sábado, 30 de novembro de 2013

Frances Ha

Frances Ha - 2012. Dirigido por Noah Baumbach. Escrito por Noah Baumbach e Greta Gerwig. Direção de Fotografia de Sam Levy. Produzido por Noah Baumbach, Scott Rudin, Rodrigo Teixeira e Lila YacoubPine District Pictures, RT Features e Scott Rudin Productions / USA.


Frances Halladay (Greta Gerwig) é uma aspirante a bailarina que tenta encontrar um lugar para si em um mundo no qual aparenta não caber. Ela divide um apartamento com Sophie Levee (Mickey Sumner), sua melhor amiga, juntas eles tentam driblar a monotonia e e falta de rumo de suas vidas, elas se completam e este vinculo afetivo é a relação mais consistente que ambas possuem. É a intensidade desta amizade que leva Frances a recusar o convite que o namorado lhe faz para morarem juntos e esta recusa acaba os levando ao rompimento. Sophie, no entanto, não faz a mesma escolha ao se ver diante de uma situação semelhante e sua repentina mudança torna ainda mais evidente o vazio da vida de Frances, que se vê então obrigada a lidar com a solidão, com a carência afetiva e com a falta de dinheiro. Sem ter tanta coisa em que se apegar, ela tenta se esconder atras de uma falsa felicidade, mas, sob a camuflagem de uma alegria fingida existem feridas não curadas e uma forte melancolia. O alto astral, que ela tenta demonstrar, é tão superficial quanto os relacionamentos que ela cria depois da partida da amiga e do término com o namorado.

Frances concentra em si diversas características atribuídas à geração 'y', ela é imediatista, não consegue estabelecer planos de longo prazo, age muitas das vezes movida pelo impulso e a falta de inteligência emocional acaba sendo um de seus maiores entraves. Tudo isso faz com que ela seja uma personagem extremamente empática e cativante, afinal de contas nela estão representados alguns de nossos próprios medos e dúvidas, isso leva ao surgimento de um processo de identificação entre o filme e parte de seu público e este processo é capaz de potencializar um dos principais efeitos do longa: o de chamar a atenção para a fragilidade dos princípios que nos regem na vida em sociedade e para o descolorido do mundo à nossa volta, que parece se tornar menos interessante à medida em que nossos relacionamentos se tornam mais inconsistentes e menos duradouros. 


Até ser surpreendida, Frances parecia acreditar que seu relacionamento com Sophie estava imune à qualquer tipo de crise, todavia, isso era uma mera ilusão. Por estar despreparada para enfrentar uma situação inesperada, ela recorre à tentativas falhas de se restabelecer de outras formas, que não através das relações. Percebe-se que ela quer provar para todos à sua volta que está bem e isso explica o exagero quase caricato de sua felicidade, que é tão frágil quanto as ilusões que ela criara anteriormente em relação à amizade com Shophie. Recai então sobre ela o peso das inúmeras cobranças que lhe são feitas pela sociedade: ela tem 27 anos e ainda não tem um emprego estável, não conseguiu alcançar sucesso em nada do que já fez e parece incapaz de viver relacionamentos amorosos que superem a condição de uma mera aventura efêmera... Sophie, por sua vez, tem tudo isso, mas ela também não está feliz, o que nos leva a crer que o padrão de felicidade que ela conquistou (o mesmo adotado pela sociedade) é incapaz de satisfazer seus anseios mais íntimos.


O drama de Frances é o mesmo de toda uma geração que optou pela liberdade em detrimento da segurança, o temor provocado pela incerteza em relação ao futuro e pela ameaça de que uma nova frustração possa reabrir velhas feridas tornou os laços afetivos ainda mais vulneráveis, transformando-os em algo extremamente assustador, indesejável até. É o vazio existencial e a falta de significado da vida que se levantam contra a protagonista e diante deles ela não sabe o que fazer, afinal de contas nem a segurança nem a liberdade são capazes de aplacá-los, resta-lhe então a difícil tarefa de conviver com a sensação de estar em uma realidade à qual não se pertence - Prestem atenção na situação que explica o porquê do sobrenome de Frances ter sido abreviado no título do filme, trata-se de uma metáfora que traduz a condição na qual ela se encontra. 


A fotografia em preto e branco dá ao filme uma aura melancólica, quase opressiva em algumas passagens, que reforça a dor presente em sua trama. Isso pode ser percebido em sequências como aquelas que retratam uma curta viagem que Frances faz para a França; a Paris retratada nessas cenas é bem diferente daquela que estamos acostumados a ver em outros filmes. Aqui o descolorido reforça a frieza da cidade e a solidão que a protagonista sente enquanto está lá, a passagem na qual ela tenta acender um cigarro, à margem do Rio Sena, é simples, mas dotada de uma grande carga de significação e representatividade - o isqueiro não funciona e isso basta para que ela esboce uma reação que deixa evidente a sua frustração, é como se nada mais desse certo e diante deste fatalismo até mesmo a "cidade luz" perde o seu brilho. O filme chega a causar um leve aperto no peito, por retratar um mundo plausivelmente real e tão próximo das nossas próprias realidades.


Greta Gerwig está brilhante no papel da protagonista, a sua construção da personagem é cuidadosa e de uma notável entrega. Não tenho dúvidas, Frances Ha é dela e este talvez venha a se tornar o seu papel mais emblemático. O fato dela também assinar o roteiro pode ser uma explicação para a intensidade de sua interpretação, que adquire por isso um viés ainda mais autoral... Noah Baumbach conseguiu o notável feito de dirigir um filme cômico, que passa longe da superficialidade da maioria das comédias românticas, e ao mesmo tempo dramático, sem precisar para tal apelar clichês ou exageros sentimentais... Por enquanto Frances Ha é apenas uma ótima produção com 'algo a mais', mas o tempo pode torná-lo ainda maior, afinal o que temos aqui é um filme sobre a nossa época, sobre nossos amores, sobre nossas amizades, sobre nós... Tudo isso tende a ficar ainda mais claro com o distanciamento proporcionado pelo passar dos anos.


Assistam ao trailer de Frances Ha no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

A Espuma dos Dias

A Espuma dos Dias (L'écume des Jours) - 2013. Dirigido por Michel Gondry. Escrito por Michel Gondry e Luc Bossi, baseado na obra literária de Boris Vian. Direção de Fotografia de Christophe Beaucarne. Música Original de Étienne Charry. Produzido por Luc Bossi. Brio Films, StudioCanal, Scope Pictures, France 2 Cinéma, Hérodiade, Radio Télévision Belge Francophone (RTBF) e Belgacom / França | Bélgica.


O filósofo Jean-Paul Sartre, um dos principais representantes da corrente existencialista, acreditava que o indivíduo só se definia como tal através de sua própria vivência; para ele a vida era absurda e destituída de qualquer sentido, sendo de tal modo caberia a cada um buscar a sua própria razão de ser (à qual ele chamou de essência) e não existia outra forma de encontrá-la a não ser através da experiência, ou seja, vivendo. Avesso à cultura do imediatismo, reforçada pelo consumismo capitalista, Sartre passou a defender a concepção de um 'projeto de vida', através do qual cada indivíduo, à sua maneira, estabeleceria uma meta, que o guiaria e motivaria cada uma de suas ações; ele acreditava que "o homem não é senão o seu projeto" e que ele "só existe na medida em que se realiza", não sendo portanto, "nada mais do que o conjunto dos seus atos, nada mais do que a sua vida". Sem este projeto o homem estaria condenado à agonia de apenas existir, sem jamais encontrar a sua verdadeira essência.

Em O existencialismo é um Humanismo, uma de suas obras mais importantes, Sartre defendeu que "o homem, antes de mais nada, é o que se lança para um futuro [...] um projeto que se vive subjetivamente,... nada existe anteriormente a este projeto;... o homem será antes de mais nada o que tiver projetado ser. Tal concepção, no entanto, pode representar um fardo demasiadamente pesado se for analisada por uma perspectiva diferente da adotada pelo filósofo em suas obras. A ideia de que o homem é o resultado de suas próprias ações e daquilo que planeja para a sua vida pode parecer um fruto de um humanismo quase positivista, contudo, esta mesma ideia joga sobre o indivíduo uma responsabilidade que na prática ele não é capaz de assumir e de suportar... Entender o conceito do 'projeto de vida' de Sartre e a crítica feita a ele é fundamental para que se possa compreender a trama e algumas das inúmeras metáforas presentes em A Espuma dos Dias, o novo filme de Michel Gondry, que pode ser analisado como uma crítica feroz à forma com que são interpretados alguns dos fundamentos do existencialismo. 


A história contada pelo longa é uma verdadeira desconstrução da ideia do 'projeto de vida'. O roteiro, que foi adaptado do livro de Boris Vian, aborda a incapacidade do indivíduo de sustentar a motivação, que deveria lhe conduzir à sua própria essência, ao se encontrar diante de peripécias proporcionadas pela vida, sob as quais ele não exerce controle algum... Na trama, Colin (Romain Duris) é um rapaz de condição social abastada que encontra no amor uma razão maior para sua existência, que parecia ser até então completamente vazia. A paixão correspondida lhe dá algo que as regalias e excentricidades que seu dinheiro comprava nunca foram capazes de lhe proporcionar. Em Chloé (Audrey Tautou), sua amada, ele encontra algo que o completa e isso faz com que ele comece a fazer planos e o 'projeto de vida', tal como defendido por Sartre, passa a fazer sentido para ele. A convivência a dois parece proporcionar a Colin uma felicidade ainda não experimentada, no entanto tudo começa a desabar depois que Chloé recebe o diagnóstico de uma grave doença que, silenciosamente, tomara o interior de seu peito. 

Rapidamente o amor idealizado e os planos para o futuro dão lugar a uma opressiva sensação de que a vida acabara de entrar em uma contagem regressiva. Tudo isso, no entanto, é contado pelo filme de uma forma poética e repleta de fantasia. A narrativa usa o surreal para representar o absurdo e a falta de sentido da existência, Michel Gondry cria então um realismo fantástico onde quase tudo é possível, à princípio toda a realidade diegética nos parece bela e extremamente cativante; de certo modo ela representa as inúmeras possibilidades de uma vida que se mostra como uma folha de papel em branco, pronta para ser preenchida com os frutos de sonhos e de ideais utópicos, todavia, a peripécia transforma aquilo que parecia um sonho em um pesadelo angustiante, a doença insurge como o fatalismo que mostra que nem tudo é possível. Pouco a pouco percebemos que é a realidade, tal como a conhecemos, que começa a macular a fantasia anteriormente observada.


A fragilidade dos planos de Colin (e da ideia do projeto de vida por extensãofica evidente á medida que a doença de sua esposa se agrava e o filme retrata tudo isso de uma forma extraordinariamente bela e ao mesmo tempo dolorosa, através da fotografia e da direção de arte são construídas também metáforas visuais que apelam ora para o sensorial, ora para o emocional, nos conduzindo a uma experiência sem tantos similares no cinema contemporâneo. Mas, a surpresa proporcionada nos primeiros atos do filme pelos elementos fantásticos, que surgiam a todo instante na tela, de repente dá lugar a uma sensação constante de claustrofobia. O absurdo deixa de ser novidade e passa a ser encarado com o olhar da repetição, que pouco a pouco lhe transforma em algo trivial, quase banal (o que remete à forma com que encaramos o absurdo de nossas próprias vidas)...


A narrativa se vale de inúmeros elementos visuais para retratar o impacto da descoberta da doença (que é uma clara referência o câncer) na vida dos personagens; sombras, poeira e telhas de aranha começam a se espalhar pela casa tornando a cada vez mais sombria, as portas e janelas se encolhem reforçando a sensação de aprisionamento que o protagonista experimenta. É de uma construção formidável, por exemplo, a passagem na qual Colin toma ciência da gravidade da doença de sua esposa, esta sequência é uma das que mostram o quanto a ruptura com o realismo, adotada pela narrativa, contribui de fato com o desenvolvimento da trama e com a reação que ela é capaz de provocar no público (ou ao menos em uma parcela dele). 


É interessante perceber que Nicolas (Omar Sy), o cozinheiro de Colin, também tem sua vida transformada pela doença de Chloé - ele envelhece oito anos em apenas dez dias - através dele a trama chama a atenção para um outro questionamento que também se choca com o penamento de Sartre: Estaria o indivíduo sujeito a sofrimento provocado pela falência do projeto de vida daqueles que estão à sua volta? Se a resposta a esta pergunta for 'sim', cai por terra boa parte dos pressupostas que sustentam o ideal do 'projeto de vida'. Esta e outras dúvidas levantadas pela trama nos conduzem à inúmeras outras questões, dentre elas uma que é de extrema importância para a construção da crítica ensaiada pelo filme: Há de fato alguma essência a ser encontrada, ou o que acreditamos ser a realização não passa de uma ilusão proporcionada pela crença em um ideal distante, que talvez nunca se realize? 


Há ainda um outro personagem de extrema importância para a construção das referências à obra do já citado filósofo existencialista, ele é Chick (Gad Elmaleh), o melhor amigo de Colin, ele é um seguidor fanático do escritor Jean-Sol Partre (uma óbvia referência a Sartre, como o nome sugere), que prega uma versão satírica do projet de la vie, o jovem rapaz segue o pensamento de seu ídolo de uma forma religiosa e ele não está sozinho, Partre reúne em torno de si uma multidão de pessoas que anseiam por encontrar suas próprias 'essências'. Percebemos então que a crítica que o filme faz não é ao Sartre, mas ao que fizeram da filosofia dele. Não é por acaso que o personagem que o satiriza faz dos lançamentos de cada edição de seus livros algo similar a um culto, que reúne em polvorosa a sua legião de adoradores (ops, leitores); está aí uma crítica ao consumismo que esvazia de significado até a filosofia mais complexa e a converte em uma religião, algo superficial e facilmente digerível. 


Outra passagem do filme mostra os livros de Jean-Sol Partre sendo vendidos em capsulas (das quais Chick logo se torna dependente) com esta inferência o filme associa o objeto de sua sátira - a filosofia de Sartre - às pilulas da felicidade (leia-se anti-depressivos, ansiolíticos, etc), medicamentos usados para aplacar os efeitos do contato com a falta de sentido da vida... Ao final de A Espuma dos Dias, a citação de Sartre que diz que  "[...] o homem é responsável por aquilo que é, assim, o primeiro esforço do existencialismo é o de pôr todo homem no domínio do que ele é e de lhe atribuir a total responsabilidade de sua existência", chega a soar tão absurda quanto o mundo ao qual o filme nos apresentou em seu começo e é então que percebe-se o quanto Michel Gondry é bem sucedido em seu propósito, ele consegue nos inserir e nos conduzir por um processo mental que transforma aquilo que nos parecia absurdo em algo corriqueiro e aquilo que parecia ser tão coerente em um completo disparate...


Destaco, além do roteiro e dos elementos técnicos (fotografia, direção de arte, trilha sonora, figurinos e maquiagem), os bons desempenhos de todo o elenco principal, Romain Duris transita com notável desenvoltura pela realidade na qual seu personagem está inserido, a Audrey Tautou consegue com olhares e gestos sutis nos convencer da fragilidade de sua Chloé e Omar Sy nos presenteia mais uma vez com o alto poder de cativação que sua figura possui, o que é muito bem usado na trama para criar uma espécie de contraste entre os dois momentos retratados pelo filme... Como eu disse no início desta resenha, a compreensão dos pressupostos que serviram de base para a trama é de fundamental importância para uma apreciação plena daquilo que o filme tem a nos oferecer e sem ela tudo o que vemos nele pode parecer ser apenas um amontoado de esquetes surrealistas sem um significado maior. A Espuma dos Dias não é uma obra-prima, mas isso não tira o mérito de seus realizadores, que nos presentearam com uma das obras mais bonitas e complexas deste ano.


Assistam ao trailer de A Espuma dos Dias no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.