quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Sobre muralhas, segredos e silêncios intransponíveis...

Quanto tempo é necessário para se conhecer alguém de verdade? Paulo se acomodou no sofá e em silêncio continuou a fitar Mariana, que assistia a novela enquanto acariciava Julia, a filha caçula de seis anos que adormecera em seu colo. Em menos de um mês eles estariam completando dez anos de casados. Tinham dois filhos, bons empregos e uma vida invejável. Naquele dia Paulo chegara mais cedo do trabalho, coisa rara, beijou a esposa, a filha e foi direto para o banho. Demorou mais do que de costume e quando voltou para a sala de estar se viu perdido em seus próprios pensamentos. Nem se deu conta quando, antes de adormecer, a filha o chamou e apontou em um comercial algo que todas as outras meninas da escola tinham, só ela não. Mariana, que tinha chegado bem antes de seu trabalho, se mantinha concentrada na novela enquanto o marido divagava em seus universos interiores. 

Por alguns instantes, Paulo pensou no quanto ele próprio havia mudado nesta última década e de repente se sentiu um estranho em sua própria casa. Sabia que estava longe de ser um modelo de pai e marido; apesar de não fazer muito o tipo viciado em trabalho, passara a chegar cada vez mais tarde em casa e, mesmo acompanhando de perto todo o processo de formação dos filhos, ele se sentia alheio a tudo, um invasor, alguém que estava a ponto de ser posto para fora - Imaginou como seria se naquele exato momento policiais adentrassem a sala e o retirassem de lá sob a acusação de invasão de domicílio - Seu devaneio foi interrompido por um singelo chamado do mundo real, era Mariana que, percebendo o seu distanciamento, o trouxe de volta apenas com um olhar, um daqueles seus olhares carregados de algo que poderia ser facilmente confundido com empatia, que foi seguido por um sorriso ameno que denotava, ainda que de forma sutil, carinho e compaixão. 

Paulo, no entanto, se sentiu ainda mais incomodado com aquele sorriso. Era o mesmo sorriso do tempo de namoro, da época em que se conheceram na faculdade, ele cursando direito, ela economia. Foi então que ele se deu conta de que, diferente dele, Mariana não tinha mudado praticamente nada. Ela continuava a mesma, no olhar, no jeito calmo de defender um ponto de vista, na escolha minuciosa das palavras quando se dirigia a um estranho... Mas, naquele dia o estranho era ele. Imaginou que ela, após o sorriso compassivo, estivesse a escolher mentalmente a melhor maneira de perguntá-lo como foi no trabalho e se estava tudo bem. Ela não o fez, continuou em silêncio, mudou levemente a posição de Julia em seu colo e se voltou novamente para a novela.

O contato com a realidade durou pouco, Paulo foi novamente tomado pelo fluxo de pensamentos que jorrava como nunca antes acontecera. De súbito ele se viu imerso em lembranças de um dia específico, um dia que ele aparentemente, sem saber o porquê, tinha deletado de sua memória. Mais de quatro anos se passara desde a tarde em que, ao chegar em casa, ele fora abordado pela vizinha, uma doce senhora, que lhe entregou uma carta sem remetente endereçada à Mariana, que por engano fora deixada na caixa de correios da casa errada. Era estranho, mas podia ser qualquer coisa; um folder com promoções de uma loja, um convite para algum evento, um panfleto político talvez... Ficou curioso, mas relutou em abrir uma correspondência que não lhe pertencia. 

Mariana não conseguiu esconder o desconforto que a entrega da carta lhe causou. O olhar apreensivo contrastava e muito com o olhar ameno ao qual Paulo já estava tão acostumado. Ele quis perguntar do que se tratava, mas, ao tentar seguir a esposa até o quarto, foi impedido por Lucas, o filho mais velho, que tentava lhe mostrar o novo recorde que acabara de bater no vídeo game... Ninguém mais falou sobre a misteriosa correspondência, mas, no meio da noite Paulo acordou e se deparou com a esposa sentada à beira da cama. De costa para ele, ela tentava esconder um choro silencioso, reprimido. Ele a abraçou, como se tentasse protegê-la de uma ameaça que ele próprio desconhecia, e perguntou o que tinha acontecido, quase sussurrando ao seu ouvido, como se ali no quarto existisse mais alguém à espreita. Ela apenas enxugou as lágrimas, sorriu e respondeu que não era nada. O silêncio preencheu novamente cada canto do aposento; Mariana adormeceu primeiro...

Paulo se viu de novo no sofá e, mesmo não tendo dormido, sentiu como se tivesse despertado naquele instante, foi só então que percebeu que a televisão já estava desligada e Mariana já tinha ido levar Julia para o quarto dela e neste momento já devia estar no quarto de Lucas ordenando que ele desligasse o computador e fosse para a cama. Atormentado pelas dúvidas que voltaram à tona, Paulo foi para a varanda, acendeu um cigarro e se debruçou sobre o parapeito - De quem seria aquela carta? Por que ela deixara Mariana tão desconcertada? Por que a memória daquele dia parecia ter sido deletada de sua mente? - Veio-lhe então o pensamento de que talvez naquela madrugada, quando abraçou a esposa tentando confortá-la, eles tenham vivido o último momento real de suas vidas e que desde então tudo se tornara apenas um simulacro do casamento que um dia idealizaram... Talvez tenha sido naquele dia que a relação começou a esfriar e o sexo deixou de ser como era no princípio. Não sabia dizer ao certo, mas era bem provável que o fosse. 

Mais uma vez foi Mariana quem trouxe Paulo de volta para a realidade, desta vez com um carinho delicado em seu rosto, ele se virou um tanto assustado e ela disse apenas: "você precisa fazer a barba". Mariana tirou um cigarro do maço que estava sobre o parapeito, acendeu e se pôs ao lado do marido. Ambos permaneceram calados, lado a lado por longos minutos, os olhares perdidos como se contemplassem algo ao longe... Paulo resolveu quebrar o silêncio e comentou: "falta menos de um mês, a gente precisa começar a planejar a festa"...