da sociedade como um todo. É este tipo de abordagem que faz com que o longa vá muito além dos lugares comumente explorados em filmes do gênero, o desfecho de sua história deixa evidente que mais importante que o suspense puramente sensorial é a reflexão que ele traz junto consigo. O roteiro cumpre bem aquilo que propõe e a prova disso é que a reflexão induzida permanece, junto com algumas dúvidas, mesmo após o fim da sessão.


Ricardo Darín, como já era de se esperar, entrega um personagem muito bem construído e dotado de motivações plausíveis e consistentes. Vale destacar a forma com que o ator encarna a transformação pela qual o seu personagem passa no decorrer da trama, é possível notar isso nos gestos, no tom e na velocidade da voz e até mesmo na postura corporal, que vai progressivamente deixando de ser altiva à medida em que Roberto Bermúdez se vê diante de dilemas e de situações que o assustam. Alberto Ammann, que também está muito bem no filme, chama a atenção pela sutileza da construção de seu Gonzalo Ruiz e pela forma com que ele compõe a ambiguidade e a malícia que o caracteriza.


É praticamente inevitável que se faça algumas comparações com o excelente O Segredo dos Seus Olhos (2009), também protagonizado pelo Ricardo Darín, ambos possuem personagens obstinados, o ponto de partida de suas tramas é um assassinato de uma jovem mulher e ambos usam o processo de investigação para evocar questões maiores, mais complexas. Todavia, apesar de não ser tão genial quanto o filme de Juan José Campanella, Tese Sobre um Homicídio tem sua individualidade resguardada e consegue se firmar como um dos melhores filmes lançados neste ano. Longe de indicar repetição, o filme de Hernán Goldfrid vem provar, mais uma vez, o quanto a produção argentina tem crescido em valor artístico e em qualidade técnica. 


Tese Sobre um Homicídio também não é uma mera reprodução de um formato hollywoodiano como alguns críticos têm apontado, nela a qualidade técnica não é usada apenas como camuflagem para a fragilidade da narrativa, muito pelo contrário, todo o aparato técnico é usado à favor da trama. Os enquadramentos, o uso de imagens desfocadas, os travelings e toda a composição da mise-en-scéne tem como objetivo a inserção de nós espectadores na realidade diegética. O roteiro nos induz a fazer o que o personagem propõe, a prestar atenção nos pequenos detalhes e eles de fato fazem toda a diferença, eles são uma clara evidência da riqueza e da excelente construção da narrativa, que se desenvolve em um ritmo relativamente lento, porém capaz de prender a atenção do expectador da primeira à última cena.


Assista ao trailer de Tese Sobre um Homicídio no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.


Post dedicado à amiga Ana Cecília, autora do blog Letras de Ana Cecília Romeu e grande fã do Ricardo Darin e entusiasta do cinema argentino!

terça-feira, 6 de agosto de 2013

O Bebê de Rosemary

O Bebê de Rosemary (Rosemary's Baby) - 1968. Dirigido e escrito por Roman Polanski, baseado na obra de Ira Levin. Direção de Fotografia de William A. Fraker. Música Original de Christopher Komeda. Produzido por William Castle. William Castle Productions / USA.


O Bebê de Rosemary (1968) foi o primeiro filme de Roman Polanski produzido e rodado nos Estados Unidos, pode-se dizer que ele é um fruto do momento histórico pelo qual Hollywood passava e para entender isso vale a pena fazer um breve retrospecto: Aquele era um período de experimentação e de rompimento com antigos paradigmas. Na Europa esta transformação no cenário cultural tinha começado alguns anos antes, no final da década de 50, e era natural que mais cedo ou mais tarde a reinvenção pela qual o cinema passara lá e em diversas outras parte do mundo (inclusive no Brasil com o Cinema Novo) chegasse à já envelhecida meca americana dos sonhos. Os grande estúdios, que demoraram para compreender o que estava acontecendo no resto do mundo, viviam um período de recessão econômica e isso era uma consequência do crescente desinteresse pelas grandes produções, nas quais a suntuosidade se sobrepunha ao valor artístico, e da popularização da TV, que impactava negativamente nas cifras arrecadas nas bilheterias.

Com a crise financeira e de criatividade que a indústria vivia, a contratação de cineastas europeus, que estavam acostumados a produzir com poucos recursos, se tornara uma opção a ser considerada. Roman Polanski, que ganhara notoriedade com seu primeiro filme, A Faca na Água (1962), e se tornara um cineasta ainda mais respeitado após o lançamento de Repulsa ao Sexo (1965), foi então convidado para filmar em Hollywood, este convite o fez mudar para os Estados Unidos em 1968, para rodar aquele que se tornaria o segundo filme de sua 'trilogia do apartamento'. O efeito de todo este panorama pode ser facilmente observado em O Bebê de Rosemary, principalmente na trama obscura, que toca em temas que vão muito além do viés ocultista presente na história contada. Transcendendo os gêneros aos quais foi associado, o filme se mostra como uma bem construída metáfora da decadência do american way of life e da própria indústria cinematográfica.


A história gira em torno do casal Rosemary (Mia Farrow) e Guy Woodhouse (John Cassavetes), ele é ator de teatro e sonha em trabalhar no cinema, ela é uma mulher submissa e dedicada ao lar, seu maior sonho é ser mãe. Eles constituem à princípio uma representação quase perfeita do sonho americano, eles se amam, estão felizes e fazem planos juntos para o futuro. No entanto, tudo começa a desandar depois que eles compram um apartamento em um antigo prédio do centro de Nova Iorque. O lugar foi no passado o palco de estranhos casos, que envolviam bruxaria e mortes misteriosas... Logo depois de se mudarem, Rosemary e Guy conhecem um casal de idosos que moram no apartamento ao lado. Minnie (Ruth Gordon) e Roman Castevet (Sidney Blackmer), os vizinhos, se mostram gentis e prestativos e logo ganham a confiança do casal recém-chegado.

Pouco tempo depois, Rosemary engravida e as fortes dores que ela sente no início da gestação indicam que tem algo de estranho acontecendo com o seu bebê, aconselhada pelos vizinhos, ela desiste do acompanhamento tradicional e se submete a um tratamento alternativo, proposto pelo doutor Sapirstein (Ralph Bellamy), um dos mais respeitados obstetras do país. O tratamento, no entanto, produz poucos resultados. Tomada pela paranoia, Rosemary passa a suspeitar que existe uma conspiração sendo arquitetada contra ela, uma trama macabra que envolve a criança a quem ela dará a luz e os interesses obscuros de um grupo de satanistas. Ela passa então a desconfiar de quase todos que estão à sua volta, inclusive de Guy, que aparenta não levar a sério aquilo que ela sente, nem tão pouco suas suspeitas.


Apesar da questão do satanismo ser a premissa que sustenta a trama do filme, o que nos mete medo nele não são as questões metafísicas, mas aquelas que são reais e passíveis de acontecer com qualquer um de nós. Sua trama é apreensiva porque ela dialoga com nossos próprios medos, dentre eles o de estar só e desamparado, o de ser traído por quem mais confiamos e, principalmente, o de ver o nosso projeto de vida falir diante de uma situação sobre a qual não temos controle nenhum. Nos compadecemos da situação na qual Rosemary se encontra porque antes nos identificamos com os seus planos e sonhos. Em uma análise da obra podemos tomar a protagonista como um arquétipo da sociedade americana e, por extensão, da nossa própria (afinal compartilhamos com eles a mesma ética triunfalista que contempla a felicidade e a autorrealização como o fim maior de nossas vidas), ela personifica a fragilidade do indivíduo frente às ameaças e peripécias que podem distanciá-lo de seus projetos e de seus sonhos.


Já a crítica à indústria cinematográfica é feita de forma sutil, tanto que ela poderá passar facilmente despercebida para alguns. Na trama, Guy preza pelo valor artístico das obras nas quais atua, mas ele também quer reconhecimento e no afã de conquistar um papel de destaque ele acaba se vendendo e traindo suas próprias convicções. Neste aspecto está uma referência clara ao esvaziamento artístico que já afetava uma significava parcela da produção americana, que prezava mais pelo resultado financeiro e pela glória do que pelo valor artístico de cada obra. Curiosamente, John Cassavetes, que interpreta o personagem, acabou percorrendo, em sua trajetória como cineasta, um caminho bem diferente do escolhido por Guy e graças a isso ele seria lembrado ainda hoje como uma espécie de patrono do cinema independente dos Estados Unidos.


O Bebê de Rosemary já nasceu clássico (me perdoem pelo trocadilho), mas alguns fatos curiosos o tornaram ainda mais cultuado com o passar do tempo e dentre eles estão alguns acontecimentos estranhos que, direta ou indiretamente, teriam o nome do filme associado a eles: John Lennon foi assassinado em 8 de junho de 1980, em frente ao prédio em que morava em Nova Iorque, o prédio é o mesmo no qual o filme se passa. Quatorze meses após a finalização do longa, Sharon Tate, a esposa de Roman Polanski, que estava grávida de oito meses, foi assassinada em um ritual por Susan Atkins, um membro da família de Charles Manson. Atkins era um ex-seguidor de Anton LaVey, o fundador da igreja de satã nos Estados Unidos. Reza a lenda que LaVey teria prestado uma espécie de consultoria sobre os ritos de magia negra durante as filmagens do longa. O caso dos crimes cometidos pelo clã de Manson ficaria conhecido como Helter Skelter, nome de uma canção dos Beatles, que teria supostamente inspirado a série de assassinatos.


É legal também perceber uma espécie de autorreferência que Roman Polanski faz no filme, em determinada passagem, Rosemary diz que "coisas terríveis acontecem em apartamentos", esta declaração simples, banal até, ganha um significado maior quando lembramos que esta foi a premissa sob a qual as tramas de Repulsa ao Sexo (1965) e O Inquilino (1965) também foram edificadas (estas são as outras duas produções que, junco com O Bebê de Rosemary, ficariam conhecidas como a "trilogia do apartamento"). 


O aparato técnico de O Bebê de Rosemary é soberbo e isso já fica evidente na sequência de abertura do filme, na qual a câmera ronda, pelo alto, o prédio no qual a trama se passa ao som de uma música, quase fúnebre, cantarolada pela própria Mia Farrow. Ainda que sua construção seja relativamente simples, esta cena já consegue nos causar alguns arrepios e isso denota o domínio que Polanski tem sobre a linguagem, o que também pode ser notado no restando do filme, em praticamente todos os aspectos, nos enquadramentos, na fotografia, na direção de arte, nos figurinos (prestem atenção na forma com que a cor da roupa usada ajuda a dissimular as reais intenções dos personagens, outros cineastas poderiam ter optado pelo óbvio, que seria o uso de roupas escuras pelos antagonistas e de roupas claras pelos protagonistas) e na maquiagem (a transformação da protagonista durante o filme é notável e o trabalho de maquiagem colabora muito para isso). 


Os excelentes desempenhos do elenco principal potencializam o efeito da trama e agregam ainda mais valor à obra, reforçando a minha tese de que ela já nasceu clássica. A Mia Farrow está ótima e sua interpretação conta muita no processo de identificação entre o público e a sua personagem, o que é fundamental para o bom funcionamento da trama (há o boato de que uma cena de nudez no filme, muito bem construída por sinal, teria sido o estopim para o fim do casamento da atriz com o cantor Frank Sinatra). A Ruth Gordon não deixa nenhuma dúvida de que foi justa a sua premiação no Oscar na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante, o tom caricato que ela dá à sua Minnie Castevet, também é essencial na construção de um dos conceitos mais importantes do roteiro... John Cassavetes, Sidney Blackmer e Ralph Bellamy mantêm o alto nível com grandes desempenhos.

O Bebê de Rosemary ganhou o Oscar na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante (Ruth Gordon), tendo sido indicado também ao prêmio de Melhor Roteiro Adaptado. No Globo de Ouro o filme venceu na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante (Ruth Gordon) e foi indicado aos prêmios de Melhor Roteiro, Melhor Atriz de Drama (Mia Farrow) e Melhor Trilha Sonora.


 Assista ao trailer de O Bebê de Rosemary no You Tube, clique AQUI !

Confiram também aqui no Sublime Irrealidade as críticas de Repulsa ao Sexo (1965)O Escritor Fantasma (2010) e Deus da Carnificina (2011), também dirigidos pelo Roman Polanski.

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.